Oitava queda seguida do Ibovespa é evento raro: desde 2000, ocorreu apenas sete vezes, incluindo a atual sequência que acumula queda de 6,12%. Bancos como BB e Sabesp pressionam índice com resultados decepcionantes; mercado também precifica cenário eleitoral e dúvidas sobre arcabouço fiscal.
Ibovespa cai pela 8ª vez seguida; fenômeno ocorreu apenas 7 vezes desde 2000
O mercado quer sinais de recuperação fiscal que ninguém quer dar agora
Por que oito quedas seguidas é tão raro? Parece um número arbitrário.
Não é arbitrário. Oito pregões consecutivos de queda é estatisticamente raro porque os mercados tendem a ter dias de recuperação, mesmo em períodos de stress. Desde 2000, isso aconteceu apenas sete vezes. Quando acontece, geralmente é sinal de algo estrutural — crise financeira, recessão, choque político.
Mas dessa vez a queda é menor que nas outras vezes. Por quê?
Porque o mercado está sendo mais seletivo. Alguns setores caem muito — bancos, saúde — enquanto outros sobem. Educação, logística, varejo. Não é um colapso generalizado. É mais um realinhamento.
Os estrangeiros estão saindo. Para onde?
Para inteligência artificial, principalmente. Coreia do Sul, Japão, Estados Unidos. O Brasil não tem players grandes em IA. Então enquanto o Nasdaq sobe, a Bolsa cai. É uma questão de alocação global.
E as eleições? Quanto disso é medo político?
Bastante. O mercado quer saber se haverá um novo desenho fiscal. Mas nenhum candidato fala sobre isso agora porque não é popular. Então fica a dúvida, e a dúvida afasta dinheiro.
Os bancos estão realmente em apuros?
Não em apuros existenciais, mas sob pressão. Juros altos no Brasil aumentam a inadimplência. Os bancos estão provisionando mais, ganhando menos. É um ciclo que vai levar tempo para virar.
Então quando muda?
Quando o Banco Central conseguir cortar juros sem pressionar a inflação, quando o fiscal ficar mais claro após as eleições, e quando os estrangeiros voltarem a olhar para o Brasil. Nenhuma dessas coisas está próxima.
The Pulse
- Oitava queda consecutiva do Ibovespa em 6,12% acumulados
- Fenômeno ocorreu apenas sete vezes desde janeiro de 2000
- Banco do Brasil caiu 4,16% e Sabesp recuou 7,04% após balanços
- Estrangeiros buscam oportunidades em inteligência artificial em outros mercados
Oitava queda seguida do Ibovespa é evento raro: desde 2000, ocorreu apenas sete vezes, incluindo a atual sequência que acumula queda de 6,12%. Bancos como BB e Sabesp pressionam índice com resultados decepcionantes; mercado também precifica cenário eleitoral e dúvidas sobre arcabouço fiscal.
O Ibovespa caiu 0,23% nesta quinta-feira, completando oitava sessão negativa consecutiva com queda acumulada de 6,12%. Movimento raro ocorreu apenas sete vezes desde 2000, impulsionado por resultados corporativos fracos e preocupações eleitorais.
A Bolsa brasileira fechou em queda nesta quinta-feira, completando um fenômeno raro: oito pregões consecutivos de perdas. O Ibovespa recuou 0,23%, terminando em 167.100,95 pontos, acumulando uma queda de 6,12% ao longo dessa sequência. Desde janeiro de 2000, apenas sete vezes o índice havia registrado oito quedas seguidas — e essa é a oitava ocorrência.
O movimento chama atenção não apenas pela duração, mas pela intensidade contida. Quando a Bolsa caiu oito vezes consecutivas em agosto de 2023, a perda acumulada foi de apenas 2,95%. Nas outras seis ocasiões desde 2000, as perdas foram muito mais severas: 11,87% em 2000, 17,20% em 2001, 11,73% em 2012, 9,47% em 2015 e 9,19% em 2022. A queda atual de 6,12% situa-se no meio do caminho — significativa, mas não catastrófica.
O dia começou com esperança. Dados de inflação dos Estados Unidos — tanto o índice de preços ao consumidor quanto o de preços ao produtor — chegaram mais comportados do que o esperado. Isso reforçou a percepção de que o Federal Reserve pode manter os juros onde estão, entre 3,5% e 3,75%, nas próximas reuniões, reduzindo a probabilidade de aperto em setembro. Para analistas, esse cenário ajuda mercados emergentes como o Brasil e dá mais espaço para o Banco Central continuar cortando a taxa Selic. Mas a reação positiva não durou.
Os resultados corporativos do segundo trimestre pesaram. A Sabesp recuou 7,04% após divulgar lucro de R$ 1,46 bilhão — 31,4% abaixo do ano anterior, embora dentro do esperado pelo mercado. O Banco do Brasil caiu 4,16%, apesar de lucro acima das projeções, porque a inadimplência permanece pressionada, especialmente nos segmentos de agronegócio e pessoa física. Rede D'Or foi exceção, valorizando 6,31% com lucro ajustado de R$ 1,3 bilhão, 8,5% superior ao ano anterior. Mas os bancos — setor de peso no índice — desanimaram o mercado. Geovanne Tobias, vice-presidente de Gestão Financeira do BB, afirmou que as provisões ficariam na ponta alta das estimativas enquanto o lucro ficaria na ponta baixa. Essa sinalização desencadeou vendas.
Além dos balanços, o mercado começou a precificar o cenário eleitoral. Analistas observam crescente preocupação com a questão fiscal, com o discurso dos candidatos à presidência — Luiz Inácio Lula da Silva, que tenta a reeleição, e Flávio Bolsonaro, seu principal opositor. O mercado quer sinais de recuperação do arcabouço fiscal, mas nenhum candidato sinaliza isso agora, pois não é tema popular próximo à eleição. Essa incerteza afasta investidores.
Os estrangeiros continuam retirando recursos. Analistas apontam que o interesse internacional está em setores onde o Brasil tem pouca presença — especialmente inteligência artificial em mercados como Coreia do Sul, Japão e Estados Unidos, onde o Nasdaq segue em alta. Guto Leite, gestor de renda variável da Franklin Templeton, resumiu o sentimento: olhando para os bancos, o resultado não anima. As teleconferências e interações com as companhias deixam uma visão pouco animadora para o restante do ano.
Hapvida desabou 33,09% após o lucro do segundo trimestre cair 95,8%, para apenas R$ 12,5 milhões, com aumento do endividamento. Minerva caiu 7,60% com lucro de R$ 197 milhões, queda de 57%. Azzas perdeu 3,90% com lucro reduzido em 62,5%. Mas nem tudo foi queda: MRV&CO avançou 14,29%, Cogna subiu 7,88%, Rumo ganhou 4,55% e Ultrapar subiu 5,08% com lucro 46% maior. CSN surpreendeu ao subir 5,56% apesar de prejuízo de R$ 773,1 milhões — maior que o prejuízo do trimestre anterior, mas o mercado reagiu à análise do resultado.
O cenário macro local oferecia algum alento. As vendas no varejo cresceram 0,45% em relação a maio e 2,9% ante junho de 2025, acima do esperado. Mas esse dado reforçou apostas de novo corte de 0,25 ponto porcentual na Selic para 13,75%, sinalizando que a atividade está desacelerando, ainda que gradualmente. A Bolsa segue presa entre sinais contraditórios: inflação controlada nos EUA, mas incerteza fiscal doméstica; varejo resiliente, mas bancos sob pressão; e um mercado internacional que prefere estar em outro lugar.
Notable Quotes
O movimento atual chama atenção não apenas pela duração da sequência, mas também pela intensidade da correção— Elos Ayta
O mercado está cada vez mais preocupado com o fiscal, com o discurso dos candidatos a presidente— Kevin Oliveira, sócio e advisor da Blue3