Rebaixamento do J.P. Morgan desencadeou venda massiva de investidores estrangeiros, pressionando índice para 167.875 pontos. Incerteza sobre política econômica pós-eleição, juros reais elevados e déficit fiscal motivaram mudança de recomendação do banco.
Ibovespa cai 2,5% após rebaixamento do J.P. Morgan e pesquisa eleitoral
O mercado está ficando disfuncional, porque tem muitas ações negociando abaixo de 4 vezes preço sobre lucro
Por que um rebaixamento de um banco americano causa uma queda tão grande na bolsa brasileira?
Porque sinaliza que o dinheiro estrangeiro está saindo. Quando o J.P. Morgan muda de compra para neutra, fundos internacionais que seguem essas recomendações começam a vender. E como esses investidores têm muito capital, a venda é massiva e rápida.
Mas o cenário econômico mudou desde maio?
Não, segundo os gestores locais. Lula estava à frente em maio, está à frente agora. Os juros altos e o déficit fiscal já existiam. O que mudou foi o preço das ações — caíram bastante — e o J.P. Morgan decidiu reagir agora.
Então o banco está atrasado?
Parece que sim. Se a incerteza política era o problema, deveria ter rebaixado em abril ou maio, quando o cenário era o mesmo. Rebaixar em agosto, depois que as ações já caíram 20% a 50%, parece reativo, não preventivo.
O que significa o EWZ sair da média móvel de 200 dias?
Significa que o fundo perdeu um suporte técnico importante. Investidores que usam análise técnica veem isso como sinal de que a tendência de alta terminou. Quando isso acontece, mais gente vende por medo de perdas maiores.
Há algo que poderia parar essa queda?
Um comprador relevante entrando no mercado. Mas ninguém está comprando. As ações estão baratas — negociando abaixo de 4 vezes o lucro — mas o mercado está tão assustado que nem isso atrai investidores.
O Pulso
- Ibovespa caiu 2,50%, fechando aos 167.875 pontos — maior queda diária desde 12 de março
- J.P. Morgan rebaixou recomendação para o Brasil de compra para neutra
- EWZ caiu 3,44% e rompeu a média móvel de 200 dias, saindo da tendência de alta
- BTG Pactual caiu 5,80%; Petrobras caiu 1,35%; Vale recuou 2,02%
Rebaixamento do J.P. Morgan desencadeou venda massiva de investidores estrangeiros, pressionando índice para 167.875 pontos. Incerteza sobre política econômica pós-eleição, juros reais elevados e déficit fiscal motivaram mudança de recomendação do banco.
O Ibovespa registrou sua maior queda diária desde março (2,50%) após o J.P. Morgan rebaixar a recomendação do Brasil de compra para neutra, combinado com pesquisa mostrando vantagem de Lula sobre Bolsonaro.
A bolsa brasileira desabou nesta terça-feira. O Ibovespa caiu 2,50%, fechando aos 167.875 pontos — sua pior sessão desde março — depois que o J.P. Morgan rebaixou sua recomendação para o Brasil de compra para neutra. O movimento desencadeou uma fuga massiva de investidores estrangeiros que, segundo gestores consultados, pressionou o índice para baixo com força suficiente para romper níveis técnicos importantes. O EWZ, o principal fundo de ações brasileiras negociado em Nova York, caiu 3,44% e rompeu a média móvel de 200 dias, saindo da tendência de alta que vinha sustentando o mercado desde maio.
O banco americano justificou a mudança de posição citando incerteza sobre a política econômica que o próximo presidente terá de enfrentar. Juros reais elevados — na casa de um dígito alto — combinados com um déficit fiscal estrutural deixam pouco espaço de manobra. Os analistas do J.P. Morgan esperam mais um corte de 0,25 ponto percentual na Selic em setembro, seguido de uma pausa longa até o segundo trimestre de 2027, enquanto a atividade econômica desacelera e o crédito se deteriora. "Tanto as ações quanto o real têm oscilado dentro de uma faixa desde maio, indicando que há pouco prêmio ou desconto eleitoral nos preços", escreveram.
A queda foi amplificada por um segundo fator: a divulgação de uma pesquisa CNT/MDA mostrando que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aumentou sua vantagem sobre Flávio Bolsonaro. Para alguns investidores, isso reforçou a incerteza sobre qual será a direção da política econômica após as eleições de outubro. Os bancos lideraram as perdas do dia. As units do BTG Pactual recuaram 5,80%, pressionadas também por decepção com a composição do crescimento e algumas métricas operacionais divulgadas no balanço do segundo trimestre. O Santander foi a exceção, subindo 0,92%. As ações de commodities também sofreram: Petrobras caiu 1,35% e Vale recuou 2,02%.
Mas nem todos os gestores concordam que o rebaixamento foi justificado. Christian Keleti, CEO e gestor da AlphaKey, argumenta que o timing foi tardio. "Lula nunca deixou de estar à frente. Três meses atrás, o cenário era esse e as ações estavam entre 20% e 50% acima dos níveis atuais. Então, se a avaliação era de venda por causa da incerteza política, era para ter feito o downgrade em abril ou maio. Em agosto, está chegando atrasado", afirmou. Keleti também observa que a venda foi desproporcionalmente concentrada em papéis de alta liquidez — BTG Pactual, Petrobras, Itaú e Axia Energia — o que pressionou o índice e, por efeito cascata, as demais ações domésticas.
O mercado, na visão de Keleti, está ficando "disfuncional". Muitas ações estão negociando abaixo de 4 vezes o preço sobre lucro, mas nenhum comprador relevante entra para aproveitar a oportunidade. Thalles Franco, sócio e gestor de renda variável da RPS Capital, sugere que a queda pode ter sido intensificada por um efeito técnico: investidores que definiram limites de perda (stops) foram forçados a zerar posições quando o índice bateu esses patamares, retroalimentando a queda. O índice tocou a máxima de 172.386 pontos no início do pregão antes de despencar para a mínima de 167.569 pontos. O que vem agora dependerá de como o mercado absorver a incerteza eleitoral e se conseguirá encontrar um novo piso técnico.
Citações Notáveis
O mercado está ficando disfuncional, porque tem muitas ações negociando abaixo de 4 vezes preço sobre lucro. E não entra nenhum comprador relevante.— Christian Keleti, CEO e gestor da AlphaKey
Lula nunca deixou de estar à frente. Três meses atrás, o cenário era esse e as ações estavam entre 20% e 50% acima dos níveis atuais. Então, se a avaliação era de venda por causa da incerteza política, era para ter feito o downgrade em abril ou maio. Em agosto, está chegando atrasado.— Christian Keleti, CEO e gestor da AlphaKey