Ibovespa cai 0,81% com pressão de juros globais e incerteza política doméstica

Navegando em dois fronts ao mesmo tempo: o exterior volátil e a política doméstica incerta
Analista da Rico resume a pressão simultânea que derrubou o Ibovespa nesta semana.
Mark

Por que a bolsa caiu justamente nesta sexta, quando os índices americanos subiram?

Mimi

Porque o Brasil é mais sensível às mudanças nas expectativas de juros globais. Quando o Federal Reserve sinaliza juros mais altos por mais tempo, o dinheiro flui para fora dos mercados emergentes. A gente vê isso no dólar subindo e na bolsa caindo.

Mark

E a política doméstica? O Datafolha com Flávio Bolsonaro realmente afetou o mercado?

Mimi

Afetou, mas não foi o fator principal. O que importa é que a incerteza política se soma à incerteza externa. Quando você tem dois problemas ao mesmo tempo, o mercado fica paralisado. Ninguém sabe se investe ou se sai.

Mark

Seis semanas seguidas de queda é muito. Isso é um sinal de que algo está quebrado?

Mimi

Não necessariamente quebrado, mas em transição. O Ibovespa renovou recordes em abril. Agora está corrigindo enquanto o mundo redefine onde os juros vão parar. É normal, mas é desconfortável.

Mark

Por que o setor metálico subiu enquanto tudo mais caía?

Mimi

Porque commodities como minério de ferro e aço têm demanda global. Quando há incerteza sobre juros, investidores ainda buscam ativos reais. Vale e Gerdau oferecem isso.

Mark

Os analistas acham que vai piorar ou melhorar?

Mimi

Estão divididos. Metade acha que cai mais, metade acha que estabiliza. Ninguém está otimista. Isso diz tudo sobre o clima.

  • O Ibovespa acumula seis semanas seguidas de queda e já recua quase 6% em maio, apagando parte relevante dos ganhos do ano.
  • A posse de Kevin Warsh no Fed e declarações sobre juros altos por mais tempo elevaram os rendimentos futuros no Brasil e no exterior, pressionando ativos de risco.
  • No front político, pesquisa Datafolha mostrou desgaste de Flávio Bolsonaro após revelações sobre financiamento do documentário Dark Horse, mas o senador mantém empate técnico com Lula.
  • Enquanto bancos e Petrobras puxaram o índice para baixo, siderúrgicas como CSN e Usiminas nadaram contra a corrente com altas expressivas.
  • O mercado segue sem consenso: quase metade dos profissionais espera nova queda na próxima semana, e apenas 14% apostam em recuperação.

Em mais uma sexta-feira de incertezas sobrepostas, o Ibovespa encerrou em queda pela sexta semana consecutiva, carregando o peso de um cenário político doméstico em reconfiguração e de uma ordem financeira global que resiste a se estabilizar. O índice, que havia renovado recordes em meados de abril, acumula agora uma retração expressiva em maio — lembrança de que os picos de euforia raramente sustentam o que prometem. Entre a posse de um novo presidente do Federal Reserve, a volatilidade geopolítica e a corrida eleitoral brasileira ainda aberta, o mercado navega sem bússola clara.

A bolsa brasileira não encontrou alívio na última sessão da semana. O Ibovespa recuou 0,81%, encerrando aos 176.209 pontos e completando seis semanas consecutivas no vermelho — sequência que remonta ao meio de abril, quando o índice ainda celebrava recordes históricos. Desde então, em 26 pregões, subiu em apenas oito. Em maio, a retração acumulada chega a 5,93%.

O cenário externo contribuiu para o clima de cautela. Kevin Warsh foi empossado presidente do Federal Reserve por Donald Trump, prometendo reformas institucionais e reconhecendo os desafios à frente. Antes disso, o diretor Christopher Waller reforçou a perspectiva de juros elevados por mais tempo nos EUA. Dados da Universidade de Michigan apontaram piora na confiança do consumidor americano e alta nas expectativas de inflação — combinação que pressionou os juros futuros no Brasil. Ainda assim, as bolsas americanas fecharam em alta moderada.

No mercado doméstico, o setor metálico foi exceção positiva: CSN saltou 6,15%, Usiminas avançou 5,61% e Gerdau subiu 2,17%. Já os bancos e a Petrobras pesaram sobre o índice, com recuos entre 1% e 1,78%. O dólar fechou em alta, cotado a R$ 5,02.

No campo político, uma pesquisa Datafolha divulgada à tarde mostrou queda nas intenções de voto de Flávio Bolsonaro após a revelação de recursos de Daniel Vorcaro, do extinto Banco Master, destinados ao documentário sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Mesmo assim, o senador mantém empate técnico com Lula, e aliados interpretaram o resultado como sinal de campanha ainda viável.

A analista Bruna Sene, da Rico, resumiu a semana como uma navegação simultânea em dois fronts: as negociações entre EUA e Irã e a reconfiguração do cenário eleitoral brasileiro. A economista Jucelia Lisboa, da Siegen, lembrou que ambientes de juros altos nas economias desenvolvidas tendem a tornar mercados emergentes como o Brasil relativamente menos atrativos. O conflito no Oriente Médio, que já dura quase três meses, segue afetando o fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz — mais uma variável sem prazo de resolução à vista.

A bolsa brasileira fechou a sexta-feira, 22 de maio, em terreno negativo. O Ibovespa recuou 0,81%, encerrando o dia aos 176.209 pontos, depois de ter flertado com a marca dos 174 mil durante a sessão. O movimento conteve perdas maiores, mas não foi suficiente para evitar que o índice acumulasse uma sexta semana consecutiva de queda — um período que remonta ao meio de abril, logo após o índice ter renovado recordes no dia 14 daquele mês.

Desde então, em 26 pregões, o Ibovespa subiu em apenas oito deles. Nesta sexta, oscilou entre 174.893 e 177.648 pontos, com giro moderado de 21 bilhões de reais. No mês de maio, o recuo acumulado é de 5,93%, o que limita o avanço do ano a 9,36%. A semana fechou com retração de 0,61%.

O cenário externo pesou. Kevin Warsh, novo presidente do Federal Reserve, foi empossado nesta sexta pelo presidente Donald Trump, que afirmou que Warsh restauraria a confiança no banco central americano. Warsh, por sua vez, disse não ser ingênuo quanto aos desafios enfrentados e prometeu liderar um Fed voltado para reformas institucionais. Mais cedo, Christopher Waller, diretor do Federal Reserve, havia reforçado a possibilidade de juros mais altos por mais tempo nos Estados Unidos. Dados da Universidade de Michigan mostraram piora na confiança do consumidor e alta nas expectativas de inflação, elevando os juros futuros no Brasil e no exterior. Apesar disso, os principais índices americanos subiram: Dow Jones avançou 0,58%, S&P 500 subiu 0,37% e Nasdaq ganhou 0,19%.

No mercado doméstico, o setor metálico se desgarrou da correção. Vale subiu 0,57%, Gerdau avançou 2,17%, CSN saltou 6,15% e Usiminas ganhou 5,61%. Mas o dia foi majoritariamente negativo para outros pesos-pesados: Petrobras caiu 0,30% (ordinária) e 1,05% (preferencial), enquanto os bancos sofreram — Itaú preferencial recuou 1,72%, Santander caiu 1,78%, Bradesco ordinária caiu 0,96% e preferencial 1,56%. O dólar fechou em alta de 0,54%, cotado a 5,02 reais. Azzas ganhou 3,86%, enquanto Minerva perdeu 6,20%, MBRF caiu 4,05% e Cyrela recuou 3,93%.

No front político, a tarde trouxe uma pesquisa Datafolha que mostrou perda para Flávio Bolsonaro, senador e pré-candidato da oposição, após a revelação de recursos destinados por Daniel Vorcaro, do extinto Banco Master, ao filme Dark Horse, documentário sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Apesar da retração, Flávio mantém empate técnico com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Correligionários do senador interpretaram o resultado como sinal de que a campanha dele não está a ponto de desabar e segue competitiva. Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara, escreveu em redes sociais que Flávio permanece variando dentro da margem de erro, continua plenamente viável e altamente competitivo.

Bruna Sene, analista de renda variável da Rico, resumiu o cenário: na semana anterior, o risco eleitoral havia entrado em cena de forma intensa; nesta, o mercado navegou em dois fronts simultaneamente — as negociações entre Estados Unidos e Irã e a reconfiguração do cenário político doméstico. O Ibovespa encerrou pressionado pela combinação de cenário externo volátil, juros globais em alta e aumento da incerteza política doméstica.

O mercado segue dividido quanto ao desempenho da bolsa na próxima semana. Segundo o Termômetro Broadcast Bolsa, 42,86% dos profissionais esperam queda do Ibovespa, outros 42,86% esperam estabilidade e apenas 14,29% projetam alta. Jucelia Lisboa, economista e sócia da Siegen, aponta que as incertezas em relação à inflação global e às trajetórias de juros afetam principalmente mercados emergentes como o Brasil, que tendem a se tornar relativamente menos atrativos em um ambiente de juros mais altos nas economias desenvolvidas. O conflito entre EUA e Israel contra o Irã, iniciado há quase três meses, continua afetando a passagem do petróleo pelo Estreito de Ormuz.

Mesmo sob forte ataque nos últimos 7 dias, nosso pré-candidato a presidente, Flávio Bolsonaro, mostra no Datafolha de hoje que permanece variando dentro da margem de erro; continua plenamente viável e altamente competitivo
— Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara
O Ibovespa encerrou o período pressionado pela combinação de cenário externo volátil, juros globais em alta e aumento da incerteza política doméstica
— Bruna Sene, analista de renda variável da Rico
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