Em mais uma sexta-feira de incertezas sobrepostas, o Ibovespa encerrou em queda pela sexta semana consecutiva, carregando o peso de um cenário político doméstico em reconfiguração e de uma ordem financeira global que resiste a se estabilizar. O índice, que havia renovado recordes em meados de abril, acumula agora uma retração expressiva em maio — lembrança de que os picos de euforia raramente sustentam o que prometem. Entre a posse de um novo presidente do Federal Reserve, a volatilidade geopolítica e a corrida eleitoral brasileira ainda aberta, o mercado navega sem bússola clara.
Ibovespa cai 0,81% com pressão de juros globais e incerteza política doméstica
Navegando em dois fronts ao mesmo tempo: o exterior volátil e a política doméstica incerta
Por que a bolsa caiu justamente nesta sexta, quando os índices americanos subiram?
Porque o Brasil é mais sensível às mudanças nas expectativas de juros globais. Quando o Federal Reserve sinaliza juros mais altos por mais tempo, o dinheiro flui para fora dos mercados emergentes. A gente vê isso no dólar subindo e na bolsa caindo.
E a política doméstica? O Datafolha com Flávio Bolsonaro realmente afetou o mercado?
Afetou, mas não foi o fator principal. O que importa é que a incerteza política se soma à incerteza externa. Quando você tem dois problemas ao mesmo tempo, o mercado fica paralisado. Ninguém sabe se investe ou se sai.
Seis semanas seguidas de queda é muito. Isso é um sinal de que algo está quebrado?
Não necessariamente quebrado, mas em transição. O Ibovespa renovou recordes em abril. Agora está corrigindo enquanto o mundo redefine onde os juros vão parar. É normal, mas é desconfortável.
Por que o setor metálico subiu enquanto tudo mais caía?
Porque commodities como minério de ferro e aço têm demanda global. Quando há incerteza sobre juros, investidores ainda buscam ativos reais. Vale e Gerdau oferecem isso.
Os analistas acham que vai piorar ou melhorar?
Estão divididos. Metade acha que cai mais, metade acha que estabiliza. Ninguém está otimista. Isso diz tudo sobre o clima.
O Pulso
- O Ibovespa acumula seis semanas seguidas de queda e já recua quase 6% em maio, apagando parte relevante dos ganhos do ano.
- A posse de Kevin Warsh no Fed e declarações sobre juros altos por mais tempo elevaram os rendimentos futuros no Brasil e no exterior, pressionando ativos de risco.
- No front político, pesquisa Datafolha mostrou desgaste de Flávio Bolsonaro após revelações sobre financiamento do documentário Dark Horse, mas o senador mantém empate técnico com Lula.
- Enquanto bancos e Petrobras puxaram o índice para baixo, siderúrgicas como CSN e Usiminas nadaram contra a corrente com altas expressivas.
- O mercado segue sem consenso: quase metade dos profissionais espera nova queda na próxima semana, e apenas 14% apostam em recuperação.
Em mais uma sexta-feira de incertezas sobrepostas, o Ibovespa encerrou em queda pela sexta semana consecutiva, carregando o peso de um cenário político doméstico em reconfiguração e de uma ordem financeira global que resiste a se estabilizar. O índice, que havia renovado recordes em meados de abril, acumula agora uma retração expressiva em maio — lembrança de que os picos de euforia raramente sustentam o que prometem. Entre a posse de um novo presidente do Federal Reserve, a volatilidade geopolítica e a corrida eleitoral brasileira ainda aberta, o mercado navega sem bússola clara.
A bolsa brasileira não encontrou alívio na última sessão da semana. O Ibovespa recuou 0,81%, encerrando aos 176.209 pontos e completando seis semanas consecutivas no vermelho — sequência que remonta ao meio de abril, quando o índice ainda celebrava recordes históricos. Desde então, em 26 pregões, subiu em apenas oito. Em maio, a retração acumulada chega a 5,93%.
O cenário externo contribuiu para o clima de cautela. Kevin Warsh foi empossado presidente do Federal Reserve por Donald Trump, prometendo reformas institucionais e reconhecendo os desafios à frente. Antes disso, o diretor Christopher Waller reforçou a perspectiva de juros elevados por mais tempo nos EUA. Dados da Universidade de Michigan apontaram piora na confiança do consumidor americano e alta nas expectativas de inflação — combinação que pressionou os juros futuros no Brasil. Ainda assim, as bolsas americanas fecharam em alta moderada.
No mercado doméstico, o setor metálico foi exceção positiva: CSN saltou 6,15%, Usiminas avançou 5,61% e Gerdau subiu 2,17%. Já os bancos e a Petrobras pesaram sobre o índice, com recuos entre 1% e 1,78%. O dólar fechou em alta, cotado a R$ 5,02.
No campo político, uma pesquisa Datafolha divulgada à tarde mostrou queda nas intenções de voto de Flávio Bolsonaro após a revelação de recursos de Daniel Vorcaro, do extinto Banco Master, destinados ao documentário sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Mesmo assim, o senador mantém empate técnico com Lula, e aliados interpretaram o resultado como sinal de campanha ainda viável.
A analista Bruna Sene, da Rico, resumiu a semana como uma navegação simultânea em dois fronts: as negociações entre EUA e Irã e a reconfiguração do cenário eleitoral brasileiro. A economista Jucelia Lisboa, da Siegen, lembrou que ambientes de juros altos nas economias desenvolvidas tendem a tornar mercados emergentes como o Brasil relativamente menos atrativos. O conflito no Oriente Médio, que já dura quase três meses, segue afetando o fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz — mais uma variável sem prazo de resolução à vista.
A bolsa brasileira fechou a sexta-feira, 22 de maio, em terreno negativo. O Ibovespa recuou 0,81%, encerrando o dia aos 176.209 pontos, depois de ter flertado com a marca dos 174 mil durante a sessão. O movimento conteve perdas maiores, mas não foi suficiente para evitar que o índice acumulasse uma sexta semana consecutiva de queda — um período que remonta ao meio de abril, logo após o índice ter renovado recordes no dia 14 daquele mês.
Desde então, em 26 pregões, o Ibovespa subiu em apenas oito deles. Nesta sexta, oscilou entre 174.893 e 177.648 pontos, com giro moderado de 21 bilhões de reais. No mês de maio, o recuo acumulado é de 5,93%, o que limita o avanço do ano a 9,36%. A semana fechou com retração de 0,61%.
O cenário externo pesou. Kevin Warsh, novo presidente do Federal Reserve, foi empossado nesta sexta pelo presidente Donald Trump, que afirmou que Warsh restauraria a confiança no banco central americano. Warsh, por sua vez, disse não ser ingênuo quanto aos desafios enfrentados e prometeu liderar um Fed voltado para reformas institucionais. Mais cedo, Christopher Waller, diretor do Federal Reserve, havia reforçado a possibilidade de juros mais altos por mais tempo nos Estados Unidos. Dados da Universidade de Michigan mostraram piora na confiança do consumidor e alta nas expectativas de inflação, elevando os juros futuros no Brasil e no exterior. Apesar disso, os principais índices americanos subiram: Dow Jones avançou 0,58%, S&P 500 subiu 0,37% e Nasdaq ganhou 0,19%.
No mercado doméstico, o setor metálico se desgarrou da correção. Vale subiu 0,57%, Gerdau avançou 2,17%, CSN saltou 6,15% e Usiminas ganhou 5,61%. Mas o dia foi majoritariamente negativo para outros pesos-pesados: Petrobras caiu 0,30% (ordinária) e 1,05% (preferencial), enquanto os bancos sofreram — Itaú preferencial recuou 1,72%, Santander caiu 1,78%, Bradesco ordinária caiu 0,96% e preferencial 1,56%. O dólar fechou em alta de 0,54%, cotado a 5,02 reais. Azzas ganhou 3,86%, enquanto Minerva perdeu 6,20%, MBRF caiu 4,05% e Cyrela recuou 3,93%.
No front político, a tarde trouxe uma pesquisa Datafolha que mostrou perda para Flávio Bolsonaro, senador e pré-candidato da oposição, após a revelação de recursos destinados por Daniel Vorcaro, do extinto Banco Master, ao filme Dark Horse, documentário sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Apesar da retração, Flávio mantém empate técnico com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Correligionários do senador interpretaram o resultado como sinal de que a campanha dele não está a ponto de desabar e segue competitiva. Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara, escreveu em redes sociais que Flávio permanece variando dentro da margem de erro, continua plenamente viável e altamente competitivo.
Bruna Sene, analista de renda variável da Rico, resumiu o cenário: na semana anterior, o risco eleitoral havia entrado em cena de forma intensa; nesta, o mercado navegou em dois fronts simultaneamente — as negociações entre Estados Unidos e Irã e a reconfiguração do cenário político doméstico. O Ibovespa encerrou pressionado pela combinação de cenário externo volátil, juros globais em alta e aumento da incerteza política doméstica.
O mercado segue dividido quanto ao desempenho da bolsa na próxima semana. Segundo o Termômetro Broadcast Bolsa, 42,86% dos profissionais esperam queda do Ibovespa, outros 42,86% esperam estabilidade e apenas 14,29% projetam alta. Jucelia Lisboa, economista e sócia da Siegen, aponta que as incertezas em relação à inflação global e às trajetórias de juros afetam principalmente mercados emergentes como o Brasil, que tendem a se tornar relativamente menos atrativos em um ambiente de juros mais altos nas economias desenvolvidas. O conflito entre EUA e Israel contra o Irã, iniciado há quase três meses, continua afetando a passagem do petróleo pelo Estreito de Ormuz.
Citações Notáveis
Mesmo sob forte ataque nos últimos 7 dias, nosso pré-candidato a presidente, Flávio Bolsonaro, mostra no Datafolha de hoje que permanece variando dentro da margem de erro; continua plenamente viável e altamente competitivo— Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara
O Ibovespa encerrou o período pressionado pela combinação de cenário externo volátil, juros globais em alta e aumento da incerteza política doméstica— Bruna Sene, analista de renda variável da Rico