Em um início de fevereiro de 2021 marcado por contrastes, o Ibovespa recuou 0,45% enquanto as bolsas americanas celebravam o otimismo trazido por um pacote de estímulos trilionário. O Brasil descolou do mundo naquele dia não por falta de oportunidade, mas por excesso de dúvida — sobre a Petrobras, sobre as reformas, sobre a capacidade do Estado de separar política de mercado. É o velho dilema das economias emergentes: crescer junto com o mundo quando o próprio chão ainda treme.
Ibovespa cai 0,45% pressionado por incertezas políticas e Petrobras
A gente sobe e desce e fica na mesma, com oscilações muito altas
Por que a Petrobras teve tanta importância nessa queda? Não era só um ativo entre muitos?
A Petrobras é um ativo de peso na bolsa, mas o problema não era o tamanho — era a confiança. A estatal mudou sua política de preços sem avisar o mercado. Quando isso veio à tona, os investidores sentiram que não sabiam como a empresa tomava decisões.
E isso importa tanto assim para a bolsa toda?
Importa porque sinaliza algo maior. Se uma estatal pode mudar política de preços sem transparência, o que mais pode estar acontecendo? Além disso, levantava a possibilidade de interferência política nos preços de combustíveis, o que afeta toda a economia.
Mas os mercados americanos estavam subindo. Por que o Brasil não acompanhou?
Porque o Brasil estava olhando para dentro. Enquanto os EUA celebravam estímulos fiscais, aqui o mercado estava preso em questões domésticas — reformas tributárias, auxílio emergencial, teto de gastos. São problemas que o Brasil precisa resolver sozinho.
Então a bolsa brasileira estava isolada do otimismo global?
Exatamente. Havia uma desconexão. O mundo estava otimista, mas o Brasil tinha seus próprios problemas. E quando você tem incerteza política interna, o mercado fica paralisado, mesmo que tudo ao redor esteja melhorando.
O que os investidores esperavam que acontecesse?
Esperavam que a Câmara e o Senado se alinhassem rapidamente sobre as reformas. Se isso acontecesse, sinalizaria que o governo conseguia avançar sua agenda. Mas enquanto isso não ocorria, o mercado ficava em suspenso, oscilando sem direção clara.
Il Polso
- As ações da Petrobras despencaram 3% após a estatal alterar sua política de preços sem aviso ao mercado, levantando suspeitas de interferência política nas decisões da companhia.
- Analistas passaram a rebaixar recomendações de compra, temendo que os reajustes de combustíveis migrassem de uma lógica trimestral de mercado para uma lógica anual de conveniência política.
- Enquanto Dow Jones, Nasdaq e S&P 500 avançavam impulsionados pelos US$ 1,9 trilhão de Biden, o Ibovespa ficou preso abaixo dos 120 mil pontos, incapaz de acompanhar o otimismo global.
- Economistas descreveram o desempenho brasileiro como 'errático' — uma semana de alta de 4,5% seguida de recuo imediato, sem direção clara.
- O mercado agora aguarda, com atenção redobrada, o alinhamento entre Câmara e Senado sobre reformas tributárias e a prorrogação do auxílio emergencial dentro do teto de gastos.
Em um início de fevereiro de 2021 marcado por contrastes, o Ibovespa recuou 0,45% enquanto as bolsas americanas celebravam o otimismo trazido por um pacote de estímulos trilionário. O Brasil descolou do mundo naquele dia não por falta de oportunidade, mas por excesso de dúvida — sobre a Petrobras, sobre as reformas, sobre a capacidade do Estado de separar política de mercado. É o velho dilema das economias emergentes: crescer junto com o mundo quando o próprio chão ainda treme.
A bolsa brasileira abriu a semana em queda. O Ibovespa fechou em 119.696 pontos, recuando 0,45% com volume de R$ 30,28 bilhões, num contraste evidente com o clima de otimismo que dominava os mercados internacionais naquele início de fevereiro de 2021.
As ações da Petrobras lideraram as perdas, caindo 3%. O gatilho foi uma mudança na política de preços da estatal comunicada na sexta-feira anterior — sem aviso prévio ao mercado. A falta de transparência acendeu um alerta: analistas passaram a rebaixar recomendações, temendo que a companhia abandonasse as referências internacionais de preços e estendesse os prazos de reajuste de trimestral para anual, cedendo a pressões políticas em vez de seguir a lógica do mercado. Os papéis de bancos também sofreram, ampliando o tom negativo do pregão.
Do outro lado do Atlântico, o cenário era oposto. O pacote de estímulos fiscais de US$ 1,9 trilhão proposto por Joe Biden animava Wall Street: Dow Jones subiu 0,76%, Nasdaq avançou 0,95% e S&P 500 ganhou 0,74%. O dólar comercial recuou levemente, cotado a R$ 5,3711 na compra.
Gustavo Bertotti, economista-chefe da Messem Investimento, definiu o desempenho brasileiro com uma palavra: errático. Após uma semana anterior de alta de 4,5%, o índice voltava a recuar, puxado pela incerteza doméstica. Rafael Ribeiro, da Clear Corretora, reforçou: o Ibovespa caminhava sem força para romper a barreira dos 120 mil pontos, com investidores céticos sobre o avanço das reformas e assustados com o risco de intervenção estatal na Petrobras.
O que definiria os próximos movimentos do mercado estava no Congresso. O alinhamento entre Câmara e Senado sobre reformas tributárias e a prorrogação do auxílio emergencial — tudo dentro do teto de gastos — era a equação que o mercado precisava ver resolvida. Até lá, a cautela prevalecia.
A bolsa brasileira começou a semana em terreno negativo. O Ibovespa recuou 0,45%, fechando em 119.696 pontos, com um volume financeiro de R$30,28 bilhões negociados. A queda veio carregada de incerteza política doméstica, num contraste marcante com o otimismo que tomava conta dos mercados internacionais naquele início de fevereiro de 2021.
As ações da Petrobras lideraram as perdas, caindo 3%, acompanhadas pela pressão nos papéis de bancos. O que alimentava a preocupação dos investidores era uma mudança na política de preços da estatal que havia sido implementada no ano anterior sem aviso prévio ao mercado. A companhia havia divulgado um comunicado sobre essas alterações na sexta-feira anterior, e a falta de transparência no processo levantou questões sobre como a estatal tomava suas decisões. Analistas começaram a rebaixar recomendações de compra, temendo que a Petrobras pudesse abandonar as referências internacionais de preços de combustíveis e estender os prazos de reajuste de trimestral para anual — uma mudança que poderia servir a demandas políticas em vez de seguir lógica de mercado.
Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora, resumiu o sentimento: o índice da bolsa brasileira caminhava sem força para romper a barreira dos 120 mil pontos. Os investidores estavam céticos quanto ao avanço da agenda de reformas e assustados com o risco de intervenção estatal nos preços da Petrobras. Essa desconfiança refletia uma ansiedade mais ampla sobre o cenário doméstico.
Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, as bolsas americanas celebravam. O pacote de estímulos fiscais de US$1,9 trilhão proposto por Joe Biden alimentava otimismo. O Dow Jones subiu 0,76%, o Nasdaq avançou 0,95% e o S&P 500 ganhou 0,74%. O dólar comercial, por sua vez, caiu 0,21%, cotado a R$5,3711 na compra e R$5,3726 na venda.
Gustavo Bertotti, economista-chefe da Messem Investimento, descreveu o desempenho brasileiro com uma palavra: errático. "A gente sobe e desce e fica na mesma, com oscilações muito altas", disse. Enquanto as grandes bolsas internacionais fechavam positivas, o Brasil descolava dessa tendência, puxado para baixo pela incerteza política. A semana anterior havia sido boa — o Ibovespa havia crescido 4,5% — mas o cenário doméstico voltava a preocupar.
O que mantinha os investidores em alerta era a agenda que se aproximava. O alinhamento entre Câmara e Senado nos próximos dias seria crucial. Duas questões dominavam as conversas: a aprovação das reformas tributárias e a prorrogação do auxílio emergencial. Bertotti apontava o desafio real: conciliar a agenda reformista com a continuação do auxílio e o respeito ao teto de gastos do governo. Essa era uma equação difícil de resolver, e o mercado sabia disso. A partir daquele momento, os investidores ficariam muito atentos ao andamento dessas questões, porque era ali, no cenário doméstico, que se definiria o próximo movimento da bolsa.
Citazioni salienti
Os investidores estão céticos quanto ao avanço da agenda de reformas e preocupados com os riscos de intervenção estatal na política de preços da Petrobras— Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora
Grande parte das bolsas internacionais fecharam positivas, mas nós fechamos em queda pela incerteza política— Gustavo Bertotti, economista-chefe da Messem Investimento