Agentes de IA como ChatGPT e Claude agora realizam buscas, comparações e até compras em nome dos consumidores, deslocando a vitrine do marketplace para dentro da ferramenta de IA. Tráfego originado por IA cresceu 203% em um ano, mas ainda representa apenas 0,4% das visitas totais; em marketplaces, o crescimento foi de 237% com 46,8 milhões de visitas mensais.
IA muda forma de compra e ameaça modelo de negócio de gigantes do e-commerce
A vitrine passa a estar dentro da ferramenta de IA
Por que isso importa agora? A IA já existia. O que mudou?
O que mudou é que agora a IA não é apenas uma ferramenta que você usa — ela é um agente que toma decisões em seu nome. Ela não só busca o produto, ela escolhe qual comprar e onde comprar. Isso muda tudo para quem lucrava com você navegando dentro da plataforma deles.
Mas os números ainda são muito pequenos, certo? 0,4% do tráfego total. Isso é realmente uma ameaça agora ou é especulação sobre o futuro?
Os números são pequenos, mas crescem muito rápido — 203% em um ano. E em marketplaces especificamente, foi 237%. Se continuar nesse ritmo, deixa de ser marginal em poucos anos.
E as grandes plataformas, elas estão preparadas?
Estão tentando se preparar, mas de formas diferentes. Amazon está bloqueando agentes de terceiros e desenvolvendo os seus próprios. Mercado Livre está testando assistentes. Magazine Luiza já lançou algo — o WhatsApp da Lu já movimentou R$ 200 milhões.
Mas será que essas ferramentas delas vão funcionar? A vantagem real está na tecnologia de IA ou nos dados que elas têm?
Nos dados. A tecnologia de IA você compra. O que você não compra é um modelo treinado em anos de histórico de transações — o que cada cliente procurou, comprou, devolveu, quanto tempo levou para pagar.
Então quem tem mais dados vence?
Provavelmente. Especialmente se controla também logística, pagamentos e crédito. Aí os dados viram ouro.
E os varejistas menores? Os que não têm plataforma própria?
Aí está o risco real. Podem virar apenas fornecedores de estoque e logística, sem contato direto com o cliente, sem dados, sem chance de construir marca.
Il Polso
- Tráfego originado por IA cresceu 203% entre junho de 2025 e maio de 2026, mas representa apenas 0,4% do total
- Em marketplaces, o crescimento foi de 237%, com 46,8 milhões de visitas mensais
- WhatsApp da Lu movimentou R$ 200 milhões desde outubro de 2025 e foi usado por 9,7 milhões de clientes
- Amazon bloqueou agente Muse da Meta e desenvolveu Alexa for Shopping, usado por 250 milhões de clientes
Agentes de IA como ChatGPT e Claude agora realizam buscas, comparações e até compras em nome dos consumidores, deslocando a vitrine do marketplace para dentro da ferramenta de IA. Tráfego originado por IA cresceu 203% em um ano, mas ainda representa apenas 0,4% das visitas totais; em marketplaces, o crescimento foi de 237% com 46,8 milhões de visitas mensais.
Ferramentas de IA estão transformando como consumidores encontram produtos, criando novo modelo de comércio agêntico que ameaça a dinâmica competitiva de marketplaces como Amazon e Mercado Livre.
A forma como as pessoas compram na internet está mudando. Não é uma mudança pequena ou lenta. Agora, em vez de abrir um marketplace, digitar o que procura, comparar opções e finalizar a compra, o consumidor pode simplesmente pedir a um agente de inteligência artificial — ChatGPT, Gemini, Claude — que faça tudo isso por ele. Em alguns casos, a IA até completa a transação sem intervenção humana. Analistas do BTG Pactual chamam esse novo modelo de comércio agêntico, e ele promete reconfigurar a competição entre os gigantes do varejo online.
Os números ainda são pequenos, mas crescem com velocidade impressionante. Dados da Similarweb mostram que o tráfego originado por ferramentas de IA para sites de varejo cresceu 203% entre junho de 2025 e maio de 2026. Quando se olha apenas para marketplaces, o crescimento foi ainda maior: 237% no mesmo período, chegando a 46,8 milhões de visitas mensais. Apesar disso, esse tráfego representa apenas cerca de 0,4% do total de acessos aos sites de e-commerce — o que significa que estamos no começo de algo que pode se expandir muito.
O risco para as grandes plataformas é profundo. Até agora, quem controlava a vitrine — o feed, a primeira página, a forma como os produtos eram exibidos — controlava a venda. Quando um consumidor pergunta a uma IA qual é o melhor produto para sua necessidade, essa vitrine deixa de estar no marketplace e passa a estar dentro da ferramenta de IA. Cassiano Piekarski, CEO da Inbix, uma empresa especializada em inteligência artificial aplicada aos negócios, explica que isso muda completamente os critérios de ranqueamento e tem levado varejistas a investir em GEO — a otimização de sites e conteúdos para aparecer nas respostas de IAs generativas. O que antes era SEO, agora precisa ser GEO.
Mas há mais em jogo do que apenas onde os produtos aparecem. Quando a IA assume decisões — qual produto comparar, qual vendedor escolher, onde fazer a compra — os marketplaces perdem o contato direto com o consumidor. Antes, toda a jornada acontecia dentro da plataforma. Agora, a IA pode ser o intermediário. Isso coloca em risco três ativos fundamentais dos marketplaces: o tráfego que chega aos sites, os dados que coletam sobre o comportamento dos clientes e as oportunidades de publicidade. Com menos pessoas navegando diretamente pelas plataformas, há menos chances de exibir anúncios e menos informações sobre o que cada usuário realmente quer. Piekarski avisa que o risco é que as varejistas sejam reduzidas ao papel de fornecedoras de estoque e logística, perdendo o relacionamento com o cliente e a chance de construir marca no momento da compra.
As grandes plataformas já estão reagindo, mas de formas diferentes. A Amazon bloqueou o Muse, um agente de compras da Meta, de realizar transações em sua plataforma e restringiu o acesso de outros agentes. Ao mesmo tempo, desenvolve suas próprias ferramentas. O Rufus, rebatizado de Alexa for Shopping em maio, já foi usado por mais de 250 milhões de clientes. A Amazon também expandiu o Buy for Me, que permite à IA comprar produtos em sites de terceiros em nome do consumidor. A empresa justifica o banimento ao Muse dizendo que aplicativos terceirizados que fazem compras em nome de clientes devem operar com transparência e respeitar a decisão de cada provedor sobre participar ou não — um argumento que ela compara ao funcionamento de aplicativos de delivery e agências de viagens online.
O Mercado Livre segue um caminho diferente. Desenvolve uma busca aprimorada por IA e testa um assistente de compras que explora diferentes aplicações de inteligência artificial para toda a jornada de compra, desde a busca até a decisão final. A empresa não divulgou detalhes sobre esses produtos, dizendo que só compartilhará informações após o lançamento oficial. O Magazine Luiza, outra grande varejista brasileira, já lançou o WhatsApp da Lu, uma plataforma de comércio conversacional que funciona como um personal shopper. A ferramenta busca e recomenda produtos, refina sugestões conforme o perfil e o orçamento do cliente, e permite concluir a compra dentro do próprio aplicativo de mensagens. Em setembro, o WhatsApp da Lu registrou 100 mil pedidos. Desde o lançamento, em outubro do ano anterior, captou R$ 200 milhões em vendas e foi usado por mais de 9,7 milhões de clientes.
Mario Machado, assessor de investimentos da InvestSmart, aponta que a vantagem das grandes plataformas não está necessariamente na tecnologia de IA — que pode ser comprada — mas nos dados que acumulam sobre os consumidores. O que não se compra é um modelo treinado no histórico completo de transações da própria plataforma: o que cada cliente procurou, o que comprou, o que devolveu, em quanto tempo pagou. Esse histórico ganha ainda mais valor quando a empresa também controla outras etapas da operação, como logística, pagamentos e crédito. Com esses dados integrados, as empresas podem melhorar previsões, reduzir custos e orientar decisões estratégicas. Para Piekarski, resistir a essa mudança não adianta. O caminho é se preparar para ela.
Citazioni salienti
Hoje, quem controla a vitrine, o feed, a primeira página do marketplace, controla a venda. Quando o consumidor passa a perguntar para uma IA qual o melhor produto para a sua demanda, essa vitrine passa a estar na ferramenta de IA— Cassiano Piekarski, CEO da Inbix
O que não se compra é um modelo treinado no histórico de transações da própria plataforma, com o que cada cliente procurou, comprou, devolveu e em quanto tempo pagou— Mario Machado, assessor de investimentos da InvestSmart