Profissionais sem experiência a cuidar de doentes que exigem ventilação
No coração de uma crise pandémica sem precedentes, o Hospital de Penafiel viu-se confrontado com uma acusação que toca num dos dilemas mais antigos da medicina: a tentação de substituir o cuidado humano por soluções técnicas quando os recursos escasseiam. A Ordem dos Enfermeiros denunciou a instalação de câmaras de videovigilância e a colocação de profissionais sem experiência em cuidados intensivos junto de doentes ventilados com covid-19, enquanto a administração do Centro Hospitalar Tâmega e Sousa insistiu que os seus profissionais são insubstituíveis. Entre a urgência da pandemia e a segurança dos doentes, a questão que fica suspensa é a de saber até onde pode um sistema de saúde dobrar as suas regras antes de as quebrar.
- Doentes covid-19 que necessitavam de ventilação estavam internados numa unidade sem as condições adequadas, cuidados por enfermeiros sem formação em cuidados intensivos.
- A Ordem dos Enfermeiros acusou o hospital de instalar câmaras de videovigilância ilegais, recusadas pelos próprios enfermeiros, como substituto ao acompanhamento presencial.
- A decisão de manter a unidade como nível 2 — sem doentes ventilados — tinha sido revertida sob pressão, depois de a diretora do Serviço de Medicina Intensiva ameaçar demitir-se.
- O CHTS tinha registado 10% de todos os internamentos covid-19 nacionais no mês anterior, com um pico de 235 doentes, criando uma pressão extrema sobre os recursos humanos disponíveis.
- A denúncia foi encaminhada ao Ministério da Saúde, à Comissão Nacional de Proteção de Dados e ao Ministério Público, enquanto o presidente do hospital remetia esclarecimentos para o dia seguinte.
Numa tarde de dezembro, a Ordem dos Enfermeiros divulgou um comunicado detalhado sobre o que descrevia como uma situação grave no Hospital de Penafiel. Doentes covid-19 que necessitavam de ventilação estavam internados numa unidade sem as condições adequadas, sob cuidados de profissionais sem experiência em cuidados intensivos. Para além disso, câmaras de videovigilância tinham sido instaladas — algo que a Ordem considerava manifestamente ilegal e que os enfermeiros tinham recusado.
O conflito tinha raízes mais profundas. O conselho de administração do CHTS tinha deliberado que a unidade se mantivesse como nível 2, sem doentes ventilados. Mas essa decisão foi revertida quando a diretora do Serviço de Medicina Intensiva ameaçou demitir-se. A partir daí, a unidade passou a receber doentes que exigiam ventilação, sem que a equipa tivesse as competências necessárias para os cuidar com segurança.
O contexto era de pressão extrema: o CHTS, que reúne os hospitais de Penafiel e Amarante, tinha registado no mês anterior 10% de todos os internamentos covid-19 a nível nacional, com um pico de 235 doentes internados. A Ordem desresponsabilizava-se por qualquer incidente resultante da falta de formação dos profissionais colocados naquela unidade.
O presidente do CHTS, Carlos Alberto Silva, respondeu com uma mensagem curta à agência Lusa, negando qualquer comprometimento da segurança ou qualidade dos cuidados e afirmando que os profissionais de saúde são insubstituíveis. Para esclarecimentos adicionais, remeteu para uma reunião agendada para o dia seguinte. Entretanto, a denúncia seguiu o seu caminho — para o Ministério da Saúde, a Comissão Nacional de Proteção de Dados e o Ministério Público.
No final de uma terça-feira de dezembro, o presidente do Centro Hospitalar Tâmega e Sousa respondeu a acusações que o colocavam numa posição delicada: a de estar a substituir enfermeiros por câmaras de vigilância. Carlos Alberto Silva enviou uma mensagem curta à agência Lusa, refutando a ideia de que houvesse qualquer comprometimento na segurança ou qualidade dos cuidados prestados aos doentes. Os profissionais de saúde, escreveu, são insubstituíveis.
Mas a acusação tinha vindo da Ordem dos Enfermeiros, que naquela tarde tinha divulgado um comunicado detalhado sobre o que descrevia como uma situação grave no Hospital de Penafiel, uma das unidades do centro hospitalar. Segundo a Ordem, doentes covid-19 que necessitavam de ventilação estavam internados numa unidade sem as condições adequadas, sob cuidados de profissionais sem experiência em cuidados intensivos. Pior ainda: câmaras de videovigilância tinham sido instaladas, o que a Ordem considerava manifestamente ilegal e que os enfermeiros tinham recusado.
O conflito tinha raízes mais profundas. Meses antes, o conselho de administração do CHTS tinha deliberado que a unidade se mantivesse como nível 2, sem doentes ventilados, enquanto não fossem criadas novas instalações. Mas essa decisão tinha sido revertida. Quando a diretora do Serviço de Medicina Intensiva ameaçou demitir-se, a situação mudou de rumo. Agora, a unidade estava a receber doentes que exigiam ventilação, mas sem as competências necessárias na equipa para os cuidar adequadamente.
A denúncia tinha sido assinada por um grupo de enfermeiros que tinham sido colocados naquela unidade sem qualquer formação ou integração em cuidados intensivos. Eles consideravam que a situação comprometia a saúde dos doentes e não garantia as condições de exercício de enfermagem com qualidade e segurança. A Ordem dos Enfermeiros, por sua vez, desresponsabilizava-se civilmente e disciplinarmente por qualquer acidente ou incidente que pudesse ocorrer como resultado da falta de conhecimento para prestar cuidados.
O contexto era de pressão extrema. O CHTS, que reúne os hospitais de Penafiel e Amarante, tinha registado no mês anterior 10% de todos os internamentos covid-19 a nível nacional. No dia 3 de novembro, o pico tinha atingido 235 doentes internados com o novo coronavírus. Era neste cenário de crise que a decisão de manter doentes ventilados numa unidade de nível 2, com profissionais sem experiência, tinha sido tomada.
A Ordem dos Enfermeiros tinha encaminhado a denúncia não apenas ao hospital, mas também ao Ministério da Saúde, à Comissão Nacional de Proteção de Dados e ao Ministério Público. O presidente do CHTS, quando contactado para mais esclarecimentos, remeteu para uma reunião agendada para o dia seguinte. A resposta definitiva ficaria para depois. Entretanto, a questão permanecia: como é que um hospital pode gerir uma crise de saúde pública quando as decisões tomadas para lidar com ela colocam em risco a segurança dos doentes que pretende proteger?
Notable Quotes
Os profissionais de saúde são insubstituíveis na monitorização dos cuidados de saúde aos doentes— Carlos Alberto Silva, presidente do CHTS
Foram instaladas câmaras de vídeo vigilância, o que é manifestamente ilegal e, como tal, recusado pelos profissionais— Ordem dos Enfermeiros
The Hearth Conversation Another angle on the story
Porque é que a Ordem dos Enfermeiros decidiu denunciar isto ao Ministério Público e não apenas ao hospital?
Porque consideraram que não era apenas uma questão de gestão hospitalar. Havia câmaras de vigilância instaladas ilegalmente, profissionais sem formação em cuidados intensivos a cuidar de doentes graves, e uma decisão anterior do próprio hospital que tinha sido revertida sob pressão. Isto ultrapassava o âmbito administrativo.
O presidente do hospital diz que os profissionais são insubstituíveis. Mas a Ordem está a dizer que foram colocados profissionais sem experiência. Como é que estas duas coisas se conciliam?
Não se conciliam. O presidente está a falar em termos genéricos sobre o valor dos profissionais de saúde. A Ordem está a falar de profissionais específicos, sem formação em cuidados intensivos, colocados numa unidade de ventilação. São duas realidades diferentes.
As câmaras de vigilância — porque é que a Ordem as considera ilegais?
Porque não há consentimento dos profissionais e porque não há enquadramento legal para usar vigilância como substituto de cuidados humanos. A Ordem viu isto como uma tentativa de monitorizar doentes sem ter pessoal adequado para responder.
O hospital estava sob pressão extrema. Isso não justifica as decisões?
Talvez explique por que foram tomadas, mas não as justifica. A pressão é real — 235 doentes internados no pico — mas a resposta não pode ser colocar em risco a segurança dos doentes que se pretende tratar.
E agora? O que acontece depois desta denúncia?
Fica à espera de investigação. O Ministério da Saúde, a Comissão Nacional de Proteção de Dados e o Ministério Público têm agora a questão nas mãos. O hospital prometeu mais esclarecimentos após uma reunião, mas a verdadeira resposta virá de fora.