Pesquisa da Unifesp financiada pela Fapesp encontrou prevalência de apneia em 49,5% dos participantes com hipotireoidismo, superior aos 30-40% reportados na literatura. Tireoide e sono interagem em mecanismos fundamentais de homeostase; alterações em um sistema podem influenciar o outro, criando ciclo de deterioração da saúde.
Hipotireoidismo aumenta risco de apneia do sono mais grave, aponta estudo
Alterações de sono podem influenciar a regulação hormonal, assim como disfunções da tireoide podem afetar a qualidade do sono
Por que essa descoberta importa agora? Hipotireoidismo e apneia do sono já eram conhecidos separadamente.
Porque ninguém estava olhando para eles juntos. Um paciente chega ao consultório cansado, ganha peso, dorme mal — e o médico trata a tireoide. Mas e se a apneia estiver piorando tudo? Ou se a apneia vier primeiro e danificar a tireoide? Essa relação bidirecional muda como você diagnostica e trata.
Bidirecional significa que um causa o outro?
Significa que podem se influenciar mutuamente. Não sabemos ainda qual vem primeiro em cada caso. Mas o estudo mostra que quando você trata a tireoide, o sono melhora — 49 minutos a mais por noite. Isso não é pouco.
E se alguém tiver apneia mas não souber que tem hipotireoidismo?
Continua dormindo mal, seu coração sofre, seu metabolismo desanda. Os riscos cardiovasculares se somam. É por isso que as pesquisadoras dizem que tratar um não substitui tratar o outro — são duas doenças distintas que podem estar dançando juntas.
Quantas pessoas estamos falando?
O estudo olhou para 761 paulistanos. Encontrou hipotireoidismo em 12,6% deles — e quase metade desses tinha apneia. Mas a prevalência de apneia na população geral já é de 37%. Então sim, estamos falando de muita gente.
O que muda na prática?
Tudo. Se você tem apneia, seu médico deveria checar sua tireoide. Se você tem hipotireoidismo, deveria fazer um teste de sono. Diagnóstico precoce, tratamento adequado. Simples, mas raramente feito.
O Pulso
- 49,5% dos participantes com hipotireoidismo apresentavam apneia obstrutiva do sono
- Reposição hormonal aumentou duração do sono em 49 minutos e sono profundo em 22 minutos
- Estudo analisou 761 paulistanos com dados coletados entre 2018 e 2019
- Prevalência de apneia do sono cresceu de 32,9% em 2010 para 37,1% em 2018
Pesquisa da Unifesp financiada pela Fapesp encontrou prevalência de apneia em 49,5% dos participantes com hipotireoidismo, superior aos 30-40% reportados na literatura. Tireoide e sono interagem em mecanismos fundamentais de homeostase; alterações em um sistema podem influenciar o outro, criando ciclo de deterioração da saúde.
Estudo com 761 paulistanos revela que quase metade dos pacientes com hipotireoidismo apresenta apneia obstrutiva do sono, com relação bidirecional entre as condições. Tratamento hormonal melhora qualidade do sono.
Uma pesquisa conduzida na Universidade Federal de São Paulo revelou que pessoas com hipotireoidismo enfrentam um risco substancialmente maior de desenvolver apneia obstrutiva do sono — aquele distúrbio em que as vias respiratórias colapsam repetidamente durante a noite, interrompendo a respiração e provocando pequenos despertares involuntários. O estudo, publicado em maio na revista Sleep e financiado pela Fapesp, analisou exames de 761 moradores de São Paulo e encontrou um resultado que surpreendeu até os pesquisadores: quase metade dos participantes com hipotireoidismo — 49,5% — apresentava apneia obstrutiva do sono. Esse número é consideravelmente superior aos 30% a 40% que a literatura científica costuma apontar.
Os dados vieram do Episono, um grande projeto de base populacional que mapeia a qualidade do sono de uma amostra representativa de paulistanos. Na sua quarta edição, realizada entre 2018 e 2019, o projeto coletou informações de pessoas que passaram por exames laboratoriais e polissonografia — o exame padrão-ouro que monitora diferentes parâmetros do sono durante uma noite inteira. Ellen Maria Sampaio Xerfan, pós-doutoranda no Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina e primeira autora do estudo, reconheceu que o resultado superou as expectativas. "Esperávamos uma prevalência considerável, mas o resultado foi mais elevado do que imaginávamos", afirmou.
O que torna essa descoberta particularmente relevante é a natureza bidirecional da relação entre as duas condições. O hipotireoidismo ocorre quando a tireoide — glândula localizada no pescoço responsável por regular metabolismo, temperatura corporal e gasto energético — produz hormônios insuficientemente. Seus sintomas incluem cansaço, sonolência, ganho de peso, queda de cabelo e dificuldade de concentração. A apneia obstrutiva do sono, por sua vez, vem crescendo nos últimos anos: dados do Episono mostram que a prevalência aumentou de 32,9% em 2010 para 37,1% em 2018, afetando aproximadamente quatro em cada dez pessoas. Ambas as condições causam fragmentação do sono e queda nos níveis de oxigênio, além de estarem associadas a um aumento significativo do risco de doenças cardiovasculares e metabólicas.
Segundo Xerfan, a conexão entre tireoide e sono desperta interesse dos pesquisadores porque ambos participam da manutenção do equilíbrio do organismo. A tireoide integra um sistema hormonal que regula diversas funções do corpo, enquanto o sono exerce papel fundamental na recuperação física e na regulação hormonal. Existe uma interação complexa entre esses sistemas: alterações de sono podem influenciar a regulação hormonal, assim como disfunções da tireoide podem afetar a qualidade do sono. O estudo confirmou essa hipótese. Pessoas com hipotireoidismo tiveram noites de sono mais fragmentadas, acordaram mais vezes ao longo da noite e apresentaram formas mais graves de apneia. Quanto mais elevados estavam os níveis de TSH — hormônio usado para avaliar o funcionamento da tireoide — maior era a probabilidade de a pessoa apresentar apneia mais severa.
Mas a análise apontou também o caminho inverso: características associadas à pior qualidade do sono e à maior gravidade da apneia estiveram relacionadas a uma probabilidade maior de hipotireoidismo. Para os pesquisadores, esse foi um dos resultados mais relevantes, pois sugere que as duas condições podem influenciar-se mutuamente. Monica Levy Andersen, orientadora do estudo e professora da EPM-Unifesp, enfatizou que os resultados reforçam a necessidade de olhar para o sono de forma mais integrada na prática clínica. "Hoje, quando um paciente procura atendimento, raramente o sono é investigado de forma aprofundada. Muitas vezes ele relata cansaço ou alterações metabólicas, mas nem sempre se considera que um distúrbio do sono possa estar contribuindo para esse quadro", afirmou.
O tratamento do hipotireoidismo por reposição hormonal mostrou impacto positivo sobre o sono. Entre os participantes diagnosticados com a doença, aqueles que faziam o tratamento dormiam, em média, cerca de 49 minutos a mais por noite do que os não tratados. Eles também permaneciam aproximadamente 22 minutos adicionais no estágio N3, conhecido como sono profundo — a fase relacionada a processos de reparação do organismo, consolidação da memória e recuperação tecidual. Xerfan destacou que esse resultado sugere um efeito positivo da reposição hormonal sobre a arquitetura do sono.
Andersen ressaltou que tanto a apneia do sono quanto o hipotireoidismo estão associados ao aumento do risco cardiovascular quando não são tratados adequadamente. A apneia provoca quedas repetidas nos níveis de oxigênio durante a noite e aumenta a sobrecarga sobre o sistema cardiovascular. O hipotireoidismo favorece alterações metabólicas e ganho de peso, fatores que também elevam o risco de complicações. Quando as duas condições coexistem, seus efeitos podem se somar. Por isso, o tratamento de uma condição não substitui necessariamente o da outra. As pesquisadoras já planejam analisar dados de acompanhamento dos participantes do Episono para investigar se intervenções para apneia do sono estão associadas a mudanças nos parâmetros da função tireoidiana. A mensagem final é clara: profissionais que acompanham pacientes com apneia do sono devem considerar a investigação da função tireoidiana, e pessoas com hipotireoidismo podem se beneficiar da avaliação de possíveis distúrbios de sono.
Citações Notáveis
Esperávamos que a prevalência de apneia do sono fosse considerável entre pessoas com hipotireoidismo, mas o resultado foi mais elevado do que imaginávamos— Ellen Maria Sampaio Xerfan, pesquisadora da Unifesp
Hoje, quando um paciente procura atendimento, raramente o sono é investigado de forma aprofundada. Muitas vezes ele relata cansaço ou alterações metabólicas, mas nem sempre se considera que um distúrbio do sono possa estar contribuindo para esse quadro— Monica Levy Andersen, orientadora do estudo