Herpes-zóster causa dor extrema descrita como 'absurda' por pacientes, podendo deixar neuralgia pós-herpética que persiste meses ou anos após as lesões. Vacina recombinante Shingrix é recomendada a partir dos 50 anos, mas custa a partir de R$ 800 por dose e está disponível apenas em clínicas particulares.
Herpes-zóster causa dor intensa e deixa sequelas; vacina está disponível apenas na rede privada
Uma dor absurda. Era como uma faca cortando minha carne de dentro para fora.
Por que essa doença é tão dolorosa? Parece haver algo específico na forma como o herpes-zóster machuca.
O vírus afeta os nervos. Não é só uma inflamação na pele — é uma inflamação do tecido nervoso, e isso causa uma dor que as pessoas descrevem como queimação ou facadas. E em alguns casos, essa dor não vai embora quando a doença passa.
Quanto tempo dura essa dor pós-herpética? A reportagem diz "meses ou anos", mas há números mais específicos?
A definição médica é dor que persiste por mais de 90 dias após as lesões. Depois disso, pode durar muito tempo — alguns pacientes convivem com isso por anos.
E a vacina — por que não está no sistema público?
A reportagem não explica a razão da decisão. Apenas constata que está disponível apenas na rede privada, custando a partir de R$ 800 por dose.
Dois detalhes importantes: um paciente conseguiu a vacina gratuitamente pelo convênio depois que vários colegas ficaram doentes. Isso sugere que a questão não é técnica, mas de custo e priorização.
A vacina também previne demência?
Estudos associam a vacinação a menor risco de demência, mas a reportagem deixa claro que esses resultados ainda são promissores, não comprovados.
Exatamente. A reportagem é cuidadosa ali — não afirma que a vacina previne demência, apenas que há associação em estudos. É uma diferença importante.
Qual é o público que mais sofre?
Pessoas mais velhas, porque o sistema imunológico envelhece. Mas a reportagem mostra que nem sempre — um arquiteto teve dez episódios em quatro anos.
E nenhuma explicação para por que ele teve tantos episódios. Pode haver algo sobre seu sistema imunológico que não foi explorado.
Le Pouls
- Vacina Shingrix custa a partir de R$ 800 por dose, disponível apenas na rede privada
- Recomendação é vacinar a partir dos 50 anos com duas doses
- Neuralgia pós-herpética persiste por mais de 90 dias e pode durar meses ou anos
- Pacientes classificam a dor em níveis 9 ou 10 em escala de 0 a 10
Herpes-zóster causa dor extrema descrita como 'absurda' por pacientes, podendo deixar neuralgia pós-herpética que persiste meses ou anos após as lesões. Vacina recombinante Shingrix é recomendada a partir dos 50 anos, mas custa a partir de R$ 800 por dose e está disponível apenas em clínicas particulares.
Pacientes relatam sofrimento intenso causado pelo herpes-zóster, doença prevenível por vacina disponível apenas na rede privada com custo elevado, deixando muitos sem acesso à proteção.
Susana Souza fez o que muitos fazem ao completar 60 anos: procurou seu posto de saúde para saber quais vacinas eram recomendadas para sua idade. Recebeu imunizações contra gripe e covid-19, e foi informada sobre a vacina contra herpes-zóster. Havia um problema. A vacina existia, era eficaz, mas só estava disponível na rede privada. Ela já tinha orçamentos de três clínicas em mãos quando os primeiros sintomas chegaram.
No começo, confundiu as dores nas costas com consequência de um treino pesado na academia. O pronto atendimento não ajudou muito — o médico suspeitou da doença, mas sem manchas ou bolhas visíveis, prescreveu apenas um analgésico e sugeriu um ortopedista. No dia seguinte, as bolhinhas apareceram. Susana sabia o que fazer. Havia lido sobre herpes-zóster e conhecia a regra de ouro: tomar antivirais nas primeiras 72 horas após o surgimento das lesões. Correu para buscar o medicamento.
Mas a dor não cedeu. "Uma dor absurda", é como ela descreve — como uma faca cortando a carne de dentro para fora, ininterruptamente. Chorou de dor. No oitavo dia, procurou um infectologista, que prescreveu pregabalina, um medicamento para dor neuropática. Quase um mês depois, ainda tomava o remédio. Um fim de semana recente trouxe alívio: dormiu praticamente sem dor. Enquanto se recuperava, já fazia contas sobre quando poderia finalmente se vacinar.
O herpes-zóster é provocado pela reativação do vírus varicela-zóster, o mesmo que causa catapora. O vírus permanece latente no organismo por toda a vida. Com a idade, o sistema imunológico perde eficiência — um processo chamado imunossenescência — e o vírus encontra oportunidade para se multiplicar novamente. Por isso a doença é mais frequente em pessoas mais velhas. Mas nem sempre. O arquiteto André Nogueira enfrentou cerca de dez episódios em apenas quatro anos. A cada cinco meses, em média, a crise voltava. Ainda não conseguiu se vacinar.
A complicação mais temida é a neuralgia pós-herpética, uma dor que persiste por mais de 90 dias após o início das lesões e pode durar meses ou anos. A Sociedade Brasileira de Imunizações recomenda um intervalo de seis meses após uma crise antes de se vacinar, embora esse período possa ser encurtado para evitar perder a oportunidade de proteção. O infectologista e professor da USP Ribeirão Benedito Fonseca é entusiasta da vacina recombinante Shingrix, produzida a partir de uma proteína do vírus, sem vírus vivo em sua composição. Além de prevenir herpes-zóster e suas complicações, estudos publicados em revistas como Nature Medicine e Annals of Internal Medicine associaram a vacinação a um menor risco de demência. Os resultados são promissores, mas ainda não permitem tratar a prevenção de demência como um benefício comprovado.
A recomendação formal é vacinar a partir dos 50 anos, especialmente idosos e pessoas com comprometimento imunológico. O esquema exige duas doses. Para menores de 50 anos, a vacina é indicada a partir dos 18 anos se houver imunocomprometimento ou risco aumentado. Mas há um obstáculo concreto: a vacina custa a partir de R$ 800 por dose e está disponível apenas na rede privada. Susana, ao levantar orçamentos, viu esse valor repetido. "São caras! Vou ter que me organizar financeiramente para tomar, mas só quem já passou por uma dor como a da herpes-zóster sabe o quanto esse investimento é importante", disse.
O engenheiro elétrico Adiel Mendonça Ramos, 59, teve mais sorte. Aos 53, contraiu herpes-zóster na coxa direita enquanto trabalhava em São Paulo e precisou pedir licença. Seu convênio não cobria a vacina no início, mas quando várias pessoas começaram a contrair a doença e se afastar do trabalho, o convênio começou a oferecer a vacina gratuitamente. Cada dose custava cerca de R$ 1.000 na época, mas ele não pagou nada. Para André, o arquiteto com dez episódios em quatro anos, o custo se tornou irrelevante. "Se pudesse, eu tomaria a vacina hoje", disse. Fonseca, ao avaliar pacientes com herpes-zóster usando uma escala de dor de 0 a 10, observou que a imensa maioria classifica a intensidade nos níveis 9 ou 10. "Ninguém merece este nível de dor", concluiu.
Citations marquantes
São caras! Vou ter que me organizar financeiramente para tomar, mas só quem já passou por uma dor como a da herpes-zóster sabe o quanto esse investimento é importante— Susana Souza, jornalista
Ninguém merece este nível de dor— Dr. Benedito Fonseca, infectologista e professor da USP Ribeirão