Nem tive tempo de chorar a minha mãe
Há momentos no esporte em que um gol é mais do que um gol — é a síntese de uma vida inteira. Nos acréscimos contra a África do Sul, o meio-campista canadense Stephen Eustaquio converteu uma jogada em história, levando o Canadá às oitavas de final de uma Copa do Mundo pela primeira vez. O chute carregava consigo a memória de sua mãe Esmeralda, morta de câncer cerebral em 2023, e a sombra do ataque cardíaco sofrido pelo pai em 2024 — perdas que moldaram, em silêncio, o homem que correu até o gol para celebrar.
- O Canadá jamais havia avançado para as oitavas de final de uma Copa do Mundo — e foi um gol nos acréscimos que quebrou essa barreira histórica.
- Eustaquio jogou a Copa de 2022 no Qatar enquanto sua mãe morria de câncer cerebral, sem tempo sequer para processar o luto.
- Em maio de 2024, enquanto celebrava o nascimento de sua filha Benedita, recebeu a notícia do ataque cardíaco do pai — duas perdas devastadoras em menos de um ano.
- Com a lesão grave de Ismail Koné durante o torneio, Eustaquio assumiu ainda mais responsabilidade como vice-capitão e maestro do meio-campo canadense.
- O Canadá agora aguarda o vencedor do confronto entre Holanda e Marrocos para definir seu adversário nas oitavas — e o país inteiro sabe quem os levou até lá.
Stephen Eustaquio chutou nos acréscimos do segundo tempo e viu a bola entrar. Era o 46º minuto, a África do Sul estava à sua frente, e aquele gol fez o que nenhum canadense havia conseguido antes: abriu as portas das oitavas de final de uma Copa do Mundo para o Canadá.
Filho de portugueses, nascido em Leamington e criado em Portugal a partir dos sete anos, Eustaquio construiu sua carreira em clubes menores até chegar ao Porto em 2022, onde conquistou dois campeonatos nacionais e seis taças. Quando recebeu o convite para defender o Canadá em 2019, aceitou sem hesitar — uma forma de retribuir os anos que viveu no país.
Mas o caminho até aquele gol foi marcado por dores que não aparecem nas estatísticas. Em abril de 2023, sua mãe Esmeralda morreu após meses lutando contra um câncer no cérebro. Stephen havia jogado a Copa do Qatar carregando esse peso, vendo-a desaparecer enquanto corria em campo. "A minha mãe era a pessoa mais especial. Sou o espelho dela", disse ele. Pouco mais de um ano depois, em maio de 2024, seu pai sofreu um ataque cardíaco — notícia que chegou enquanto ele ainda celebrava o nascimento de sua filha Benedita, em abril.
Duas perdas em doze meses. E ainda assim, Eustaquio se tornou o vice-capitão da seleção, o maestro do meio-campo sob Jesse Marsch. Quando o companheiro Ismail Koné quebrou a perna tragicamente durante o torneio, foi ele quem manteve o time em pé. E foi ele quem marcou o gol que importa — não apenas para o placar, mas para tudo que veio antes dele.
Stephen Eustaquio chutou a bola nos acréscimos do segundo tempo e viu ela entrar na rede. Era o 46º minuto, a África do Sul estava à sua frente, e o Canadá precisava daquele gol. Quando a bola atravessou a linha, o meio-campista de 29 anos não apenas marcou um gol — ele abriu uma porta que seu país nunca havia conseguido abrir antes. Pela primeira vez em sua história, o Canadá se classificava para as oitavas de final de uma Copa do Mundo.
Mas aquele chute carregava mais peso do que os números da partida revelam. Stephen Antunes Eustaquio é filho de portugueses, nascido em Leamington, no Canadá, que aos sete anos se mudou com a família para Portugal. Lá cresceu, jogou em clubes menores, recebeu convites para as seleções de base. Quando chegou o convite para defender o Canadá em 2019, ele aceitou sem hesitar. "Senti que os sete anos em que vivi no Canadá foram muito bons, e a única forma de retribuir seria jogar por eles", disse ele à emissora canadense The Sports Network em 2024, ainda se recuperando de um rompimento do ligamento cruzado do joelho esquerdo.
Seu melhor futebol veio no Porto. Chegou ao clube português em janeiro de 2022 e ajudou a equipe a conquistar dois campeonatos nacionais e seis taças em quatro anos. Era o auge de sua carreira — até que a temporada 25/26 chegou e o espaço diminuiu. Foi emprestado para o LAFC, nos Estados Unidos, onde joga atualmente. Mas antes disso, antes de tudo isso, vieram as perdas.
Em abril de 2023, sua mãe, Esmeralda Eustaquio, morreu após meses lutando contra um câncer no cérebro. O diagnóstico havia chegado pouco antes da Copa do Mundo de 2022, no Qatar. Stephen precisou jogar aquele torneio carregando aquele peso, vendo sua mãe desaparecer enquanto ele corria em um campo. "Nem tive tempo de chorar a minha mãe. Houve uma certa altura em que eu falava com ela e ela não me respondia", disse ele à TSN. "A minha mãe era a pessoa mais especial. Se me conhecem, conhecem-na a ela, porque sou o espelho dela. Era mesmo a melhor mãe do mundo."
Um ano depois, em maio de 2024, seu pai sofreu um ataque cardíaco. Stephen estava celebrando o nascimento de sua filha, Benedita, nascida em abril, quando recebeu a notícia de que seu pai havia caído. Duas mortes em um intervalo de doze meses. Duas perdas que moldaram quem ele é como jogador e como homem.
Mesmo assim, ele se tornou um dos líderes da seleção canadense. É vice-capitão, atrás apenas de Alphonso Davies, e o maestro do meio-campo sob o comando do técnico Jesse Marsch. Quando Ismail Koné, seu companheiro de posição, quebrou a perna de forma trágica no jogo contra o Qatar, foi Eustaquio quem "segurou as pontas", como dizem no futebol. Foi ele quem manteve o time em pé.
E foi ele quem marcou o gol que importa. Aquele chute nos acréscimos contra a África do Sul não era apenas um gol de um jogador em um campo. Era a resposta de um homem que perdeu sua mãe, depois seu pai, e mesmo assim acordou todos os dias para treinar, para lutar, para representar seu país. O Canadá agora espera o vencedor do duelo entre Holanda e Marrocos, que acontece no dia seguinte, às 22h. Mas antes disso, o país inteiro sabe o nome de quem os levou até aqui.
Notable Quotes
Senti que os sete anos em que vivi no Canadá foram muito bons, e a única forma de retribuir seria jogar por eles— Stephen Eustaquio, à The Sports Network
A minha mãe era a pessoa mais especial. Se me conhecem, conhecem-na a ela, porque sou o espelho dela. Era mesmo a melhor mãe do mundo— Stephen Eustaquio, à The Sports Network
The Hearth Conversation Another angle on the story
Como um jogador consegue manter o foco depois de perder a mãe e o pai em um intervalo de um ano?
Acho que não é sobre manter o foco. É sobre não ter escolha. Ele estava em um torneio quando sua mãe morreu. Não podia sair. Tinha que jogar.
Mas ele poderia ter pedido para sair, não é?
Poderia. Mas ele não pediu. Isso diz algo sobre quem ele é — não sobre força de vontade, mas sobre responsabilidade. Ele tinha um país nas costas.
E quando seu pai morreu?
Estava celebrando o nascimento da filha. Imagine isso: a vida chegando e a morte chegando ao mesmo tempo. Não há manual para isso.
Ele fala sobre isso publicamente?
Fala. Disse que sua mãe era a pessoa mais especial, que ele é o espelho dela. Não esconde. Mas também não usa como desculpa.
O gol que marcou — você acha que era sobre ela?
Acho que era sobre ele. Sobre continuar. Sobre o Canadá. Mas sim, ela estava lá também.