Grupo agropecuário de Barretos entrou com cautelar para congelar cobranças por 60 dias e renegociar dívidas com credores como Sicoob, Safra e Banco do Brasil. Morte de Izonel em 2024 levou bancos a endureceram linhas de crédito; investimentos em fazenda no Tocantins não geraram retorno esperado, agravando insolvência.
Herdeiros de Izonel buscam proteção judicial com dívidas de R$ 140 milhões
Sem crédito na praça e com investimentos de baixo retorno, a família ficou sem alternativa
Por que a morte de Izonel em 2024 foi tão determinante para a crise?
Porque os bancos tinham linhas de crédito em nome dele. Quando ele faleceu, aquelas linhas simplesmente desapareceram. Os bancos não renovaram. Sem crédito, o grupo ficou sem oxigênio.
E os investimentos que fizeram, como a fazenda no Tocantins — por que não funcionaram?
Exigiram muito capital para abrir área, para estruturar a operação. Mas os retornos não vieram. O grupo já era alavancado demais, e esses investimentos não geraram o fluxo de caixa que esperavam.
A participação na Minerva não poderia salvá-los?
Teoricamente sim, mas na prática não. A VDQ Holdings, que controla a Minerva, se endividou em R$ 700 milhões com o Bradesco. Está tão alavancada que não tem margem para distribuir dividendos. A Minerva teria de gerar lucros enormes para pagar essa dívida e ainda sobrar algo para os acionistas.
Então a Minerva está blindada disso tudo?
Formalmente sim. A Minerva divulgou uma nota dizendo que a IZVQ é apenas acionista minoritária, sem poder de controle. As dívidas dos herdeiros não afetam a companhia. Mas a realidade é que a família está presa — não consegue acessar valor daquele ativo.
E agora, qual é a saída?
A renegociação extrajudicial. Eles pediram 60 dias para congelar as cobranças e reorganizar o passivo com os credores. É a única chance que têm de evitar a insolvência total.
Os credores vão aceitar?
Depende. O Sicoob é credor de R$ 74,5 milhões. Safra, Banco do Brasil, Banco da Amazônia — todos têm exposição. Se o grupo conseguir demonstrar um plano viável, talvez aceitem. Caso contrário, vão executar.
O Pulso
- Grupo IZVQ entrou com cautelar em 30 de julho para congelar cobranças por 60 dias
- Dívidas totais ultrapassam R$ 140 milhões, com Sicoob como maior credor (R$ 74,5 milhões)
- Morte de Izonel Vilela de Queiroz em 2024 levou bancos a recusarem renovação de linhas de crédito
- Participação indireta de 1,44% na Minerva Foods está protegida judicialmente
- Grupo controla 10 mil hectares próprios e 5 mil arrendados, com capacidade para 35 mil bovinos
Grupo agropecuário de Barretos entrou com cautelar para congelar cobranças por 60 dias e renegociar dívidas com credores como Sicoob, Safra e Banco do Brasil. Morte de Izonel em 2024 levou bancos a endureceram linhas de crédito; investimentos em fazenda no Tocantins não geraram retorno esperado, agravando insolvência.
Grupo IZVQ, dos herdeiros de Izonel Vilela de Queiroz, recorreu à Justiça para suspender pagamentos de R$ 140 milhões em dívidas enquanto prepara recuperação extrajudicial após morte do patriarca e fracasso de investimentos.
Em Barretos, no interior de São Paulo, uma das famílias mais tradicionais da pecuária brasileira enfrenta um momento de crise. O grupo IZVQ, que pertence aos herdeiros de Izonel Vilela de Queiroz e controla indiretamente 1,44% da Minerva Foods — a maior exportadora de carne bovina da América do Sul — recorreu à Justiça no final de julho para pedir proteção contra seus credores. Com dívidas que ultrapassam R$ 140 milhões, a família buscou congelar as cobranças por 60 dias enquanto prepara uma renegociação extrajudicial de seu passivo.
A situação do grupo reflete uma combinação de problemas operacionais e pessoais que se acumularam ao longo dos últimos anos. A IZVQ Holdings, veículo por meio do qual os herdeiros de Izonel detêm sua participação na VDQ Holdings (a holding que controla a Minerva), já operava com alavancagem excessiva focada em pecuária. Nos últimos tempos, o grupo tentou uma estratégia arriscada para melhorar seus retornos: realizou investimentos significativos em novas operações. Um exemplo emblemático foi a aquisição de uma fazenda em Wanderlândia, no Tocantins, que exigiu investimentos consideráveis em abertura de área. A propriedade, com capacidade para 7,5 mil cabeças de gado em confinamento, 10 mil em criação a pasto e 1 mil hectares de agricultura, não produziu os resultados esperados.
O ponto de inflexão veio com a morte de Izonel Vilela de Queiroz em 2024. Quando o patriarca faleceu, as linhas de crédito que estavam em seu nome desapareceram. Os bancos endureceram suas posições e se recusaram a renovar financiamentos. Sem acesso ao crédito e com investimentos de baixo retorno, o fluxo de caixa das empresas começou a se deteriorar, levando a dificuldades crescentes para honrar obrigações. A situação se tornou insustentável.
O pedido cautelar foi protocolado na Vara Regional Empresarial e de Conflitos Relacionados à Arbitragem de São José do Rio Preto e abarca várias empresas do grupo familiar. O Sicoob é o maior credor, com R$ 74,5 milhões a receber. O Banco Safra tem outros R$ 16,4 milhões, o Banco do Brasil R$ 14,1 milhões, e o Banco da Amazônia R$ 13 milhões. Quase R$ 15 milhões estão nas mãos de fundos de investimento em direitos creditórios: Quatá Clo, Audax e Sifra Star.
Atualmente, o grupo IZVQ é conduzido por Eduardo Scannavino de Queiroz, filho de Izonel. Além dele, a família é composta pela viúva Regina Célia e pelas irmãs Liliane e Larissa Scannavino de Queiroz. Cada um deles pediu individualmente proteção contra credores, já que também exercem atividades agropecuárias na pessoa física. Ao todo, o grupo controla 10 mil hectares próprios e 5 mil arrendados, com capacidade de confinamento para 35 mil bovinos e pastagem para 15 mil cabeças.
A participação indireta na Minerva, embora seja o ativo de maior potencial, está longe de representar uma fonte de recuperação financeira no curto prazo. A VDQ Holdings se endividou com o Bradesco BBI em cerca de R$ 700 milhões em dezembro de 2024 para fazer um aporte de capital na gigante de carne bovina. Com isso, ficou bastante alavancada e praticamente sem margem para distribuir dividendos aos diferentes ramos da família Vilela de Queiroz. Para que a situação mude, a Minerva teria de gerar dividendos suficientes para honrar a dívida com o Bradesco e ainda deixar sobra para remunerar os acionistas da holding.
A Minerva, por sua vez, divulgou uma nota esclarecendo que a IZVQ é apenas uma acionista minoritária sem poder de controle e sem assento nos órgãos de administração. Segundo a companhia, não há vínculo patrimonial, financeiro ou obrigacional entre a VDQ Holdings, a Minerva e as sociedades do grupo familiar de Izonel. Eventuais dívidas e execuções não possuem qualquer efeito sobre o balanço, a liquidez ou as obrigações da controladora ou da exportadora.
A história da família Vilela de Queiroz na pecuária é longa. Começou no fim da década de 1950 com uma empresa de transportes fundada por Edivar Vilela de Queiroz, irmão de Izonel. Em 1969, os irmãos fundaram a Expresso Barretos Transportes, uma das maiores transportadoras de gado da região central do Brasil. Em 1975, já transportando mais de um milhão de animais por ano, ingressaram na produção agropecuária. A grande jogada veio na década de 1990, quando compraram o embrião da Minerva, um abatedouro em Barretos que se tornaria a maior exportadora de carne bovina da América do Sul. Agora, com a crise financeira, a esperança do grupo repousa inteiramente na renegociação com seus credores — a única saída capaz de tirar a família da insolvência.
Citações Notáveis
Tal situação prejudicou o fluxo de caixa das empresas, iniciando a queda do faturamento e as dificuldades na quitação de obrigações— Grupo IZVQ, no pedido enviado à Justiça
A IZVQ é titular de participação societária minoritária no capital social da VDQ Holdings, sem qualquer poder de controle, individual ou compartilhado— VDQ Holdings, em nota de esclarecimento