Habib's obtém aprovação de recuperação judicial após 5 décadas de operação

O grande desafio não é negociar a dívida, é provar que existe operação viável
Advogado tributarista explica o que está realmente em jogo na recuperação judicial do Habib's.
Mark

Como uma empresa que cresceu tanto consegue chegar a uma dívida de R$ 265 milhões?

Mimi

O modelo funcionou enquanto os custos eram controláveis e a concorrência era previsível. Mas a pandemia mudou tudo — menos movimento nas lojas, mais pressão nos custos, e de repente os aplicativos de entrega ofereciam alternativas que o Habib's não conseguia acompanhar com seus preços.

Mark

Então é só uma questão de inflação e pandemia?

Mimi

Não. Há também a questão estrutural. Um modelo verticalizado que funcionava para comprimir custos se torna uma desvantagem quando você precisa ser ágil. E tem o histórico — a investigação de 2014 por sonegação fiscal deixou cicatrizes.

Mark

A recuperação judicial resolve o problema?

Mimi

Resolve a pressão imediata, dá tempo para negociar. Mas o advogado foi claro: o desafio real é provar que existe uma operação viável depois disso. Não adianta renegociar dívida se a empresa não consegue gerar lucro.

Mark

E como faz isso?

Mimi

Precisa olhar tudo junto — dívidas bancárias, tributárias, fornecedores, contratos. Não é só renegociar números. É reimaginar o negócio.

Mark

Isso é possível?

Mimi

Depende. O Habib's tem marca forte, histórico, presença. Mas vender esfiha por R$ 0,50 não funciona mais. Precisam encontrar um novo equilíbrio.

  • Com dívidas que chegaram a superar R$ 300 milhões antes do pedido formal, o Habib's chegou ao limite de um modelo que dependia de margens mínimas multiplicadas por volume imenso.
  • A queda no movimento das lojas físicas após a pandemia e a ascensão dos aplicativos de entrega corroeram as bases do negócio sem que a empresa conseguisse se adaptar a tempo.
  • Um histórico de turbulências fiscais — incluindo investigação por suspeita de sonegação em 2014 — deixou cicatrizes que complicaram ainda mais a saúde financeira da rede ao longo dos anos.
  • A aprovação da recuperação judicial abre uma janela de reorganização, mas especialistas alertam que renegociar dívidas não basta: é preciso provar que a operação ainda tem viabilidade real.
  • O verdadeiro desafio está em reimaginar uma marca icônica — que vendeu esfihas a R$ 0,50 — para um mercado onde esse modelo de acessibilidade extrema já não se sustenta.

Por mais de cinco décadas, o Habib's ensinou ao Brasil que comer bem poderia custar pouco — e construiu um império sobre essa promessa. Agora, com uma dívida superior a R$ 265 milhões aprovada pela Justiça de São Paulo em recuperação judicial, a rede enfrenta a contradição mais difícil de sua história: o mesmo modelo que a tornou grande pode ser o que a impede de sobreviver. A pandemia, os aplicativos de entrega e a inflação não apenas abalaram as finanças da empresa — revelaram que a equação do barato e do muito, quando o mundo muda, pode se tornar insustentável.

Na quarta-feira, 26 de agosto, a Justiça de São Paulo aprovou a recuperação judicial do Habib's, com uma dívida declarada que ultrapassa R$ 265 milhões. A decisão marca um momento de inflexão para uma das marcas mais reconhecidas do fast food brasileiro — fundada em 1973, quando Alberto Saraiva, então estudante de Medicina com 19 anos, assumiu a padaria da família e, anos depois, encontrou no chef Paulo Abud o parceiro que daria origem ao cardápio árabe que definiria a rede.

A primeira unidade abriu em 1988, na Rua Cerro Corá, no Alto da Lapa, em São Paulo. A expansão por franquias veio quatro anos depois. O que sustentou esse crescimento foi um modelo verticalizado, no qual a empresa controlava etapas da produção para comprimir custos — o que permitiu promoções que marcaram gerações, como esfihas a R$ 0,50 e rodízio a R$ 9,90. O Habib's era sinônimo de acessibilidade.

Mas a equação começou a desmoronar após a pandemia de Covid-19. O movimento nas lojas caiu, os aplicativos de entrega intensificaram a concorrência e a inflação pressionou custos que não podiam mais ser repassados aos preços sem destruir o próprio modelo. Antes do pedido formal de recuperação, o Grupo Gennius — controlador da marca — obteve uma tutela cautelar suspendendo cobranças por 60 dias enquanto negociava com credores, com passivo informado superior a R$ 300 milhões.

Especialistas ouvidos pela CNN alertam que o caminho à frente exige mais do que renegociar números. Bruno Medeiros Durão, advogado tributarista, ressaltou que a recuperação judicial só funciona se a empresa conseguir demonstrar que sua operação tem viabilidade após a reestruturação. Adriano Almeida, seu sócio, reforçou que tratar cada dívida de forma isolada é um dos maiores erros em momentos de crise — é preciso enxergar o ecossistema completo: bancos, fornecedores, tributos e fluxo de caixa. Para o Habib's, isso significa não apenas reorganizar o passivo, mas reimaginar o que a marca pode ser em um mundo onde seu modelo original já não funciona.

Na quarta-feira, 26 de agosto, a Justiça de São Paulo aprovou o pedido de recuperação judicial do Habib's, uma das marcas mais reconhecidas do fast food brasileiro. A dívida declarada no processo ultrapassa R$ 265 milhões — um número que resume a queda de uma empresa que, durante décadas, construiu seu império sobre um princípio simples: vender barato, vender muito, ganhar escala.

A história começou em 1973, quando Alberto Saraiva, então estudante de Medicina com 19 anos, assumiu a padaria da família. Tempos depois, ao adquirir uma lanchonete, encontrou Paulo Abud, um chef especialista em culinária árabe. Dali nasceu o cardápio que definiria a marca: esfihas, quibes, homus. Em 1988, Saraiva abriu a primeira unidade da rede na Rua Cerro Corá, no Alto da Lapa, em São Paulo. Quatro anos depois, começou a expansão por franquias, levando o Habib's para outras regiões do país.

O que sustentou o crescimento foi um modelo verticalizado — a própria empresa controlava diferentes etapas da produção para comprimir custos. Essa estrutura permitiu as promoções que marcaram gerações: esfihas por R$ 0,50, rodízio por R$ 9,90. O Habib's não era apenas comida; era acessibilidade. Mas a equação que funcionou por décadas começou a desmoronar após a pandemia de Covid-19. O movimento nas lojas caiu. Ao mesmo tempo, a expansão dos aplicativos de entrega intensificou a concorrência e erodiu as margens. A inflação pressionava custos que não podiam mais ser repassados aos preços sem destruir o modelo.

Não era a primeira vez que a rede enfrentava turbulência. Em 2014, uma investigação apontou suspeita de sonegação fiscal em São Paulo e Minas Gerais. O procurador responsável afirmou que a companhia impunha aos franqueados um sistema eletrônico para omitir receita. O Habib's optou por parcelar os débitos fiscais, suspendendo as investigações. Mas a ferida nunca cicatrizou completamente.

Em 2026, antes do pedido de recuperação judicial, o Grupo Gennius — controlador da marca — obteve uma tutela cautelar que suspendeu cobranças e execuções por 60 dias enquanto negociava com credores. Naquele momento, o passivo informado ultrapassava R$ 300 milhões, concentrado principalmente em instituições financeiras. Agora, com a aprovação da recuperação, a empresa terá de reorganizar não apenas dívidas bancárias, mas também compromissos tributários, operacionais e com fornecedores.

Bruno Medeiros Durão, advogado tributarista e fundador da Durão Almeida & Pontes Advocacia, explicou à CNN Money que a recuperação judicial pode funcionar como ferramenta para reorganizar a empresa antes que a crise comprometa definitivamente a operação. Mas alertou: o grande desafio não é apenas negociar a dívida, é demonstrar que existe uma operação capaz de se manter de pé depois da renegociação. Uma dívida alta pode se tornar insolúvel quando passa a consumir o capital necessário para manter o funcionamento da empresa.

Adriano Almeida, sócio da mesma banca, reforçou que um dos maiores erros de uma empresa em crise é tratar cada dívida de maneira isolada. A reestruturação precisa considerar todo o ecossistema financeiro: passivos bancários, tributários, fornecedores, contratos e fluxo de caixa. Para o Habib's, isso significa não apenas renegociar números, mas reimaginar como uma marca que vendeu esfihas por R$ 0,50 pode sobreviver em um mundo onde esse modelo não funciona mais.

O grande desafio não é apenas negociar a dívida, mas demonstrar que existe uma operação capaz de se manter de pé depois da renegociação
— Bruno Medeiros Durão, advogado tributarista
Um dos maiores erros de uma empresa em crise é tratar cada dívida de maneira isolada. A reestruturação precisa considerar todo o ecossistema financeiro da companhia
— Adriano Almeida, sócio da Durão Almeida & Pontes Advocacia
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