Habib's entra em recuperação judicial com dívida de R$ 265 milhões

Operação envolve 119 lojas Habib's, 26 unidades Ragazzo e 6 churrascarias Tendal, afetando potencialmente funcionários e fornecedores.
Sem conseguir concluir um acordo, o grupo recorreu à recuperação judicial
Após dois meses de negociações protegidas com credores, o Grupo Gennius não encontrou saída fora do sistema judicial.
Mark

Como uma empresa do tamanho da Habib's chega a esse ponto? Não é uma marca conhecida há décadas?

Mimi

É verdade, mas conhecimento de marca não protege contra a realidade dos números. A pandemia acelerou mudanças que já estavam acontecendo — as pessoas comeram menos fora, e quando voltaram, seus hábitos tinham mudado. Enquanto isso, os juros subiram muito, e o grupo tinha dívidas em bancos.

Mark

Então tentaram negociar antes de entrar em recuperação?

Mimi

Exatamente. Conseguiram uma proteção de 60 dias para conversar com credores sem pressão de cobranças. Mas não conseguiram fechar um acordo. Quando aquele período terminou, não havia saída.

Mark

E agora? O que muda com a recuperação judicial?

Mimi

Agora os credores não podem simplesmente cortar fornecimentos ou cobrar de forma agressiva. Mas também significa que o grupo tem apenas 60 dias para apresentar um plano real de como vai se reorganizar. Se não conseguir, vira falência.

Mark

Os bancos têm alguma vantagem nessa situação?

Mimi

Têm. O juiz negou o pedido para liberar os recebíveis que estão dados como garantia aos bancos. Então enquanto a empresa tenta se reorganizar, os bancos continuam retendo esses recursos. É uma pressão constante.

Mark

E os 119 restaurantes Habib's? O que acontece com eles?

Mimi

Essa é a pergunta que ninguém consegue responder ainda. Alguns podem fechar, outros podem ser vendidos. Depende do plano que o grupo vai apresentar. Mas cada loja que fecha significa funcionários sem emprego.

  • A tentativa de resolver a crise em silêncio fracassou: os 60 dias de proteção cautelar obtidos antes do pedido formal não foram suficientes para fechar acordo com os credores.
  • A estrutura em jogo é vasta — 119 lojas Habib's, 26 unidades Ragazzo, 6 churrascarias Tendal e dezenas de holdings e sociedades operacionais, todas agora sob o guarda-chuva judicial.
  • A Justiça concedeu proteção parcial, impedindo credores de cortar contratos ou insumos essenciais, mas negou a liberação dos recebíveis bancários, limitando o caixa disponível para a reestruturação.
  • A KPMG foi nomeada administradora judicial e terá 15 dias para mapear a situação real do grupo e avaliar se as dezenas de empresas devem ser tratadas como um único bloco no processo.
  • O relógio corre: sem um plano de recuperação apresentado em 60 dias, o processo se converte automaticamente em falência, com impacto direto sobre funcionários, fornecedores e toda a cadeia produtiva.

Uma das redes de alimentação mais populares do Brasil chega ao sistema judicial de reestruturação carregando o peso de R$ 265,2 milhões em dívidas — marca de uma crise que a pandemia iniciou, os juros aprofundaram e as negociações privadas não conseguiram resolver. O Grupo Gennius, dono do Habib's, do Ragazzo e do Tendal, obteve o deferimento da recuperação judicial na 1ª Vara de Falências de São Paulo, abrindo um prazo de 60 dias que definirá se a empresa sobrevive como negócio ou se dissolve em falência. É o momento em que uma marca familiar a milhões de brasileiros enfrenta, em público e sob tutela do Estado, a conta de anos de fragilidade acumulada.

O Grupo Gennius, proprietário das marcas Habib's, Ragazzo e Tendal, entrou formalmente em recuperação judicial em 24 de agosto com uma dívida declarada de R$ 265,2 milhões. A 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo deferiu o pedido, abrindo um prazo crítico de 60 dias: ou a empresa apresenta um plano viável de reestruturação, ou o processo se converte em falência.

O grupo havia tentado evitar esse caminho. Dois meses antes, obteve uma tutela cautelar que o protegia temporariamente contra cobranças e protestos, criando uma janela para negociações diretas com credores. A estratégia não funcionou, e o recurso à Justiça tornou-se inevitável. Na petição, o grupo atribuiu a crise aos efeitos prolongados da pandemia, às mudanças nos hábitos de consumo dos brasileiros e à alta dos juros.

A operação envolvida é complexa: dez franqueadoras e holdings, 17 sociedades operacionais, 119 lojas Habib's, 26 unidades Ragazzo e 6 churrascarias Tendal. O juiz Jomar Juarez Amorim determinou a suspensão de ações e execuções contra as empresas e proibiu credores de interromper contratos ou fornecimento de insumos essenciais apenas em razão do processo. Também afastou cláusulas de vencimento antecipado de dívidas, por entender que contrariam o princípio de preservação da empresa.

Nem todos os pedidos foram aceitos. A Justiça negou a liberação dos recebíveis cedidos fiduciariamente aos bancos — decisão que restringe significativamente o caixa disponível durante a reestruturação. O pedido de sigilo integral também foi recusado: o processo permanece público, com exceção de documentos sensíveis, como a folha de funcionários e os bens dos controladores.

A KPMG Corporate Finance foi nomeada administradora judicial e terá 15 dias para apresentar um relatório sobre a situação das companhias. Após a publicação do edital, credores terão 15 dias para apresentar divergências. Se o plano de recuperação sofrer contestações, uma assembleia de credores poderá ser convocada para votar a proposta. O fracasso em cumprir o cronograma resultará na conversão automática do processo em falência.

O Grupo Gennius, proprietário das marcas Habib's, Ragazzo e Tendal, ingressou formalmente em recuperação judicial na segunda-feira, 24 de agosto, com uma dívida declarada de R$ 265,2 milhões. A 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo deferiu o processamento do pedido, abrindo um período crítico de 60 dias durante o qual a empresa deve apresentar um plano viável de reestruturação ou enfrentar a conversão do processo em falência.

O caminho até esse ponto revela uma empresa que tentou evitar a recuperação judicial. Dois meses antes do pedido formal, o grupo havia obtido uma tutela cautelar que o protegia por 60 dias contra protestos e medidas de cobrança — uma janela destinada a permitir negociações diretas com credores fora do sistema judicial. Essa estratégia não funcionou. Sem conseguir fechar um acordo nesse período, o Grupo Gennius não teve alternativa senão recorrer à recuperação judicial.

A operação que agora enfrenta reestruturação é complexa e verticalizada. Ela compreende dez franqueadoras e holdings de participação, 17 sociedades operacionais, seis churrascarias Tendal, 119 lojas Habib's e 26 unidades Ragazzo — uma estrutura que distribui diferentes etapas da cadeia produtiva entre empresas distintas. Na petição apresentada à Justiça, o grupo atribuiu sua crise financeira a três fatores: os efeitos prolongados da pandemia, mudanças nos hábitos de consumo dos brasileiros e um cenário macroeconômico adverso, particularmente a alta dos juros.

O juiz Jomar Juarez Amorim, ao deferir o processamento, determinou a suspensão de ações e execuções contra as empresas, com exceções previstas em lei. Também concedeu proteção parcial: credores sujeitos à recuperação não poderão interromper contratos simplesmente porque o grupo entrou no processo, nem poderão deixar de fornecer insumos ou serviços essenciais mediante pagamento à vista apenas por causa de dívidas anteriores. O magistrado também afastou a aplicação automática de cláusulas que prevejam o vencimento antecipado de dívidas — conhecidas como cláusulas "ipso facto" — por considerar que tais dispositivos podem contrariar o princípio de preservação da empresa.

Mas nem todos os pedidos do grupo foram atendidos. A Justiça negou o pedido de "quebra das travas bancárias", que buscava liberar recebíveis e investimentos cedidos fiduciariamente aos bancos para ampliar os recursos em caixa. O juiz entendeu que recebíveis dados em cessão fiduciária não ficam sujeitos aos efeitos da recuperação judicial — na prática, os bancos poderão continuar retendo esses recursos para amortizar créditos garantidos, mesmo com o processamento da recuperação. Essa decisão limita significativamente a margem de manobra financeira do grupo durante a reestruturação.

A Justiça também negou o pedido de sigilo integral do processo. O juiz determinou que ele permaneça público, ressalvando apenas documentos com informações sensíveis, como a relação completa de empregados com funções e salários, e os bens particulares dos controladores e administradores. A KPMG Corporate Finance foi nomeada administradora judicial e terá 15 dias para apresentar um relatório sobre a situação das companhias e avaliar se o grupo deve ser tratado de maneira consolidada no processo — uma análise relevante dado o grande número de pessoas jurídicas envolvidas.

O cronograma agora é apertado. Após a publicação do edital, credores terão 15 dias para apresentar divergências ou pedidos de habilitação. Depois da entrega do plano de recuperação, será aberto prazo de 30 dias para objeções. Se houver contestação, o grupo poderá ter de convocar uma assembleia para negociar e votar sua proposta de reestruturação. O fracasso em apresentar um plano viável nos próximos 60 dias resultará na conversão automática do processo em falência, com todas as consequências que isso implica para funcionários, fornecedores e credores.

O grupo atribuiu a crise financeira aos efeitos da pandemia, às mudanças nos hábitos de consumo e ao cenário macroeconômico adverso, especialmente à alta dos juros
— Petição do Grupo Gennius à Justiça
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