Marie Curie visitou BH em agosto de 1926, uma de suas raras viagens fora da Europa, acompanhada pela filha Irène e recebida por futuras lideranças como Juscelino Kubitschek. A doação de três tubos de rádio ao Instituto do Radium permitiu que a instituição comprasse material diretamente da França com certificados assinados pela própria cientista por décadas.
Há cem anos, Marie Curie deixava legado de radioterapia em Belo Horizonte
Três tubos de rádio que funcionaram por décadas
Por que a visita de Marie Curie a Belo Horizonte importa tanto, se durou apenas dois dias?
Porque naqueles dois dias ela fez algo concreto: doou equipamentos que permitiram ao Instituto do Radium funcionar por décadas com material certificado pela própria cientista. Não foi uma visita de cortesia.
Mas havia muita cobertura jornalística na época?
Curiosamente, não. Apenas um periódico mineiro registrou o episódio, enquanto o Rio teve 496 notícias. Belo Horizonte era uma cidade pequena, com 87 mil habitantes. O legado sobreviveu mais pela tradição oral e pelos arquivos das instituições.
Quem estava naquela palestra na Faculdade de Medicina?
Juscelino Kubitschek, Guimarães Rosa, Pedro Nava — todos com pouco mais de vinte anos, nenhum imaginando o que se tornaria. Estavam ali também as principais lideranças médicas locais. Era uma plateia que moldaria o futuro da medicina brasileira.
Houve resistência à sua presença?
Sim. Relatos sugerem que esposas de professores pressionaram para abreviar a estadia, incomodadas com duas mulheres estrangeiras desacompanhadas de homens, uma delas viúva. Isso revela quanto a discriminação estava inserida na sociedade brasileira da época.
E o que mudou depois daquela doação de rádio?
O instituto começou a comprar material diretamente da França com certificados assinados por Curie. Funcionou assim por décadas. Transformou a radioterapia de algo experimental em prática consolidada no Brasil.
Le Pouls
- Marie Curie visitou Belo Horizonte em 16 e 17 de agosto de 1926, uma de suas raras viagens fora da Europa
- Doou três tubos de rádio ao Instituto do Radium, permitindo que a instituição comprasse material da França por décadas
- Juscelino Kubitschek, Guimarães Rosa e Pedro Nava estavam entre os estudantes que assistiram sua palestra na Faculdade de Medicina
- Apenas um periódico mineiro cobriu a visita, contra 496 notícias no Rio de Janeiro
Marie Curie visitou BH em agosto de 1926, uma de suas raras viagens fora da Europa, acompanhada pela filha Irène e recebida por futuras lideranças como Juscelino Kubitschek. A doação de três tubos de rádio ao Instituto do Radium permitiu que a instituição comprasse material diretamente da França com certificados assinados pela própria cientista por décadas.
Há cem anos, Marie Curie visitou Belo Horizonte e doou equipamentos de rádio ao Instituto do Radium, consolidando avanços na radioterapia contra o câncer no Brasil e deixando legado duradouro na medicina mineira.
Numa manhã de agosto de 1926, o anfiteatro da Faculdade de Medicina de Belo Horizonte estava repleto de estudantes de medicina. Eles vinham ouvir Marie Curie, a cientista franco-polonesa que havia revolucionado o entendimento sobre radioatividade e conquistado dois Prêmios Nobel. Entre os jovens na plateia, nenhum sabia que testemunhava um momento raro: uma das poucas vezes que a pesquisadora deixava a Europa para uma turnê científica. Sentados ali estavam Juscelino Kubitschek, que décadas depois seria presidente da República, o escritor Guimarães Rosa e o médico Pedro Nava. Todos tinham pouco mais de vinte anos e nenhum imaginava o impacto que aqueles dois dias deixariam na história da medicina brasileira.
Curie chegou ao Brasil em julho de 1926, aos 59 anos, viúva de Pierre Curie e acompanhada pela filha Irène, que também se tornaria uma cientista premiada com o Nobel. O convite havia partido da embaixada brasileira na França, com apoio do governo francês que bancou toda a viagem. Durante 44 dias, a dupla percorreu Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, ministrando conferências e visitando instituições científicas. No Rio, Curie foi recebida como membro correspondente pela Academia Brasileira de Ciências, tornando-se a primeira mulher a integrar a instituição — um contraste marcante com a Academia de Ciências da França, que a havia rejeitado por ser mulher. Sua aula inaugural na Escola Politécnica foi transmitida pela pioneira Rádio Sociedade. O Serviço Geológico e Mineralógico presenteou-a com um estojo contendo 24 pedras preciosas, quatro minerais radioativos e um cartão de ouro com dedicatória.
Mas foi em Minas Gerais que o legado prático se consolidou. Curie chegou de trem a Belo Horizonte na manhã de 16 de agosto, após uma longa viagem noturna a partir do Rio. Hospedou-se no Grande Hotel Internacional, no endereço onde hoje funciona o Edifício Arcângelo Maletta, no centro da capital. O público mineiro impressionou-se com sua simplicidade. No dia seguinte, visitou o Instituto do Radium, o primeiro centro brasileiro dedicado ao tratamento de câncer, inaugurado quatro anos antes pelo médico Eduardo Borges da Costa, que havia conhecido Curie durante estudos na Europa. À época, a maioria dos tumores ainda era tratada com bisturi. A radioterapia, ainda em seus primeiros passos, usava um método chamado curieterapia, em que agulhas de platina carregadas de rádio eram aplicadas diretamente sobre os tumores. Curie presenteou a instituição com três tubos de rádio, somados aos tubos e agulhas que o instituto já possuía.
O gesto não foi apenas simbólico. A partir daquela doação, o instituto passou a comprar rádio diretamente da França, com certificados de dosagem assinados pela própria cientista. O material doado funcionou durante décadas, permitindo que a instituição — rebatizada de Hospital Borges da Costa — consolidasse sua posição como centro de referência em radioterapia. Hoje, o hospital constitui patrimônio da Universidade Federal de Minas Gerais. No dia 18 de agosto, Curie proferiu a palestra que se tornaria a imagem mais lembrada de sua passagem por Minas: na Faculdade de Medicina, discorreu sobre radioatividade e suas aplicações no tratamento do câncer para uma plateia que incluía lideranças médicas locais e estudantes que teriam papéis importantes na sociedade brasileira décadas depois.
A visita, porém, não foi isenta de tensões. Segundo relatos extraoficiais reconstituídos por pesquisadores a partir de notícias da época, a estadia da comitiva pode ter sido abreviada por pressão das esposas de professores da Faculdade de Medicina, incomodadas com a presença de duas mulheres estrangeiras — uma delas viúva — acompanhadas de Carlota Pereira de Queiroz, médica paulista ligada à defesa dos direitos das mulheres. Reação semelhante havia ocorrido durante a visita de Curie aos Estados Unidos em 1921. A imprensa brasileira, porém, ao contrário da francesa em anos anteriores, não publicou matérias sensacionalistas sobre a cientista, embora algumas reportagens apresentassem seus méritos como exceção ou fizessem críticas ao movimento de liberação feminina.
Um detalhe curioso escapou aos pesquisadores até hoje: ao vasculhar a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional em busca de coberturas da visita, encontrou-se apenas um periódico mineiro — a revista O Lar Catholico — com uma nota sobre o episódio, contra 496 notícias localizadas só no Rio de Janeiro. Não significa que a imprensa mineira não tenha coberto a visita; jornais locais da época, como o Diário de Minas, simplesmente não estão digitalizados no acervo nacional. A disparidade explica-se pela duração: a comitiva ficou apenas dois dias em Belo Horizonte e quase seis semanas no Rio. A capital mineira tinha apenas três décadas de existência e cerca de 87 mil habitantes, enquanto o Rio de Janeiro tinha 1,36 milhão. Parte da memória dessa visita sobreviveu mais pela tradição oral e pelos arquivos institucionais mineiros do que pelos jornais. Cem anos depois, o legado permanece: a radioterapia consolidou-se como ferramenta essencial no tratamento do câncer no Brasil, e aqueles três tubos de rádio doados por Marie Curie marcaram o ponto de inflexão que transformou a medicina mineira.
Citations marquantes
Ela tinha interesse em divulgar os conhecimentos sobre a radioatividade e seu uso na medicina, motivada pelo desejo de contribuir para a união universal das mentes e cooperação intelectual dos cientistas em benefício da vida e da paz— Ildeu Moreira, professor da UFRJ e membro da Academia Brasileira de Ciências
A palestra dela na Faculdade de Medicina de Belo Horizonte foi significativa pela presença das principais lideranças médicas e de estudantes que teriam papel futuro importante na sociedade brasileira— Ildeu Moreira