Guerra nos ares: drones transformam confronto entre polícia e crime no Rio

Equipes policiais foram alvo de ataques com drones lança-granadas; um cabo da Marinha foi preso pilotando drones explosivos para facção; risco iminente a civis em áreas de conflito.
A guerra que começou nos céus do Rio ameaça alcançar o espaço aéreo de todo o país
Bloqueadores de sinal usados pelo crime já causaram apagões em aeroportos e ameaçam infraestrutura crítica nacional.
Mark

Por que os drones se tornaram tão centrais nesse conflito agora, nesse momento específico?

Mimi

Porque a tecnologia ficou acessível. Um drone básico custa dois mil reais — qualquer um compra na internet. A polícia percebeu o valor para vigilância e investigação, e o crime viu exatamente a mesma oportunidade. Mas o crime foi além: transformou em arma.

Mark

Quando você diz "transformou em arma", está falando de granadas caseiras?

Mimi

Sim, e de bloqueadores de sinal também. Os jammers são o que mais assusta agora. Não é só um drone voando — é um drone que pode derrubar outros drones, que pode interferir em operações policiais inteiras. E descobriram que podem fabricar isso clandestinamente.

Mark

Como assim fabricar? Não é tecnologia muito complexa?

Mimi

Aparentemente não. Um ex-policial e um técnico em radiofrequência montaram um laboratório em uma mansão em Sorocaba. Compravam peças da China por cinco mil reais e vendiam o equipamento montado por cento e vinte mil. Isso é lucro de crime organizado.

Mark

E a polícia consegue acompanhar esse ritmo de inovação?

Mimi

Não. A polícia está sempre um passo atrás. Enquanto o governo tenta comprar oitenta equipamentos anti-drones por 27 milhões, o crime já operava 216 bloqueadores de sinal registrados só em 2025. É uma corrida armamentista, mas desigual.

Mark

O que mais preocupa você nessa história?

Mimi

Que o risco não fica contido nas favelas. Quando um jammer derruba o GPS de vinte e um aviões em Belo Horizonte, quando esses aparelhos podem interferir em telecomunicações — aí o problema vira de todos. Não é mais só sobre segurança pública. É sobre infraestrutura crítica.

Mark

Então é possível que isso piore?

Mimi

Tudo indica que sim. A tecnologia está aí, o acesso é fácil, o lucro é grande. A menos que consigam desmantelar esses laboratórios clandestinos e controlar a importação de peças, a guerra aérea vai continuar escalando.

  • Facções cariocas passaram de vigilância com drones para ataques diretos: uma equipe da Polícia Militar foi alvo de um drone lança-granadas, e um cabo da Marinha foi preso por operar esses aparelhos para o Comando Vermelho.
  • Jammers — bloqueadores de sinal que deveriam ser exclusivos das forças de segurança — já somam 216 ocorrências nas mãos de criminosos em 2025, incluindo um laboratório clandestino em Sorocaba que vendia equipamentos por até 120 mil reais.
  • O risco extrapolou as favelas: em Belo Horizonte, um jammer escondido em comunidade derrubou o sinal de GPS de 21 aviões por cinco dias, expondo a vulnerabilidade do espaço aéreo nacional.
  • O governo do Rio licitou 80 equipamentos anti-drones por 27 milhões de reais, mas o crime já opera com tecnologia mais avançada e distribuída, mantendo a iniciativa no confronto tecnológico.
  • A entrada de um ex-deputado estadual no esquema — adquirindo anti-drones de fornecedores chineses para repassar ao Comando Vermelho — revela que a guerra aérea tem ramificações políticas e financeiras profundas.

Nos céus do Rio de Janeiro, uma fronteira invisível foi cruzada: o conflito entre facções criminosas e forças de segurança deixou as vielas e subiu ao ar. Drones — ferramentas baratas e acessíveis — tornaram-se simultaneamente olhos, mensageiros e armas, revelando como a tecnologia civil pode ser rapidamente convertida em instrumento de guerra urbana. O que começou como vigilância mútua evoluiu para ataques aéreos com granadas e bloqueadores de sinal que ameaçam não apenas policiais, mas o tráfego aéreo e as telecomunicações de todo o país — um lembrete de que nenhuma inovação permanece neutra por muito tempo.

Os céus do Rio de Janeiro tornaram-se o novo palco do confronto entre polícia e crime organizado. Drones, antes novidade tecnológica, são hoje peças centrais de uma guerra que se desenrola acima das comunidades cariocas — pilotados por agentes em operações de vigilância ou despachados por facções carregando granadas caseiras.

Para as forças de segurança, os aparelhos substituem helicópteros, transmitem imagens em tempo real e custam apenas dois mil reais. Mas o mesmo acesso beneficia o crime: facções os usam para vigiar policiais, rastrear rivais e transportar drogas para presídios como Bangu e Campos. O passo seguinte foi transformá-los em armas — há duas semanas, uma equipe da Polícia Militar foi atacada por um drone lança-granadas. A Polícia Federal interceptou planos do chefe do Terceiro Comando Puro para eliminar um rival por ataque aéreo, e um cabo da Marinha foi preso por se especializar nessa modalidade de ataque para o Comando Vermelho.

O crime foi além e adotou os jammers, bloqueadores de sinal capazes de embaralhar operações policiais. Em 2025, já foram registradas 216 ocorrências com esses equipamentos nas mãos de bandidos. Um deles, apreendido em Acari com um escudo ucraniano, levou à descoberta de um laboratório clandestino em Sorocaba: um ex-policial e um técnico montavam jammers em uma mansão de condomínio de luxo, comprando peças da China por cinco mil reais e revendendo o produto final por até 120 mil. O laboratório foi desarticulado há quinze dias.

A trama ganhou contornos políticos com a prisão do ex-deputado TH Joias, acusado de adquirir anti-drones de fornecedor chinês e repassá-los ao Comando Vermelho. O secretário de Segurança do Rio admite que o acesso das facções a essa tecnologia eleva o risco para as forças de segurança a um patamar inédito no mundo.

O governo licitou 80 equipamentos anti-drones por 27 milhões de reais, mas o crime segue à frente. A ameaça já transborda para o espaço aéreo nacional: em Belo Horizonte, um jammer escondido em favela derrubou o sinal de GPS de 21 aviões por cinco dias. A guerra que nasceu nas vielas do Rio agora aponta para os céus de todo o Brasil.

Os céus do Rio de Janeiro viraram campo de batalha. Não é mais apenas nas ruas e vielas que a polícia e o crime organizado trocam tiros — agora a guerra subiu. Drones sobrevoam as comunidades cariocas, alguns pilotados por agentes da lei em operações de vigilância, outros despachados por facções carregando granadas caseiras prontas para explodir. A escalada é tão rápida que a tecnologia que há poucos anos era novidade tornou-se peça central no confronto que define a segurança da cidade.

Para a polícia, os pequenos aparelhos com câmeras e lentes de visão noturna se tornaram ferramentas indispensáveis. Substituem helicópteros nas incursões aos morros, transmitem imagens em tempo real para equipes que se infiltram pelas vielas, identificam centros de treinamento de milicianos na Baixada Fluminense e desarticulam esconderijos de tráfico na Rocinha. O custo é irrisório — um drone básico sai por dois mil reais na internet — o que explica por que a polícia conseguiu incorporá-los tão rapidamente às operações. Mas o mesmo acesso que beneficia as forças de segurança beneficia também quem está do outro lado da lei.

As facções descobriram rápido o potencial dos drones. Usam-nos para vigiar policiais, rastrear inimigos de facções rivais, transportar drogas entre presídios — o sistema penitenciário registrou pelo menos três casos em que aparelhos carregando maconha e cocaína foram enviados a presídios de Bangu e Campos. Alguns drones chegam até a sobrevoar a Cidade da Polícia, a sede da corporação na Zona Norte, em demonstração de ousadia que beira a provocação. Mas o que realmente assusta os responsáveis pela segurança é o uso dos drones como plataformas de ataque. Há dois anos começaram a surgir relatos de aparelhos carregando granadas de mão caseiras. Há poucas semanas, uma equipe da Polícia Militar foi alvo de um desses ataques — felizmente sem vítimas. A Polícia Federal interceptou conversas de Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido como Peixão, chefe do Terceiro Comando Puro, em que ele planejava eliminar um rival do Comando Vermelho através de um atentado aéreo. Um cabo da Marinha foi preso por pilotar os chamados drones lança-granadas, atividade em que se especializou trabalhando para o Comando Vermelho.

O crime não parou por aí. Descobriu também os jammers — equipamentos que emitem sinais de radiofrequência capazes de interferir no voo de drones e embaralhar as operações policiais. A tecnologia deveria estar restrita aos órgãos de segurança, mas a Polícia Civil registrou 216 ocorrências envolvendo bloqueadores de sinal nas mãos de bandidos apenas em 2025. Um deles foi apreendido em junho na comunidade de Acari, na Zona Norte, acomodado em uma maleta e trazendo um escudo ucraniano que levantou suspeitas sobre sua origem. As investigações revelaram algo ainda mais preocupante: um laboratório clandestino em Sorocaba, a pouco mais de uma hora de São Paulo, onde um ex-policial e um técnico em radiofrequência montavam jammers em uma mansão dentro de um condomínio de luxo. Compravam as peças da China por cinco mil reais e cobravam até cento e vinte mil pelo equipamento montado. O laboratório foi desarticulado há quinze dias.

O ex-deputado estadual Thiego dos Santos Silva, conhecido como TH Joias, entrou nessa história de forma reveladora. Preso desde setembro sob acusação de lavagem de dinheiro para o Comando Vermelho, ele adquiriu uma dezena de equipamentos anti-drones de um fornecedor chinês — aparelhos com aspecto de fuzil que disparam sinais eletrônicos — e repassou o lote à facção. O secretário de Segurança, Victor Santos, é direto ao avaliar o cenário: o acesso das organizações criminosas a esse recurso eleva o patamar de risco para as forças de segurança no Rio em relação ao observado em outras cidades do mundo.

O governo do Rio abriu licitação para comprar oitenta equipamentos capazes de alterar a rota de drones inimigos e até impedir que levante voo, com orçamento de aproximadamente 27 milhões de reais. Mas enquanto a polícia tenta se equipar, o crime segue um passo à frente. O risco transborda para além das favelas. Gesiléa Teles, superintendente de fiscalização da Anatel, alerta que esses artefatos podem colocar em risco o tráfego aéreo e prejudicar serviços de telecomunicações em várias regiões do Brasil. Em janeiro, vinte e um aviões perderam o sinal de GPS nos arredores do aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte, causando apagões durante cinco dias — a causa foi um jammer escondido em uma das favelas da cidade. A guerra que começou nos céus do Rio ameaça agora alcançar o espaço aéreo de todo o país.

O acesso das organizações criminosas a esse recurso faz com que o patamar de risco para as forças de segurança no Rio se eleve em relação ao observado em outras cidades do mundo
— Victor Santos, secretário de Segurança do Rio
De dois anos para cá, começaram a surgir relatos sobre drones no Rio carregando granadas de mão caseiras
— Fabrício Oliveira, delegado da Coordenadoria de Recursos Especiais da Polícia Civil
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