Há mais de sete décadas, as duas Coreias travam uma batalha silenciosa nos céus da península — não com mísseis, mas com papel, palavras e, agora, lixo. Em maio de 2024, mais de 260 balões norte-coreanos carregando detritos cruzaram a fronteira em retaliação ao envio contínuo de panfletos por grupos civis sul-coreanos, reacendendo uma forma de guerra psicológica que sobreviveu a armistícios, acordos e décadas de diplomacia frágil. O gesto é menor em escala do que os 2,8 bilhões de panfletos trocados durante a Guerra da Coreia, mas carrega o mesmo peso simbólico: a fronteira entre as duas nações
Guerra de propaganda: por que Coreia do Norte e Sul trocam balões com lixo
A guerra psicológica não terminou em 1953, apenas mudou de forma
Por que lixo? Por que não apenas mais panfletos?
Porque é uma humilhação. Panfletos ainda têm conteúdo, propósito. Lixo é puro desprezo — é dizer que você não merece nem palavras, apenas detritos.
Mas isso começou como uma tática militar legítima, certo?
Sim. Durante a guerra, era sobre psicologia — quebrar a moral do inimigo, oferecer uma saída. Mas quando a economia mudou, quando o Sul ficou rico e o Norte pobre, a mensagem mudou. Virou sobre humilhação econômica.
E por que os grupos civis continuam enviando panfletos se há um acordo de 2018?
Porque o acordo foi entre governos, não entre a população. E porque o governo sul-coreano não consegue — ou não quer — controlar esses grupos. Eles veem como ativismo, como resistência.
Qual é o risco real aqui?
Que isso escale. Um lado envia panfletos, o outro responde com lixo. Depois vem o quê? Cada retaliação precisa ser pior que a anterior. É uma espiral.
Isso é realmente uma guerra?
Não é guerra no sentido tradicional. Mas é hostilidade contínua, é uma recusa de aceitar a paz. É a guerra nunca terminando, apenas mudando de forma.
El Pulso
- Mais de 260 balões norte-coreanos despejaram sacos de lixo sobre a Coreia do Sul, forçando autoridades a emitir alertas e pedir que moradores permanecessem em casa.
- A Coreia do Norte havia prometido retaliar caso grupos civis sul-coreanos não cessassem o envio de panfletos — e cumpriu a ameaça com precisão calculada.
- A prática ressuscita uma tradição de guerra psicológica que remonta à Guerra da Coreia, quando bilhões de folhetos cruzaram o paralelo 38 em ambas as direções.
- Apesar da Declaração de Panmunjom de 2018, que previa o fim de todos os atos hostis, organizações civis sul-coreanas nunca pararam de enviar materiais ao Norte.
- A tensão na península segue sem resolução clara, com o risco de escalada mantido vivo por atores que operam fora do controle direto dos governos.
Há mais de sete décadas, as duas Coreias travam uma batalha silenciosa nos céus da península — não com mísseis, mas com papel, palavras e, agora, lixo. Em maio de 2024, mais de 260 balões norte-coreanos carregando detritos cruzaram a fronteira em retaliação ao envio contínuo de panfletos por grupos civis sul-coreanos, reacendendo uma forma de guerra psicológica que sobreviveu a armistícios, acordos e décadas de diplomacia frágil. O gesto é menor em escala do que os 2,8 bilhões de panfletos trocados durante a Guerra da Coreia, mas carrega o mesmo peso simbólico: a fronteira entre as duas nações permanece, acima de tudo, uma fronteira de narrativas.
Na madrugada de 28 de maio, soldados sul-coreanos recolheram centenas de sacolas plásticas espalhadas pelas colinas de Pyeongtaek. O conteúdo era banal — papel amassado, resíduos sem valor. Mas o significado era inequívoco: a Coreia do Norte havia cumprido sua ameaça de retaliar, enviando mais de 260 balões com lixo ao Sul em resposta à distribuição contínua de panfletos por organizações civis sul-coreanas contra o regime de Pyongyang.
Essa guerra travada nos céus não nasceu agora. Durante a Guerra da Coreia, entre 1950 e 1953, as forças da ONU e da Coreia do Sul lançaram 2,5 bilhões de panfletos sobre o Norte — material suficiente para cobrir toda a península mais de vinte vezes. O Norte e a União Soviética responderam com 300 milhões de folhetos próprios. Os textos prometiam rendição segura, liberdade, emprego e até moradia de luxo. Alguns soldados desertaram após lê-los. Estudantes sul-coreanos entregavam os panfletos recolhidos em escolas e delegacias em troca de canetas e cadernos.
Com o tempo, o equilíbrio econômico entre os dois países se inverteu, e o conteúdo da propaganda acompanhou a mudança. Nas Olimpíadas de Seul de 1988, panfletos sul-coreanos questionavam os norte-coreanos sobre a fome que enfrentavam. Acordos em 1991, 2000 e 2018 tentaram encerrar a prática — e por períodos, pareceu que havia funcionado.
Mas grupos civis sul-coreanos como o Fighters for a Free North Korea nunca pararam completamente. Enviavam não apenas panfletos, mas também macarrão instantâneo e notas de dólar amarrados a balões. Kim Yo-jong, irmã de Kim Jong-un, advertiu que a tolerância do governo sul-coreano com esses grupos colocaria em risco as relações entre os dois países. Os balões de lixo que caíram sobre Pyeongtaek são a resposta a esse aviso — e o sinal de que, seis anos após a Declaração de Panmunjom, a guerra de narrativas na península coreana está longe de terminar.
Na noite de terça-feira, 28 de maio, soldados sul-coreanos começaram a recolher centenas de sacolas plásticas espalhadas pelas colinas de Pyeongtaek. Dentro delas, lixo — papel amassado, resíduos diversos, nada de valor material. Mas o que importava não era o conteúdo, e sim o que aqueles balões representavam: um retorno a uma forma de guerra que ambas as Coreias praticam há mais de seis décadas, uma batalha travada não com armas, mas com palavras, imagens e agora, deliberadamente, com detritos.
Pelo menos 260 balões carregando esses sacos chegaram ao Sul naquela noite. As autoridades sul-coreanas emitiram alertas pedindo aos moradores que permanecessem em casa. A Coreia do Norte havia avisado dias antes que retaliaria — e cumpriu a ameaça. O gatilho foi simples: organizações sul-coreanas continuavam distribuindo panfletos contra Pyongyang, e o regime respondeu com seu próprio gesto de desprezo.
Esta não é uma tática nova. Durante a Guerra da Coreia, que durou de 1950 a 1953, as forças das Nações Unidas lançaram panfletos sobre o Norte como arma psicológica. A Coreia do Norte revidou. Quando o armistício foi assinado em 27 de julho de 1953, o saldo era impressionante: 2,8 bilhões de folhetos haviam sido distribuídos entre os dois lados. Destes, 2,5 bilhões vieram do Sul e das forças da ONU, enquanto 300 milhões saíram do Norte e da União Soviética. A quantidade era tanta que poderia cobrir toda a Península Coreana mais de vinte vezes. Os panfletos eram coloridos — predominantemente vermelhos para chamar atenção — e continham mensagens encorajando a rendição, alguns até com certificados de garantia de segurança prometendo proteção aos que os recebessem.
Mas a guerra de propaganda não terminou em 1953. Continuou. Nos anos 1960 e 1970, os panfletos norte-coreanos enfatizavam o desenvolvimento de Pyongyang e promoviam as conquistas do presidente Kim Il-sung. Na década de 1970, quando as condições econômicas do Norte eram ainda consideradas melhores que as do Sul, os panfletos prometiam aos soldados sul-coreanos que desertassem direitos, liberdade, emprego, moradia de luxo e recompensas em dinheiro. Alguns realmente desertaram após ler essas promessas. Estudantes sul-coreanos catavam os panfletos e os entregavam em escolas ou delegacias de polícia em troca de recompensas — canetas, cadernos, materiais escolares. O governo chegou a publicar anúncios oferecendo prêmios para quem entregasse espiões ou recolhesse propaganda contra o Sul.
Quando a economia sul-coreana finalmente ultrapassou a do Norte, o script se inverteu. Durante as Olimpíadas de Seul em 1988, panfletos sul-coreanos perguntavam aos norte-coreanos: "Você não quer comer até ficar satisfeito?" Era a mesma arma, agora apontada na direção oposta. Em 1991, após o Acordo Básico Intercoreano, e novamente em 2000, ambos os lados suspenderam oficialmente a distribuição de panfletos. Em 2007, a polícia do Sul aboliu até os regulamentos que regiam a coleta desse material, encerrando as recompensas. Parecia que a prática havia morrido.
Mas a paz nunca foi completa. Quando as relações começaram a se deteriorar durante o governo do presidente Lee Myung-bak, a guerra psicológica ressurgiu. Organizações civis sul-coreanas assumiram a liderança, enviando não apenas panfletos, mas também itens ocidentais — macarrão instantâneo, notas de dólar — através de balões. Após o naufrágio do navio Cheonan em 2010, a distribuição aumentou significativamente. Em 2016, após o quarto teste nuclear norte-coreano, o governo sul-coreano retomou transmissões em alto-falantes na fronteira, incluindo notícias sobre violações de direitos humanos no Norte e músicas de ídolos coreanos. A Coreia do Norte respondeu com mais panfletos, criticando a política de Washington e a situação política do Sul.
Em abril de 2018, o presidente Moon Jae-in e o líder Kim Jong-un anunciaram a Declaração de Panmunjom, concordando em cessar todos os atos hostis, incluindo as transmissões e a distribuição de panfletos, a partir de 1º de maio. Mas grupos civis sul-coreanos como o Fighters for a Free North Korea continuaram. Kim Yo-jong, irmã de Kim Jong-un, alertou que se o governo não conseguisse impedir o que chamou de "grande espetáculo de lixo", as relações poderiam se deteriorar ainda mais. Seis anos depois, aqueles balões com detritos caindo sobre Pyeongtaek mostram que o aviso não foi ouvido — ou foi deliberadamente ignorado.
Citas Notables
Se o governo sul-coreano não conseguisse impedir o grande espetáculo de lixo, as relações intercoreanas poderiam se deteriorar ainda mais— Kim Yo-jong, irmã de Kim Jong-un