Guaxinim fêmea moldou recibo de papel em bola e ensinou irmã a replicar o comportamento durante observação de 64 horas em janeiro. Espécie criticamente ameaçada com menos de 200 indivíduos na natureza desenvolve comportamento cultural complexo, demonstrando capacidade cognitiva avançada.
Guaxinins-pigmeus aprendem a fazer brinquedos em Cozumel
Uma guaxinim pegou o objeto e refez-o corretamente para a irmã
Como é que uma pesquisadora consegue observar um comportamento tão específico? Parece coisa de sorte pura.
Nessie O'Neil estava lá especificamente estudando esses animais durante 64 horas divididas em períodos de oito horas. Ela conhece o comportamento deles bem o suficiente para notar quando algo é diferente—quando uma guaxinim vai para a lixeira de recicláveis em vez da de resíduos orgânicos.
Mas a questão é: quanto tempo ela passou observando antes de ver isso? O estudo documenta 14 tentativas de fazer bolas durante esse período de observação, mas não sabemos quantas horas totais ela passou com esses animais antes dessa descoberta.
É verdade. O que sabemos é que durante essas 64 horas específicas, ela viu o comportamento se desenrolar completamente—a fêmea original fazendo a bola, a irmã tentando e falhando, e então a primeira ensinando à segunda.
E a mãe que estava bêbada? Isso parece quase uma anedota. Será que é relevante cientificamente?
É relevante porque mostra que o comportamento não é instintivo. A mãe não conseguiu fazer a bola mesmo tentando. Se fosse algo inato, ela saberia fazer. O fato de ela fracassar enquanto as filhas aprendem mostra que é realmente aprendizado cultural.
Mas cuidado: os pesquisadores dizem que ela estava "aparentemente" bêbada. Não há confirmação de que era realmente intoxicação que a impediu. Poderia ser idade, falta de interesse, ou outra coisa qualquer.
Ponto justo. O que é inegável é que as duas filhas conseguiram e a mãe não. O resto é interpretação.
Menos de 200 indivíduos na natureza—isso significa que praticamente toda a população poderia aprender esse comportamento?
Teoricamente sim. Se o comportamento se espalhar entre esses poucos indivíduos, poderia se tornar parte da cultura daquela população. É por isso que Szydlowski acha que isso importa para conservação.
Mas também é importante notar que isso é especulação sobre o futuro. O que foi documentado é um evento específico com dois animais. Não sabemos se o comportamento vai se espalhar, se vai persistir, ou se é apenas um episódio isolado.
The Pulse
- Menos de 200 guaxinins-pigmeus restam na natureza, todos em Cozumel
- Fêmea moldou recibo de papel em bola e ensinou irmã durante 64 horas de observação em janeiro
- Primeira documentação de guaxinins fabricando e brincando com brinquedos
- Estudo publicado na revista Wild por pesquisadores da Universidade de Miami
Guaxinim fêmea moldou recibo de papel em bola e ensinou irmã a replicar o comportamento durante observação de 64 horas em janeiro. Espécie criticamente ameaçada com menos de 200 indivíduos na natureza desenvolve comportamento cultural complexo, demonstrando capacidade cognitiva avançada.
Pesquisadores documentam pela primeira vez guaxinins-pigmeus fabricando brinquedos de papel e ensinando o comportamento a outros animais na ilha mexicana de Cozumel, revelando cultura material na espécie criticamente ameaçada.
Em uma tarde quente de janeiro em Cozumel, enquanto turistas tomavam margaritas em um clube de praia próximo, uma pesquisadora observava algo que nenhum cientista havia documentado antes: um guaxinim fêmea jovem retirava um recibo de papel de uma lixeira, moldava-o em forma de bola e começava a passar o objeto de uma pata para outra como se fosse um brinquedo de verdade.
O que aconteceu depois foi ainda mais notável. O animal ensinou sua irmã a fazer exatamente a mesma coisa. Nessie O'Neil, bióloga especializada em guaxinins e autora principal do estudo, passou 64 horas observando os animais em períodos de oito horas cada um. Durante esse tempo, viu a fêmea original tentar fazer bolas 14 vezes. A irmã também tentou, mas no início pegava os materiais errados—papel-toalha ou guardanapo que se desintegravam na água. Quando finalmente conseguiu o papel correto, ainda assim fracassou. Foi então que a primeira guaxinim fez algo extraordinário: pegou uma das tentativas malsucedidas da irmã e dobrou-a corretamente para ela, ensinando pelo exemplo. Depois de observar, a irmã conseguiu criar seus próprios brinquedos.
A descoberta, publicada no mês passado na revista Wild por pesquisadores da Universidade de Miami, representa a primeira evidência documentada de guaxinins fabricando brinquedos e brincando com eles. Mais importante ainda, mostra transmissão cultural—comportamentos aprendidos de outros indivíduos, não herdados geneticamente. Embora outras espécies como chimpanzés e golfinhos tenham sido observados fazendo brinquedos, nunca antes havia sido registrado esse tipo de cultura material em guaxinins. Louis Lazure, biólogo especialista em guaxinins da Universidade Concordia que não participou da pesquisa, disse ter assistido a centenas de horas de imagens desses animais mas nunca visto nada parecido.
Os guaxinins-pigmeus são uma espécie criticamente ameaçada de extinção. Menos de 200 indivíduos permanecem na natureza, todos vivendo exclusivamente em Cozumel. São menores e têm pelagem mais clara que seus parentes continentais, adaptações aos verões quentes e úmidos do sudeste do México. Historicamente, alimentavam-se de caranguejos e caracóis nos manguezais e ecossistemas costeiros da ilha. Mas nos últimos anos, dependem cada vez mais do lixo descartado por turistas. O'Neil observa que há desnutrição generalizada entre esses animais por causa de uma dieta extremamente rica em salgadinhos de tortilla. Os guaxinins frequentemente pedem esses salgadinhos aos turistas ou os procuram nas lixeiras.
Em janeiro, O'Neil notou algo diferente. Uma das fêmeas jovens correu até as lixeiras, mas em vez de ir às lixeiras comuns de resíduos orgânicos onde a mãe havia ensinado os filhotes a procurar salgadinhos, ela foi até a de materiais recicláveis. Ali pegou o recibo, mergulhou-o na água, rolou-o na areia e transformou-o em um brinquedo. Depois colocou a bola no chão e começou a empurrá-la de um lado para o outro. Mais tarde, ela e a irmã usaram uma das bolas que haviam feito para brincar com um grupo de quatis jovens, mamíferos aparentados que também são endêmicos de Cozumel.
Houve um episódio particularmente revelador. A mãe das duas fêmeas também tentou fazer bolas, mas não conseguiu. Os pesquisadores observaram que ela estava aparentemente bêbada—havia bebido os restos de uma margarita abandonada e saiu cambaleando antes de desistir e ficar largada na areia quente. Michelle Szydlowski, bióloga da Universidade de Miami e coautora do estudo, chamou isso de "a parte realmente empolgante". "Como os guaxinins são muito táteis, vê-los manipulando objetos não foi uma surpresa tão grande. Mas ver uma tentando imitar a primeira, depois a primeira pegando o objeto e meio que refazendo-o, e então a mãe tentando também—é aí que a coisa fica realmente empolgante."
O comportamento revela capacidade cognitiva avançada em uma espécie que muitos consideravam simples. Szydlowski acredita que a descoberta pode ter implicações práticas para a conservação. "Sempre que conseguimos provar que existe uma sociedade aqui, que existe uma cultura aqui, temos mais chances, assim esperamos, de conseguir proteção para eles", disse. A evidência de traços culturais distintos e sociedade complexa entre os guaxinins-pigmeus oferece um argumento novo e poderoso para sua proteção em um momento em que a espécie enfrenta ameaças crescentes.
Notable Quotes
Já assisti a centenas de horas de imagens de guaxinins, mas nunca vi nada parecido— Louis Lazure, biólogo especialista em guaxinins da Universidade Concordia
Sempre que conseguimos provar que existe uma sociedade aqui, que existe uma cultura aqui, temos mais chances de conseguir proteção para eles— Michelle Szydlowski, bióloga da Universidade de Miami