Quando as fronteiras econômicas se fecham, o engenho humano busca novos caminhos. A marca brasileira de moda praia de luxo Adriana Degreas, fundada em 2001, vê-se diante de tarifas americanas de até 37,5% que ameaçam 45% de suas exportações — e responde não com resignação, mas com uma reconfiguração criativa de sua geografia produtiva, voltando-se à Colômbia como plataforma de reexportação e à Europa como destino alternativo. O que esta empresa vive é, em miniatura, o dilema de toda uma indústria que aprende a navegar num mundo onde as regras do comércio mudam mais rápido do que as fábricas.
Grife brasileira estuda produção na Colômbia para escapar de tarifas dos EUA
Triangulação via Colômbia para não perder o mercado de moda praia
Por que a Colômbia especificamente? Não seria mais simples manter tudo no Brasil?
A Colômbia já é um grande exportador de moda praia para os EUA. Tem acordos comerciais que a Brasil não tem agora. Terceirizar lá significa aproveitar uma infraestrutura que já existe, sem investir em fábrica nova.
Mas isso não significa que você está desistindo do Brasil?
Não é desistência. É adaptação. A confecção em São Paulo continua. O que muda é que parte da produção sai daqui porque as tarifas americanas tornaram inviável fazer tudo no Brasil e vender para lá.
E os fornecedores de tecido brasileiros que você deixou de usar?
Isso dói. A gente precisou migrar para fornecedores asiáticos quando as tarifas começaram. Não foi escolha, foi necessidade. Agora estamos tentando encontrar composições de matéria-prima que reduzam a tarifa na entrada nos EUA.
Você está basicamente redesenhando toda a operação.
Exatamente. Reduzir biquínis de 50% para 15% da produção, expandir resort wear, redirecionar para Europa, terceirizar na Colômbia. É um quebra-cabeça onde cada peça precisa se encaixar.
E a Ásia? Parece que você está abrindo mão de um mercado gigante.
O mercado asiático é enorme, mas exigiria criar uma operação completamente diferente. Modelagem diferente, estilo diferente. Não estou estruturada para isso agora. Talvez no futuro, mas não é prioridade quando estou lutando para manter os mercados que já tenho.
Isso é uma história sobre tarifas, mas também é sobre como uma empresa brasileira está sendo forçada a sair do Brasil.
É. E não é só a Adriana Degreas. Toda a indústria têxtil está sentindo isso. As tarifas americanas mudaram o jogo.
The Pulse
- Tarifas americanas de até 37,5% sobre produtos brasileiros colocaram em risco quase metade do faturamento de exportação da Adriana Degreas, criando uma urgência estratégica sem precedentes para a marca.
- A empresa reage com uma triangulação ousada: terceirizar produção em confecções colombianas já estabelecidas, usando a Colômbia como hub de reexportação para os EUA sem precisar construir nova infraestrutura.
- Dois advogados tributaristas foram contratados para mapear quais composições de tecido — linho, seda, lycra — permitem entrada nos EUA com alíquotas menores, enquanto o portfólio é rebalanceado para reduzir beachwear de 50% para apenas 15% da produção.
- Produtos que perdem espaço no mercado americano são redirecionados para a Europa, onde a marca já opera, enquanto o mercado asiático permanece promissor mas estruturalmente distante por diferenças de modelagem.
- O caso da Adriana Degreas emerge como termômetro da indústria têxtil brasileira, pressionada simultaneamente por tarifas externas e pela invasão de produtos asiáticos baratos no mercado doméstico.
Quando as fronteiras econômicas se fecham, o engenho humano busca novos caminhos. A marca brasileira de moda praia de luxo Adriana Degreas, fundada em 2001, vê-se diante de tarifas americanas de até 37,5% que ameaçam 45% de suas exportações — e responde não com resignação, mas com uma reconfiguração criativa de sua geografia produtiva, voltando-se à Colômbia como plataforma de reexportação e à Europa como destino alternativo. O que esta empresa vive é, em miniatura, o dilema de toda uma indústria que aprende a navegar num mundo onde as regras do comércio mudam mais rápido do que as fábricas.
Quando os Estados Unidos elevaram as tarifas sobre produtos brasileiros para até 37,5%, a Adriana Degreas — marca de moda praia de luxo com 25 anos de história — viu ameaçada quase metade de sua receita de exportação. O mercado americano representava 45% de tudo que a empresa enviava ao exterior, e a resposta da fundadora foi buscar um caminho lateral: terceirizar parte da produção na Colômbia, aproveitando o país como plataforma de reexportação para os EUA sem precisar investir em nova fábrica.
A estratégia é cirúrgica. Degreas negocia com confecções colombianas que já atendem marcas internacionais, inserindo-se como mais um cliente numa operação compartilhada. Paralelamente, contratou dois advogados tributaristas para identificar quais composições de matéria-prima — linho, seda, lycra — permitem entrada nos EUA com tarifas menores. O portfólio também está sendo reconfigurado: biquínis e maiôs, hoje metade da produção, devem cair para apenas 15%, cedendo espaço ao resort wear, que enfrenta alíquotas mais baixas.
O que não for absorvido pelos EUA será redirecionado para a Europa, onde a marca já possui presença estabelecida. O mercado asiático, embora vasto, permanece distante por barreiras estruturais de modelagem que exigiriam uma linha de negócio inteiramente separada. A empresa, que mantém 160 funcionários no Bom Retiro em São Paulo e opera em 25 países, já havia trocado fornecedores de tecido — deixando a indústria local e migrando para asiáticos — numa rodada anterior de tarifas que depois foram revertidas.
O caso reflete pressões mais amplas sobre o setor têxtil brasileiro, espremido entre tarifas externas e a concorrência de produtos asiáticos baratos no mercado interno. A chamada taxa das blusinhas, sancionada em 2024, foi zerada pelo governo Lula meses antes das eleições, deixando o setor sem proteção doméstica. O que a Adriana Degreas faz agora — triangulação produtiva, rebalanceamento de portfólio, diversificação geográfica — pode ser o mapa que outras marcas brasileiras precisarão seguir.
Quando os Estados Unidos elevaram as tarifas sobre produtos brasileiros, a Adriana Degreas — marca de moda praia de luxo fundada em 2001 — viu desaparecer quase metade de seu faturamento de exportação. O mercado americano absorvia 45% de tudo que a empresa enviava para o exterior, e agora enfrenta uma sobretaxa de até 37,5%. A solução que a fundadora e sócia Adriana Degreas estuda é contrariar a lógica convencional: em vez de expandir a produção no Brasil, ela quer terceirizar parte da fabricação na Colômbia, aproveitando o país como plataforma de reexportação para os Estados Unidos.
A estratégia não envolve construir uma nova fábrica. Degreas negocia com confecções colombianas que já atendem outras marcas internacionais, oferecendo-se como mais um cliente em uma operação compartilhada. É uma forma de contornar as tarifas sem investimento pesado em infraestrutura. A empresa, que mantém uma confecção no bairro do Bom Retiro em São Paulo com 160 funcionários e atua em 25 países, já havia começado a remanejar sua produção no ano anterior, quando os EUA aplicaram uma primeira rodada de tarifas que depois foram revertidas. Naquela ocasião, precisou trocar fornecedores de tecido, deixando de trabalhar com a indústria local de matéria-prima e migrando para fornecedores asiáticos.
Mas a triangulação colombiana é apenas uma peça do quebra-cabeça. Degreas contratou dois advogados tributaristas para mapear qual composição de matéria-prima — linho, lycra, seda — permite que os produtos entrem nos Estados Unidos com tarifa menor. A empresa também está rebalanceando seu portfólio de produtos. Atualmente, biquínis e maiôs respondem por metade da produção, enquanto resort wear (camisas, vestidos, saias) responde pela outra metade. Como as tarifas sobre moda praia são mais altas, a empresa planeja reduzir a produção de beachwear para apenas 15% do total, expandindo a linha de resort wear com diferentes bases de tecido que enfrentam alíquotas menores.
Os produtos que deixarem de ser exportados para os Estados Unidos serão redirecionados para a Europa, mercado onde a marca já possui operações estabelecidas. Essa diversificação geográfica é uma vantagem competitiva que nem todas as confecções brasileiras possuem. Ao mesmo tempo, Degreas reconhece que o mercado asiático representa um potencial consumidor imenso, mas apresenta barreiras estruturais. Os padrões de modelagem asiáticos diferem significativamente dos padrões americanos, europeus e brasileiros, e a empresa ainda não está estruturada para criar uma linha de negócio separada que atenda a essas especificidades.
A situação da Adriana Degreas reflete pressões mais amplas sobre a indústria têxtil brasileira. A invasão de produtos asiáticos de preço muito baixo tem sido uma reclamação constante do setor, levando o governo a sancionar a chamada taxa das blusinhas em 2024 — uma alíquota de 20% sobre importações em grandes plataformas de comércio eletrônico. A medida, porém, provou-se impopular e foi zerada pelo governo Lula em maio, poucos meses antes das eleições presidenciais. Enquanto isso, as tarifas americanas continuam pressionando marcas brasileiras a buscar alternativas de produção fora do país.
Durante a entrevista, Degreas também abordou questões trabalhistas. Ela se posicionou contra a proposta de eliminar a escala 6x1 — em que funcionários trabalham seis dias e folgam um — embora reconheça a legitimidade do debate. A Câmara dos Deputados aprovou em maio uma PEC que acaba com essa escala, medida que goza de cerca de 70% de apoio popular, mas enfrenta resistência de empresários que argumentam que aumentará custos e reduzirá competitividade. Degreas argumenta que a nova geração de trabalhadores precisa entender melhor a realidade do mercado, posicionando-se em um meio termo: nem trabalho 100% focado em produtividade extrema, nem flexibilidade total.
A marca compete internacionalmente com nomes como Zimmermann (Austrália), Johanna Ortiz (Colômbia) e Eres (França). Enquanto a empresa não divulga seu faturamento, está claro que a estratégia de triangulação produtiva, rebalanceamento de portfólio e diversificação geográfica representa uma aposta de sobrevivência em um ambiente de tarifas crescentes e concorrência global acirrada. O que acontece com a Adriana Degreas nos próximos meses pode servir como indicador de como outras marcas brasileiras de moda estão respondendo ao mesmo conjunto de pressões.
Notable Quotes
Estamos pensando, para não perder mercado beachwear, em fazer essa triangulação via Colômbia, que é um dos grandes exportadores— Adriana Degreas, fundadora e sócia da marca
Infelizmente, a gente teve que parar de trabalhar um pouco com a indústria local de matéria-prima e passar a trabalhar com a indústria asiática— Adriana Degreas