No oeste de Santa Catarina, uma pequena ave reescreve sua própria história: a codorna, por séculos reduzida ao papel coadjuvante de seus ovos miúdos, tornou-se protagonista de uma cadeia produtiva que atravessa oceanos. Em Coronel Freitas, uma granja abate até 16 mil aves por dia e envia metade delas ao Japão e aos Emirados Árabes, lembrando que o valor de um produto raramente está fixo — ele se expande quando alguém decide enxergá-lo de outro ângulo.
Granja em SC expande mercado de codorna além dos ovos, exportando metade da produção
Metade da produção abastece o Brasil, a outra metade segue para o exterior
Por que a codorna de corte é um negócio tão recente? Parece que há cinco anos ninguém fazia isso.
A linhagem europeia que usam agora foi desenvolvida especificamente para crescimento rápido e produção de carne. Antes disso, a codorna era principalmente para ovos. A propriedade viu uma oportunidade no mercado externo e investiu.
Mas como eles conseguem vender metade da produção para o exterior? Qual é a vantagem competitiva? É só preço?
Não é só preço. Os padrões de higiene são rigorosos — banho, troca de roupa, desinfecção de veículos. Eles conseguem 90% de viabilidade de ovos, o que é alto. E o produto é consistente.
E o mercado interno? Por que os brasileiros preferem codornas maiores?
Provavelmente é questão de costume e de como o produto é usado. Aqui, a carne aparece em pratos mais elaborados, como a codorna recheada. Lá fora, especialmente no Japão, preferem aves menores.
Mas ninguém explica por quê. É uma preferência cultural ou é uma questão prática de preparo?
A reportagem não diz. Só registra que o mercado externo prefere 100 e 150 gramas, e o Brasil quer 200 gramas.
E o preço é o mesmo nos dois mercados? R$ 50 por quilo?
Sim, a propriedade vende pela mesma média para ambos. Isso é interessante porque significa que a exportação não é mais lucrativa por preço, mas por volume.
Ou porque os custos de exportação já estão embutidos nesse preço. A gente não sabe a margem real.
Verdade. E essa especialidade de Marta Bianchin, a codorna recheada — é um prato comum na região?
Parece ser uma especialidade dela, não necessariamente comum. Mas mostra que a carne ganhou espaço no cardápio local, não é só um produto de exportação.
O Pulso
- A codorna de corte ainda é uma novidade no Brasil, e a granja de Coronel Freitas apostou nesse mercado há apenas cinco anos — tempo suficiente para construir uma operação que abate até 16 mil aves por dia.
- Metade da produção cruza fronteiras rumo ao Japão e aos Emirados Árabes, onde compradores exigem aves menores e mais delicadas, entre 100 e 150 gramas.
- Cada etapa da cadeia é controlada com rigor: funcionários tomam banho antes de entrar, veículos são desinfetados, e o ambiente dos barracões é monitorado para garantir 90% de viabilidade dos ovos.
- O mercado interno também cresce — restaurantes do Sul, do Nordeste e do Distrito Federal absorvem a outra metade da produção, enquanto cozinheiras como Marta Bianchin transformam a ave em pratos elaborados no fogão a lenha.
- O quilo é vendido a R$ 50 tanto para compradores nacionais quanto internacionais, sinalizando que qualidade e escala podem coexistir sem sacrificar o valor do produto.
No oeste de Santa Catarina, uma pequena ave reescreve sua própria história: a codorna, por séculos reduzida ao papel coadjuvante de seus ovos miúdos, tornou-se protagonista de uma cadeia produtiva que atravessa oceanos. Em Coronel Freitas, uma granja abate até 16 mil aves por dia e envia metade delas ao Japão e aos Emirados Árabes, lembrando que o valor de um produto raramente está fixo — ele se expande quando alguém decide enxergá-lo de outro ângulo.
A codorna sempre foi conhecida pelos ovos pequenos que aparecem em saladas e petiscos. Mas no oeste de Santa Catarina, essa ave ganhou um segundo mercado — e bem mais robusto. Em Coronel Freitas, uma propriedade abate entre 15 mil e 16 mil codornas por dia, e metade dessa produção segue para o Japão e os Emirados Árabes. A outra metade abastece restaurantes e cozinhas brasileiras que descobriram na carne de codorna um ingrediente versátil.
Em Arvoredo, a poucos quilômetros dali, Marta Bianchin prepara codorna recheada no fogão a lenha — uma receita que combina carne bovina, queijo ralado, milho, azeitona e farinha de rosca. O suco liberado durante o cozimento é recolhido, temperado com ervas e devolvido às aves para intensificar sabor e cor. O preparo leva cerca de duas horas e meia.
Antes de chegar a qualquer cozinha, a carne passa por uma cadeia de produção rigorosa. Funcionários tomam banho e trocam de roupa antes de entrar nas instalações; veículos são desinfetados. A operação com codornas de corte começou há cinco anos, e os ovos produzidos na propriedade são destinados exclusivamente à reprodução — não ao consumo humano.
No matrizeiro, machos e fêmeas convivem em gaiolas de 40 aves. Cerca de 3.500 ovos são recolhidos por dia, quatro vezes ao dia. O ambiente é mantido entre 20°C e 25°C, com iluminação de até 18 horas diárias, resultando em aproximadamente 90% de ovos viáveis.
As codornas são da linhagem europeia, selecionadas para crescimento rápido. A alimentação passa por quatro fases — da alta proteína inicial aos carboidratos da engorda — e a temperatura dos barracões cai gradualmente de 35°C no primeiro dia até 22°C. Na fase final, as luzes ficam acesas 24 horas para estimular o consumo de ração.
O abate segue um critério simples: o peso. Aves de 100 e 150 gramas vão para o exterior, onde o mercado prefere codornas menores. As de 200 gramas ficam no Brasil. O quilo é vendido a R$ 50 em ambos os mercados — um preço que reflete tanto a qualidade do produto quanto a sofisticação da cadeia que o sustenta.
A codorna sempre foi conhecida por seus ovos miúdos, aqueles que aparecem em saladas sofisticadas, em conservas caseiras, em petiscos de bar. Mas no oeste de Santa Catarina, essa pequena ave ganhou um segundo mercado — e um bem mais robusto. Em Coronel Freitas, uma propriedade abate entre 15 mil e 16 mil codornas todos os dias, e metade dessa produção segue para o exterior, principalmente para o Japão e os Emirados Árabes. A outra metade fica no Brasil, alimentando restaurantes e cozinhas domésticas que descobriram na carne de codorna um ingrediente versátil e de qualidade.
Em Arvoredo, a poucos quilômetros dali, Marta Bianchin prepara codorna recheada no fogão a lenha — uma especialidade que reúne carne bovina, queijo ralado, milho, azeitona e farinha de rosca. O recheio exige precisão: é preciso deixar espaço dentro da ave porque a mistura expande durante o cozimento. As codornas vão à panela com cuidado, e o próprio suco que liberam durante o preparo é recolhido, temperado com alho-poró, cebolinha, salsa, cebola e alho, depois devolvido às aves para ganhar sabor e cor. O cozimento leva cerca de duas horas e meia, dependendo da intensidade do fogo.
Antes de chegar à cozinha de Marta ou aos frigoríficos de exportação, a carne passa por uma cadeia de produção que começa com rigor absoluto. Na propriedade de Coronel Freitas, funcionários e visitantes tomam banho e trocam de roupa antes de entrar nas instalações. Os veículos são desinfetados. Esses protocolos não são teatro — eles sustentam a viabilidade de uma operação que começou a trabalhar com codornas de corte há cinco anos. A propriedade não usa os ovos para alimentação humana. Os ovos são destinados inteiramente à reprodução das aves que serão abatidas.
No setor de reprodução, chamado matrizeiro, machos e fêmeas convivem em gaiolas que abrigam 40 aves cada — 31 fêmeas e nove machos. Em um único barracão, a equipe recolhe cerca de 3.500 ovos por dia, quatro vezes ao dia, com cuidado para evitar rachaduras e acomodar cada um corretamente nas bandejas. Para manter a produtividade, o ambiente é mantido entre 20°C e 25°C, com iluminação de 16 a 18 horas diárias. As aves têm água à vontade e ração específica para postura disponível o tempo todo. Esses cuidados resultam em aproximadamente 90% de ovos viáveis — um índice que sustenta a escala da operação.
As codornas criadas são da linhagem europeia, selecionadas por crescimento rápido e aptidão para produção de carne. Nos primeiros dias de vida, recebem ração com alta concentração de proteína — milho, farelo de soja, cálcio e minerais. A alimentação é dividida em quatro fases: pré-inicial, inicial, crescimento e final. Os ingredientes permanecem os mesmos, mas as proporções mudam conforme as aves se desenvolvem. Com o tempo, a proteína diminui e os carboidratos ganham espaço. A temperatura também acompanha o crescimento: no primeiro dia, o ambiente fica em torno de 35°C; conforme a plumagem se desenvolve, a temperatura cai gradualmente até 22°C. Na fase de engorda, as luzes ficam acesas 24 horas por dia — a estratégia estimula o consumo de água e ração até as aves atingirem o peso desejado.
O critério de abate é simples: o peso. A propriedade comercializa codornas inteiras em três categorias — 100, 150 e 200 gramas. As menores, de 100 e 150 gramas, vão para o mercado externo, onde compradores preferem aves mais delicadas. As de 200 gramas ficam no Brasil, onde os clientes buscam maior volume de carne. O frigorífico abate entre 15 mil e 16 mil codornas diariamente. Metade da produção abastece o mercado interno, com destaque para compradores da Região Sul, de parte do Nordeste e do Distrito Federal. A outra metade é exportada. O quilo é vendido pela propriedade por uma média de R$ 50, tanto para o mercado interno quanto para o externo — um preço que reflete tanto a qualidade do produto quanto a sofisticação da cadeia que o produz.
Citações Notáveis
A propriedade começou a trabalhar com codornas de corte há cinco anos— Equipe da propriedade de Coronel Freitas