Cientistas estimam que maior parte da água da Terra já foi urina

191 milhões de anos é tempo suficiente para toda a água circular
Cálculo de Donahue mostra quanto tempo levaria para toda a água terrestre passar uma vez pelos corpos de animais.

Ao longo de centenas de milhões de anos, a água que sustenta a vida na Terra tem percorrido um ciclo tão vasto e tão antigo que dois pesquisadores ousaram calcular o impensável: a maior parte do que bebemos provavelmente já foi urina de dinossauros, peixes e ancestrais remotos. A pergunta, aparentemente absurda, revela a profundidade do tempo geológico e a intimidade silenciosa que compartilhamos com todas as criaturas que nos precederam. Ainda assim, nas entranhas geladas e vulcânicas do planeta, persistem reservas de água que nunca tocaram um ser vivo — testemunhas virgens de um mundo ainda por descobrir.

  • A pergunta era simples e perturbadora: quanto da água que bebemos já passou pelos rins de um dinossauro?
  • Com hipóteses admitidamente grosseiras, os pesquisadores calcularam que os cordados produzem 0,02 gigatoneladas de urina por dia — o equivalente a oito mil piscinas olímpicas.
  • O ciclo completo levaria cerca de 191 milhões de anos, tempo muito menor do que os 500 milhões de anos em que vertebrados habitam a Terra.
  • A conclusão inquietante: praticamente toda a água do planeta já circulou por corpos de animais em algum momento da história.
  • Mas geleiras, aquíferos profundos e a chamada água juvenil guardam reservas que podem nunca ter tido contato biológico — chegando à superfície pela primeira vez durante erupções vulcânicas.

Há milhões de anos, a água que você bebe hoje já percorreu oceanos, nuvens, plantas e animais. Dois pesquisadores — Neil Donahue, da Universidade Carnegie Mellon, e David Kreamer, da Universidade de Nevada — decidiram fazer uma pergunta perturbadora: quanto dessa água já foi urina?

Donahue partiu de uma hipótese simples: uma pessoa de 50 quilos produz cerca de um litro de urina por dia, o equivalente a 1% do peso corporal. Assumindo, de forma admitidamente aproximada, que todos os animais urinam na mesma proporção, ele estimou que os cordados — mamíferos, aves, répteis, anfíbios e peixes — produzem coletivamente 0,02 gigatoneladas de urina diariamente, o mesmo que oito mil piscinas olímpicas.

Dividindo o volume total de água do planeta, cerca de 1,4 bilhão de gigatoneladas, por essa produção diária, chega-se a um número impressionante: seriam necessários aproximadamente 191 milhões de anos para que toda a água terrestre passasse uma vez pelos corpos dos animais. Como os cordados existem há pelo menos 500 milhões de anos, o tempo foi mais do que suficiente para que praticamente toda a água do planeta já tenha sido urina em algum momento.

Kreamer concorda com a lógica geral, mas faz uma ressalva importante: nem toda a água circulou. Parte dela permanece presa por milênios em geleiras, aquíferos profundos e na chamada água juvenil — reservas aprisionadas nas entranhas da Terra que nunca chegaram a rios, mares ou à atmosfera. Essa água pode emergir pela primeira vez durante erupções vulcânicas, liberada junto com vapor e cinzas. Em um planeta tão antigo e tão percorrido, ainda existem reservas virgens esperando seu primeiro encontro com a vida.

Há milhões de anos, a água que você bebe hoje circula pelo planeta — passando por oceanos, rios, nuvens, plantas, animais e seres humanos. Dois pesquisadores decidiram fazer uma pergunta simples e perturbadora: quanto dessa água já foi urina?

Neil Donahue, da Universidade Carnegie Mellon, e David Kreamer, da Universidade de Nevada, começaram a pensar no ciclo da água de forma diferente. Donahue se perguntou se a água que bebemos poderia ter passado pelos corpos de dinossauros e outros animais pré-históricos. A resposta que ele chegou foi provavelmente sim — e os números que ele calculou explicam por quê.

Para fazer essa conta, Donahue usou estimativas aproximadas baseadas em algumas hipóteses. Considerou que uma pessoa com cerca de 50 quilos produz aproximadamente um litro de urina por dia, o que equivale a um quilo. Depois fez o que chamou de uma "suposição absurda": assumir que todos os animais urinam na mesma proporção, cerca de 1% do próprio peso corporal. O próprio cientista admite que esse cálculo não é exato, mas diz que ajuda a ter uma ideia geral de quanta água passa pelos seres vivos ao longo do tempo.

Seguindo essa lógica hipotética, Donahue calculou que os cordados — o grupo que inclui mamíferos, aves, répteis, anfíbios e peixes — produzem cerca de 0,02 gigatoneladas de urina por dia. Para colocar isso em perspectiva, é o equivalente a oito mil piscinas olímpicas. Dividindo o peso de toda a água do mundo, aproximadamente 1,4 bilhão de gigatoneladas segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos, pelas 0,02 gigatoneladas de urina que os animais produzem diariamente, chegamos a um número impressionante: levaria cerca de 70 bilhões de dias, ou 191 milhões de anos, para que toda a água da Terra passasse uma vez pelos corpos dos animais. Considerando que os cordados existem há pelo menos 500 milhões de anos, isso é tempo mais do que suficiente para que praticamente toda a água do planeta tenha sido urina em algum momento.

Mas nem toda a água da Terra teve essa experiência. David Kreamer concorda que, dado o tempo extraordinariamente longo, é bem possível que grande parte da água do planeta já tenha passado pela urina dos animais. Mesmo assim, ele ressalva que não dá para afirmar com certeza que toda a água passou por isso. Parte da água fica em lugares de difícil acesso, guardada por milhares de anos em geleiras, aquíferos profundos e na chamada água juvenil — aquela que fica presa em grandes profundidades dentro da Terra e nunca chegou a circular pelos rios, mares ou pela atmosfera.

Essa água mais escondida pode subir até a superfície em áreas com atividade vulcânica. Quando a lava sai do interior da Terra durante uma erupção, parte dessa água é liberada junto com vapor, cinzas e pedaços de rocha. Por isso, Kreamer afirma que ainda existem lugares no mundo onde a água está chegando à superfície pela primeira vez na história do planeta — água que, literalmente, ainda "não foi urinada". É um lembrete de que mesmo em um planeta tão antigo e tão circulado, ainda existem reservas virgens esperando seu primeiro encontro com a vida.

A maior parte de toda a água do planeta Terra provavelmente já passou pelo corpo de algum animal na forma de urina em algum momento da história
— Neil Donahue, Universidade Carnegie Mellon
Ainda existem lugares no mundo onde a água está chegando à superfície pela primeira vez na história da Terra
— David Kreamer, Universidade de Nevada
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Como é que dois cientistas chegam a uma pergunta assim?

Model

Donahue estava pensando no ciclo da água — como ela se move pelo planeta há milhões de anos. E aí a curiosidade bateu: se a água circula há tanto tempo, ela já passou por dinossauros? Por tudo que viveu aqui?

Inventor

E aí ele fez as contas.

Model

Fez. Mas admitiu que as contas são meio absurdas. Ele assumiu que todos os animais urinam a mesma proporção do peso corporal, o que claramente não é verdade. Um elefante não urina como um passarinho.

Inventor

Então os números não são confiáveis?

Model

São úteis para ter uma ordem de grandeza. O ponto não é chegar a um número exato, é entender que 191 milhões de anos é tempo suficiente para muita coisa circular.

Inventor

E Kreamer discorda?

Model

Não exatamente. Ele concorda que provavelmente a maioria da água já foi urina. Mas ele conhece lugares onde a água nunca circulou — geleiras, aquíferos profundos, água juvenil presa a quilômetros de profundidade.

Inventor

Água juvenil?

Model

É água que nunca saiu das profundezas da Terra. Só sobe à superfície quando há atividade vulcânica. Então em alguns lugares do planeta, a água está chegando à superfície pela primeira vez agora.

Inventor

Então nem toda água foi urina.

Model

Exato. Nem toda. Mas a maioria provavelmente foi.

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