Em Gramado, onde a montanha serve de palco para o que o Brasil imagina de si mesmo, o cinema nacional encerrou mais uma edição coroando histórias de pertencimento forjado à margem — famílias que inventam linguagens próprias, jovens que encontram comunidade ao custo de si mesmos, silêncios que pesam mais do que palavras. A vitória de 'Nosso Segredo', estreia de Grace Passô na direção, não foi apenas um prêmio: foi um espelho oferecido a um país que, a pouco mais de um mês das eleições, ainda debate quem cabe dentro de casa.
Gramado coroa 'Nosso Segredo' e reflete sobre divisão e pertencimento
O silêncio dos habitantes alimenta algo que parece sobrenatural
Por que esses três filmes — "Feito Pipa", "Nosso Segredo" e "Justino" — capturaram tanto a atenção do festival?
Porque todos eles lidam com pessoas que precisam encontrar um lugar para existir em ambientes que não as acolhem naturalmente. Um menino que dança em uma comunidade que espera que ele jogue futebol. Uma família que vive um luto silencioso. Um jovem que encontra fé mas perde a si mesmo.
E isso importa agora, em particular?
Importa porque estamos a um mês de eleições presidenciais. O país está pensando sobre divisão, sobre quem pertence e quem não pertence. Esses filmes falam exatamente disso, mas através da intimidade das casas, não de palanques.
"Nosso Segredo" venceu com fotografia e direção de arte. O que isso diz sobre o filme?
Que a forma como você vê e sente o espaço é tão importante quanto a história. A câmera e o design visual carregam o peso daquele silêncio proibido. Não é um filme que grita; é um que sussurra.
E "Justino"? Por que um filme sobre a Igreja Universal venceu prêmios de montagem e atuação?
Porque Christian Malheiros consegue fazer você entender Justino sem julgá-lo. Ele não é herói nem vilão. A montagem ajuda a contar essa história complexa sem simplificar. É cinema que respeita a ambiguidade das pessoas reais.
Os festivais estão em risco financeiro. Como isso muda o que vemos premiado?
Quando um festival quase desaparece, o que sobrevive ganha peso diferente. Esses filmes não são escapismo; são documentos do que estamos vivendo agora. Premiá-los é dizer: isso importa, isso precisa existir.
Il Polso
- O Festival de Gramado encerrou sob tensão simbólica: os filmes mais celebrados falam de exclusão e convivência improvável num momento em que o Brasil se prepara para escolher seu próximo presidente.
- 'Nosso Segredo' dominou a noite com três Kikitos — melhor ficção, fotografia e direção de arte —, consagrando Grace Passô como nova voz do cinema nacional.
- 'Feito Pipa' emocionou o público com a história de um menino rejeitado pelo pai por gostar de dançar e se maquiar, vencendo o júri popular e entregando a Teca Pereira o prêmio de melhor atriz.
- A sombra do Festival de Brasília, quase cancelado por falta de verba, pairou sobre os discursos da noite, transformando cada troféu em um argumento pela sobrevivência do audiovisual brasileiro.
- A morte das atrizes Laura Cardoso e Glória Menezes durante o festival converteu a cerimônia de encerramento em um pacto coletivo com a memória e a continuidade do cinema nacional.
Em Gramado, onde a montanha serve de palco para o que o Brasil imagina de si mesmo, o cinema nacional encerrou mais uma edição coroando histórias de pertencimento forjado à margem — famílias que inventam linguagens próprias, jovens que encontram comunidade ao custo de si mesmos, silêncios que pesam mais do que palavras. A vitória de 'Nosso Segredo', estreia de Grace Passô na direção, não foi apenas um prêmio: foi um espelho oferecido a um país que, a pouco mais de um mês das eleições, ainda debate quem cabe dentro de casa.
O Festival de Gramado encerrou na noite de sábado com a consagração de 'Nosso Segredo', primeiro longa-metragem da atriz e dramaturga Grace Passô. O filme levou o Kikito de melhor ficção, além dos prêmios de fotografia e direção de arte, e mergulha no cotidiano de uma família que convive sob o mesmo teto após a morte do pai — o único branco da casa. Um silêncio proibido permeia os cômodos, transformando a ausência de fala em presença quase sobrenatural.
Três filmes dominaram as conversas da edição. 'Feito Pipa', de Allan Deberton — que levou o prêmio de melhor direção —, conta a história de Gugu, um menino do interior do Ceará criado pela avó após ser rejeitado pelo pai por gostar de dançar e se maquiar. A cumplicidade entre os dois transforma a ausência em intimidade. Teca Pereira venceu como melhor atriz e Lázaro Ramos como melhor ator coadjuvante. Já 'Justino - Nos Bastidores do Reino', de José Belmonte, acompanha um jovem pobre do Rio que encontra comunidade numa igreja neopentecostal ao preço de reprimir sua sexualidade. Christian Malheiros dividiu o prêmio de melhor ator com José Loreto, premiado pela cinebiografia do líder do Charlie Brown Jr.
Outros filmes abordaram a violência contra mulheres: 'Leite em Pó' venceu o júri da crítica e levou os troféus de roteiro e desenho de som. 'Gonzaguinha, da Maior Liberdade' foi eleito melhor documentário. Na cerimônia, Selton Mello e Maria Fernanda Cândido receberam o Kikito de Cristal, honraria máxima do festival.
Os discursos da noite carregaram urgência: o Festival de Brasília quase foi cancelado por falta de financiamento, e a lembrança pairou sobre cada fala. A emoção se aprofundou com as mortes das atrizes Laura Cardoso e Glória Menezes durante o festival — ambas premiadas em Gramado em outras épocas. As homenagens transformaram o luto em compromisso coletivo com o legado do cinema e da teledramaturgia brasileira.
O Festival de Gramado encerrou na noite de sábado (22) com a consagração de "Nosso Segredo", o primeiro longa-metragem da atriz e dramaturga Grace Passô, que conquistou o Kikito de melhor ficção além dos prêmios de fotografia e direção de arte. A vitória marca um momento em que o festival refletiu, através de seus filmes mais celebrados, sobre as fraturas e os laços que mantêm as pessoas unidas em ambientes frequentemente hostis — uma coincidência notável a pouco mais de um mês das eleições presidenciais.
Três filmes em particular capturaram a atenção do festival e de suas rodas de conversa: "Nosso Segredo", "Feito Pipa" e "Justino - Nos Bastidores do Reino". Cada um deles, à sua maneira, examina como as pessoas encontram pertencimento e convivência onde menos se espera. "Feito Pipa", que venceu o prêmio do júri popular e rendeu a Teca Pereira o troféu de melhor atriz, conta a história de Gugu, um menino que vive no interior do Ceará com a avó após ser rejeitado pelo pai, Batista, que não aceita o filho por gostar de dançar e se maquiar. A avó e o neto criam seus próprios códigos para se entenderem, transformando a ausência em intimidade. O filme também levou o prêmio de melhor direção para Allan Deberton e melhor ator coadjuvante para Lázaro Ramos.
"Nosso Segredo" mergulha no cotidiano de uma família que vive sob o mesmo teto: mãe, tia e quatro filhos, sendo o pai a única pessoa branca da casa, recentemente falecido. A convivência persiste apesar do luto, mas uma tensão estranha permeia o ambiente, como se houvesse um assunto proibido que contamina o espaço. O silêncio dos habitantes alimenta algo que parece sobrenatural, transformando a ausência de fala em presença quase palpável.
"Justino - Nos Bastidores do Reino", dirigido por José Belmonte e baseado no livro sobre a Igreja Universal do Reino de Deus, aborda de forma intimista um tema político contemporâneo. O filme acompanha Justino, vivido por Christian Malheiros, um garoto pobre do Rio de Janeiro que encontra na igreja neopentecostal uma comunidade e uma vocação, mas ao preço de reprimir sua própria sexualidade. Malheiros dividiu o prêmio de melhor ator com José Loreto, que venceu pela cinebiografia "Chorão - Só os Loucos Sabem", que explora a personalidade conturbada do líder do Charlie Brown Jr. e sua relação complicada com a esposa Graziela Gonçalves. O filme de Belmonte também conquistou o prêmio de melhor montagem.
Outros filmes exibidos em Gramado abordaram a violência física e sexual contra mulheres — tema igualmente urgente diante do aumento de feminicídios e denúncias de agressão. "Leite em Pó" venceu o prêmio do júri da crítica e conquistou os troféus de melhor roteiro e melhor desenho de som. "Gonzaguinha, da Maior Liberdade", de Susanna Lira, foi eleito melhor documentário. Naruna Costa levou o prêmio de melhor atriz coadjuvante por "Pele de Rinoceronte".
Na cerimônia de encerramento, Selton Mello e Maria Fernanda Cândido receberam o Kikito de Cristal, honraria concedida a nomes de destaque do cinema nacional. Ambos estiveram em produções que impulsionaram a visibilidade do cinema brasileiro no exterior — "Ainda Estou Aqui" em Veneza e "O Agente Secreto" em Cannes, além da corrida pelo Oscar nos Estados Unidos.
Os discursos da noite enfatizaram a importância dos festivais para a saúde do audiovisual brasileiro, tema especialmente sensível após o Festival de Brasília, irmão mais velho de Gramado, quase ser cancelado por falta de financiamento. A emoção tomou conta da cerimônia quando, durante o festival, morreram as atrizes Laura Cardoso e Glória Menezes, ambas coroadas em Gramado em edições anteriores. As homenagens transformaram a tristeza em um compromisso coletivo com a continuidade do legado das damas da teledramaturgia.
Citazioni salienti
Justino não é herói, mas também não é vilão. A fé o leva a encontrar uma comunidade e uma vocação.— Descrição do personagem em "Justino - Nos Bastidores do Reino"