Grace Passô estreia na direção com 'Nosso Segredo', premiado em Gramado

A presença negra é o que nos interessa agora
Grace Passô distingue presença de representatividade ao falar sobre narrativas negras no cinema.
Mark

Por que é tão significativo que Grace Passô tenha dirigido o único filme de mulher na mostra competitiva principal de Gramado?

Mimi

Porque Gramado é um dos principais festivais de cinema brasileiro, e essa ausência de mulheres na competição principal diz algo sobre quem ainda tem acesso a recursos e legitimidade para fazer longas-metragens. Grace quebrou isso.

Luke

Mas é importante notar que estamos falando de um festival específico em um ano específico. Não sabemos se isso reflete uma tendência mais ampla ou se é uma anomalia daquele festival naquele momento.

Mark

E quanto ao filme em si — o que o torna diferente?

Mimi

Ele recusa explicar tudo. Usa silêncios, metáforas, realismo fantástico. Uma TV ligada sem estar na tomada. Conversas através de um cano. Essas imagens estranhas carregam significado sobre raça e luto.

Luke

A fonte diz que recebeu elogios por isso, mas não temos críticas específicas ou análises detalhadas do filme. Sabemos que foi premiado, mas não temos a voz de críticos independentes.

Mark

Grace menciona que "a presença negra é o que nos interessa agora, mais do que a representatividade". Qual é a diferença?

Mimi

Representatividade é estar visível, estar na tela. Presença é ter agência, ter a história contada do seu ponto de vista, estruturar o próprio cinema a partir de quem você é.

Luke

Isso é uma distinção que Grace está fazendo, e é importante, mas é também uma posição teórica. Nem todos no cinema concordariam com essa hierarquia entre os dois conceitos.

Mark

O filme é baseado em uma peça que Grace escreveu há vinte anos. Por que esperar tanto tempo para adaptá-lo?

Mimi

Talvez porque ela precisava primeiro consolidar sua carreira como atriz, ganhar credibilidade, ter acesso a recursos para dirigir. Ou talvez porque o momento político e cultural do Brasil mudou, e agora era o momento certo para contar essa história.

Luke

A fonte não explica isso. Sabemos que a peça existe há duas décadas e que o roteiro foi reescrito para refinar debates raciais contemporâneos, mas não sabemos por que agora, especificamente.

  • Grace Passô, já consagrada como atriz e primeira dramaturga negra a vencer o prêmio Shell de teatro, dá um salto decisivo ao assumir a cadeira de diretora pela primeira vez em um longa-metragem.
  • Em Gramado, 'Nosso Segredo' era o único filme dirigido por uma mulher na mostra competitiva principal — uma ausência que se tornou presença ao vencer o prêmio de melhor ficção com três Kikitos.
  • A narrativa fantástica — uma televisão ligada sem tomada, um menino que fala com estranhos através de um cano — tensiona a certeza do real para abrir espaço onde histórias negras possam ser contadas por quem as vive.
  • Passô articula uma distinção urgente: o Brasil já reconhece sua maioria negra e seu racismo estrutural, mas o cinema precisa ir além da representatividade para afirmar a presença negra como força criadora.
  • Com estreia nos cinemas na última quinta-feira, o filme consolida uma mudança de rota no audiovisual brasileiro e posiciona Passô como voz central dessa transformação.

Há momentos em que uma artista atravessa o limiar entre interpretar histórias alheias e criar as suas próprias — e é nesse cruzamento que Grace Passô se encontra com 'Nosso Segredo', seu primeiro longa-metragem como diretora. Premiado com três Kikitos em Gramado, o filme chega aos cinemas brasileiros carregando décadas de dramaturgia negra condensadas em realismo fantástico, propondo que a presença negra — e não apenas sua representação — é o que pode transformar estruturalmente o cinema nacional.

Grace Passô chegou aos cinemas com 'Nosso Segredo', seu primeiro longa como diretora — um drama fantástico construído sobre a peça teatral 'Amores Surdos', que ela mesma criou há duas décadas. Antes de chegar às telas, o filme já havia conquistado três Kikitos no Festival de Gramado, incluindo o de melhor ficção, sendo o único trabalho dirigido por uma mulher na mostra competitiva principal do evento.

Passô é figura singular no cenário cultural brasileiro: foi a primeira dramaturga negra a vencer o prêmio Shell de teatro e construiu uma carreira sólida como atriz em colaborações com Andrés Novais Oliveira, na Netflix e no Globoplay. Mas 'Nosso Segredo' representa uma virada — a passagem da interpretação para a criação plena.

A história acompanha uma família negra composta por mãe, tia e quatro filhos, cada um elaborando à sua maneira o luto pela morte do pai, um homem branco. O caçula Tutu guarda um segredo que só ele conhece, e é em torno desse mistério que o realismo fantástico se instala: uma televisão que funciona desligada, conversas travadas através de um cano. Para Passô, esses elementos servem para 'assustar uma certeza de realidade' e transportar o espectador a um espaço onde narrativas negras possam emergir de dentro.

'As pessoas negras foram, durante toda a história, contadas por quem não é negro', afirma a diretora. 'A necessidade de contar a própria história modifica estruturalmente o próprio cinema.' Ela distingue representatividade de presença — e é a segunda que, segundo ela, interessa agora. A coprodução Brasil-Portugal de 103 minutos permanece em cartaz nos cinemas do país.

Grace Passô chegou aos cinemas brasileiros na última quinta-feira com seu primeiro longa-metragem como diretora, "Nosso Segredo", um drama fantástico que já havia conquistado três Kikitos no Festival de Gramado deste ano, incluindo a estatueta de melhor filme de ficção. A estreia marca um novo capítulo na trajetória de uma atriz que já se consolidou como expoente do cinema e do teatro negro — e que, há duas décadas, havia criado a peça teatral "Amores Surdos", a base dramatúrgica sobre a qual o filme foi construído.

Passô é conhecida por feitos singulares. Foi a primeira dramaturga negra brasileira a vencer o prêmio Shell de teatro. Nos últimos anos, trabalhou em colaborações memoráveis com o diretor Andrés Novais Oliveira em "Temporada" (2018) e "O Dia que Te Conheci" (2023). Estrelou "O Filho de Mil Homens" ao lado de Rodrigo Santoro em produção da Netflix dirigida por Daniel Rezende, que adapta o livro de Valter Hugo Mãe e aborda grupos marginalizados sob um olhar poético e existencial. Mais recentemente, integrou o elenco da sexta temporada de "Sessão de Terapia" no Globoplay, interpretando Rosa, uma psicóloga que supervisiona o terapeuta vivido por Selton Mello.

Mas "Nosso Segredo" representa algo diferente. Na 54ª edição do Festival de Gramado, um dos principais eventos da cultura brasileira dedicados ao cinema nacional, o filme era o único dirigido por uma mulher listado na mostra competitiva principal — um detalhe que carrega peso. A sessão no festival colheu elogios pela recusa ao didatismo autoexplicativo e pela profundidade com que aborda questões raciais, dimensionadas através dos personagens, dos diálogos e da ambientação visual.

A história se desenrola dentro do lar de uma família negra composta por mãe, tia e quatro filhos. Cada um deles enfrenta o luto pela morte do pai, um homem branco, de forma distinta. No andar superior da casa, porém, existe um segredo que apenas Tutu, o caçula, conhece. O roteiro, conduzido por falas emblemáticas e silêncios expressivos, foi adaptado da peça teatral de Passô para a linguagem cinematográfica, refinando debates raciais contemporâneos no processo.

Para traduzir a negritude em metáforas visuais, Passô utilizou o realismo fantástico no set de filmagem. Uma televisão permanece ligada mesmo desconectada da tomada. O pequeno Tutu conversa com uma figura desconhecida através de um cano. Esses elementos surreais funcionam, segundo a diretora, para "assustar uma ideia, uma certeza de realidade das coisas". Quando algo irreal acontece na tela, busca catapultar o espectador para outro lugar — um espaço onde as narrativas negras podem ser contadas por quem as vive.

"As pessoas negras e suas narrativas foram, durante toda a história, contadas por pessoas que não são negras. Fomos objetos de estudo e de fetiche", afirma Passô. "A necessidade de contar a sua própria história modifica estruturalmente o próprio cinema." Ela observa que o Brasil chegou a um ponto em que parte da sociedade consegue reconhecer que o país é formado fundamentalmente de pessoas negras e, simultaneamente, assume que frequentemente é racista. "A presença negra é o que nos interessa agora, mais do que a representatividade", diz.

"Nosso Segredo" é uma coprodução Brasil-Portugal de 103 minutos, classificada para 14 anos. Além de Passô na direção, o elenco inclui Robert Frank, Efraim Santos e Jessica Gaspar. O filme permanece em cartaz nos cinemas do país.

As pessoas negras e suas narrativas foram, durante toda a história, contadas por pessoas que não são negras. Fomos objetos de estudo e de fetiche. A necessidade de contar a sua própria história modifica estruturalmente o próprio cinema.
— Grace Passô
A presença negra é o que nos interessa agora, mais do que a representatividade.
— Grace Passô
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