O Brasil enfrenta, mais uma vez, a distância entre a ambição dos planos e a lentidão das instituições: o governo federal reduziu de 14 para 10 os leilões de rodovias previstos para 2026, revelando que contratos estressados, agências sobrecarregadas e disputas regulatórias ainda pesam mais do que qualquer cronograma. A infraestrutura, como sempre, avança no ritmo dos acordos possíveis — não dos desejados.
Governo reduz leilões de rodovias em 2026 por dificuldades em repactuações
A agência enfrenta limitação de capacidade operacional
Por que o governo reduziu tanto os leilões? De 14 para 10 é uma queda significativa.
Não é simplesmente incompetência. O problema é que muitos desses contratos antigos fracassaram e precisam ser refeitos — as chamadas repactuações. Isso é muito mais complexo que leiloar uma rodovia nova, porque envolve renegociar com uma concessionária que já está operando, com o TCU fiscalizando, com questões ambientais pendentes.
E por que a ANTT está tão sobrecarregada?
Porque ela tenta fazer tudo ao mesmo tempo: otimizar contratos antigos, negociar novos projetos, monitorar concessões em andamento. E isso com orçamento reduzido por contingenciamentos. É como pedir a uma pessoa para trabalhar em três projetos simultaneamente com metade do tempo.
A Rota Litoral Sul é um exemplo disso?
Exatamente. Arteris administra desde 2008, o contrato duraria 25 anos, mas quando chegou a hora de renegociar, governo, agência e concessionária não conseguiram se entender sobre os termos. Ficaram meses travados.
Então o Senado blindando o orçamento da ANTT resolve o problema?
Ajuda, mas não resolve tudo. Garante que a agência não sofra mais cortes, o que é importante. Mas ainda há questões de licenciamento ambiental, de complexidade dos projetos, de estudos que precisam ser feitos com qualidade.
E esses dois leilões que ainda faltam em 2026 — a Rota do Pequi e a Rota Arco Norte — têm chance de sair?
A Rota Arco Norte está marcada para novembro. Mas ela depende da Ferrogrão, uma ferrovia que deveria ser construída em paralelo e que está parada há mais de dez anos por questões socioambientais. Então mesmo que o leilão aconteça, há incerteza sobre como a concessão vai funcionar na prática.
O setor está frustrado?
Não com a redução em si. O que o setor quer é garantia de que os leilões adiados realmente aconteçam nos próximos anos, e que o governo resolva entraves como o licenciamento ambiental. Preferem projetos sólidos e bem estudados a um cronograma agressivo que não se concretiza.
O Pulso
- A meta de 14 leilões de rodovias em 2026 encolheu para 10, com apenas três certames já realizados até agosto, expondo a fragilidade do planejamento diante da complexidade real dos projetos.
- A ANTT opera sobrecarregada — cortada de recursos em anos sucessivos — e tenta ao mesmo tempo renegociar contratos antigos, estruturar novos leilões e fiscalizar concessões em andamento.
- Projetos como a Transbrasiliana e a Rota Planalto Sul estão paralisados enquanto governo, agência reguladora e concessionárias não chegam a um entendimento sobre os termos, levando casos à câmara de negociação Compor.
- O Senado aprovou blindagem orçamentária para agências reguladoras, mas o projeto ainda precisa passar pela Câmara — e o setor aguarda garantias concretas de que os leilões adiados não serão simplesmente esquecidos.
O Brasil enfrenta, mais uma vez, a distância entre a ambição dos planos e a lentidão das instituições: o governo federal reduziu de 14 para 10 os leilões de rodovias previstos para 2026, revelando que contratos estressados, agências sobrecarregadas e disputas regulatórias ainda pesam mais do que qualquer cronograma. A infraestrutura, como sempre, avança no ritmo dos acordos possíveis — não dos desejados.
O governo federal abriu 2026 com a promessa de 14 leilões de rodovias, incluindo seis repactuações de contratos antigos que fracassaram. A meta foi encolhendo ao longo do ano — primeiro para 13, agora para 10 — e o Ministério dos Transportes admite que apenas cinco das dez serão repactuações. Três leilões já aconteceram: Rotas Gerais no Sudeste, Rota dos Sertões no Nordeste e um trecho da Régis Bittencourt entre São Paulo e Paraná.
O que trava o restante é uma combinação de fatores. A Transbrasiliana paulista e a Rota Planalto Sul, entre Paraná e Santa Catarina, estão paradas enquanto a ANTT avalia se conduzirá as negociações pela Compor, câmara criada com apoio da Procuradoria-Geral Federal e da AGU. Já a Rota Litoral Sul, administrada pela Arteris desde 2008, não avançou no início do ano porque governo, agência e concessionária não chegaram a um acordo — e agora o caso também vai para a Compor.
Especialistas apontam um gargalo estrutural: a ANTT está sobrecarregada por cortes orçamentários sucessivos e precisa fazer simultaneamente otimizações de contratos antigos, negociações de novos projetos e monitoramento de concessões em curso. O advogado Fernando Vernalha resume o problema como "limitação da capacidade operacional" da agência.
Ainda estão previstos para 2026 dois leilões relevantes: a Rota do Pequi, com 211,6 quilômetros em Goiás e no Distrito Federal, e a Rota Arco Norte, marcada para novembro, cobrindo 1.010 quilômetros da BR-163 entre Mato Grosso e Pará — corredor estratégico para o escoamento de soja e milho, com investimentos previstos de mais de R$ 15 bilhões.
O Senado aprovou em junho uma blindagem orçamentária para as agências reguladoras, impedindo contingenciamentos futuros, mas o texto ainda precisa passar pela Câmara. Para o setor, o problema não é a redução em si, mas a ausência de garantias de que os leilões adiados serão realizados nos próximos anos. Especialistas como Thiago Araújo, do Bocater Advogados, defendem que é preferível oferecer ao mercado projetos mais sólidos do que forçar um pipeline agressivo — e que a infraestrutura brasileira só avança quando todas as partes conseguem, de fato, chegar a um acordo.
O governo federal começou 2026 com planos ambiciosos para leiloar rodovias. Previa 14 certames ao longo do ano, dos quais seis seriam repactuações — aquele tipo de negócio complicado em que um contrato antigo fracassou e precisa ser refeito do zero. Mas os números encolheram. Em novembro, a meta caiu para 13. Agora, em agosto, o Ministério dos Transportes admite que fará apenas 10 leilões em 2026, sendo cinco deles repactuações. Três já aconteceram: o lote das Rotas Gerais na Região Sudeste, a Rota dos Sertões no Nordeste, e um trecho de 383 quilômetros da Régis Bittencourt entre São Paulo e Paraná.
O problema está em projetos que simplesmente não saem do papel. A Rodovia Transbrasiliana em São Paulo e a Rota Planalto Sul entre Paraná e Santa Catarina estão parados enquanto a ANTT — Agência Nacional de Transportes Terrestres — decide se vai processar as negociações por um novo caminho, através da Compor, uma câmara de negociação criada pela própria agência com apoio da Procuradoria-Geral Federal e da Advocacia-Geral da União. A ANTT negou publicamente estar estudando essa mudança, mas admitiu que as concessionárias estão fazendo ajustes nos documentos exigidos para submeter os projetos ao TCU, o Tribunal de Contas da União.
Outro nó é a Rota Litoral Sul, que corta Paraná e Santa Catarina e é administrada pela Arteris desde 2008 em um contrato que duraria 25 anos. No começo de 2026, o Ministério dos Transportes não conseguiu avançar com a repactuação porque governo, agência reguladora e concessionária não chegaram a um acordo sobre os termos. A ANTT disse na época que havia "dificuldades em se alcançar um entendimento que atendesse simultaneamente às premissas de política pública e às exigências regulatórias necessárias ao atendimento do interesse público". Agora o processo vai para a Compor, conforme protocolo assinado entre as três partes.
O ministério diz que os ajustes no cronograma são naturais e podem ocorrer por vários fatores. Mas especialistas apontam um gargalo real: a ANTT está sobrecarregada. Fernando Vernalha, advogado especialista em infraestrutura, afirma que o órgão regulador enfrenta "limitação da sua capacidade operacional, fruto dos cortes orçamentários, dos contingenciamentos que houve neste ano e nos anos anteriores". A agência tenta fazer simultaneamente otimizações de contratos antigos, negociar novos projetos e monitorar concessões em andamento — tudo com menos recursos.
Há dois leilões ainda previstos para 2026: a Rota do Pequi, que se estende por 211,6 quilômetros em Goiás e no Distrito Federal, com investimentos previstos de R$ 4,14 bilhões em obras e R$ 3,46 bilhões em operação; e a Rota Arco Norte, marcada para 12 de novembro, que abrange 1.010 quilômetros da BR-163 ligando Mato Grosso ao Pará e funciona como corredor de escoamento de soja e milho. O governo prevê R$ 10,42 bilhões em investimentos e R$ 4,72 bilhões em custos operacionais para esse último. A Rota Arco Norte foi estruturada para funcionar em conjunto com a Ferrogrão, uma ferrovia prevista para área paralela à rodovia, mas que não saiu do papel em mais de dez anos por causa de embates socioambientais sobre seu traçado.
O Senado Federal aprovou em junho um projeto que blinda o orçamento das agências reguladoras, impedindo contingenciamentos previstos pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Com isso, a ANTT não poderá ter seus recursos cortados — mas o projeto ainda precisa passar pela Câmara dos Deputados. Marco Aurélio Barcelos, presidente da Associação Brasileira das Concessionárias de Rodovias, diz que o setor não se frustra com a redução de leilões, mas exige garantias de que os certames adiados sejam realizados nos próximos anos. Ele também alerta para outro risco: o licenciamento ambiental não pode virar um gargalo que comprometa os cronogramas.
Para Thiago Araújo, sócio do Bocater Advogados, a redução não representa fracasso do governo Lula, mas reflexo da complexidade real da carteira de projetos. Segundo ele, talvez seja melhor não forçar um pipeline agressivo e esperar para oferecer ao mercado projetos mais sólidos, com estudos de melhor qualidade e já analisados pelo TCU. O que fica claro é que a infraestrutura rodoviária brasileira não avança só com números em um cronograma — avança quando governo, agência reguladora, concessionárias e órgãos de controle conseguem chegar a um acordo.
Citações Notáveis
A agência enfrenta circunstancialmente um problema de limitação da sua capacidade operacional, fruto dos cortes orçamentários, dos contingenciamentos que houve neste ano e nos anos anteriores— Fernando Vernalha, advogado especialista em infraestrutura
Talvez seja preferível não concretizar um pipeline tão agressivo a dar um passo atrás, esperar e somente dar ao mercado projetos mais sólidos— Thiago Araújo, sócio do Bocater Advogados