Plano de dez anos prevê R$ 3,3 bilhões em levantamentos geofísicos, com foco em regiões como Província Borborema, Arco Magmático de Goiás e Quadrilátero Ferrífero. Dados públicos gerados pelo SGB reduzem risco exploratório e atraem investimentos privados, funcionando como triagem inicial do território para empresas de mineração.
Governo lança plano de R$ 3,3 bi para mapear minerais críticos no Brasil
Dados públicos reduzem risco exploratório das empresas
Por que o governo está investindo R$ 3,3 bilhões em mapear o subsolo agora? Isso não deveria ser responsabilidade das mineradoras?
Porque os dados públicos reduzem o risco para todo mundo. Se uma empresa não sabe se há minerais em uma região, ela não investe. O governo produz essa informação básica — é como um mapa — e aí as empresas sabem onde procurar.
Mas espera. Apenas 28% do Brasil tem esse mapeamento ideal. Isso significa que 72% é desconhecido?
Não exatamente. Esses 72% incluem muitas bacias sedimentares e áreas que não têm interesse mineral no momento. Nas regiões que realmente importam para mineração, a cobertura já é de 52%.
E qual é a meta?
Elevar para 75% nos próximos quatro anos nas áreas de alto potencial. Isso custa R$ 1,26 bilhão.
Quem vai pagar o resto? O plano fala em R$ 3,3 bilhões totais, mas só tem R$ 1,26 bilhão identificado para os próximos quatro anos.
Aí entra a nova lei de minerais críticos. As empresas que exploram esses minerais têm que investir 0,3% a 0,5% da receita em pesquisa e desenvolvimento. Parte disso pode ir para mapeamento geológico.
Então o governo está criando um incentivo para as empresas financiarem a própria triagem?
Exatamente. É uma forma de compartilhar o custo e acelerar o conhecimento do subsolo.
Mas a lei ainda depende de regulamentação. Entrou em vigor em setembro, mas os instrumentos ainda não foram regulados. Então esse financiamento privado é uma possibilidade, não uma garantia.
Faz sentido. E essas regiões prioritárias — Borborema, Goiás, Alto Paranaíba — já têm histórico de mineração?
Sim. O plano começa pelas áreas que já dão sinais de potencial. É mais eficiente que mapear tudo de uma vez.
El Pulso
- Plano de dez anos com R$ 3,3 bilhões em levantamentos geofísicos
- Apenas 28% do Brasil possui mapeamento geológico na escala ideal
- Meta: elevar cobertura de 52% para 75% em regiões de alto potencial nos próximos quatro anos
- Foco em Província Borborema, Arco Magmático de Goiás, Alto Paranaíba e Quadrilátero Ferrífero
- Nova lei obriga empresas a investir 0,3% a 0,5% da receita em pesquisa e desenvolvimento
Plano de dez anos prevê R$ 3,3 bilhões em levantamentos geofísicos, com foco em regiões como Província Borborema, Arco Magmático de Goiás e Quadrilátero Ferrífero. Dados públicos gerados pelo SGB reduzem risco exploratório e atraem investimentos privados, funcionando como triagem inicial do território para empresas de mineração.
O governo federal apresentou um plano decenal de geofísica com investimento de R$ 3,3 bilhões para ampliar o conhecimento do subsolo brasileiro e orientar a busca por minerais estratégicos, priorizando regiões com maior potencial mineral.
O governo federal apresentou nesta segunda-feira um plano de dez anos que promete reescrever o que o Brasil sabe sobre seu próprio subsolo. O investimento estimado é de R$ 3,3 bilhões em levantamentos geofísicos, um esforço coordenado pelo Serviço Geológico do Brasil e pelo Ministério de Minas e Energia para identificar onde estão os minerais críticos e estratégicos que o mundo inteiro está procurando. A iniciativa nasceu de uma conversa entre o ministério e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando ficou evidente que apenas 28% do território brasileiro possui mapeamento geológico na escala considerada ideal para orientar pesquisas detalhadas.
O plano concentra esforços inicialmente em áreas que já dão sinais de potencial. A Província Borborema, o Arco Magmático de Goiás, o Alto Paranaíba e o Quadrilátero Ferrífero aparecem no topo da lista de prioridades. Mas a estratégia não é aleatória. Nas regiões classificadas como de alto potencial mineral, a cobertura geológica atual chega a cerca de 52%. O objetivo do Serviço Geológico é elevar esse percentual para 75% nos próximos quatro anos, com um investimento inicial de aproximadamente R$ 1,26 bilhão.
O trabalho será dividido em três frentes. No embasamento cristalino, onde estão algumas das principais áreas de interesse mineral do país, estão previstos 61 projetos com custo estimado em cerca de R$ 1,5 bilhão ao longo de dez anos, usando técnicas como magnetometria e gravimetria aerotransportadas. Províncias minerais específicas, onde já existe maior conhecimento geológico e histórico de mineração, receberão aproximadamente R$ 620 milhões em dez anos com técnicas mais detalhadas. As bacias sedimentares, com menor prioridade relativa no momento, terão 67 projetos e um custo de aproximadamente R$ 1,2 bilhão em dez anos, embora o Serviço Geológico já mantenha tratativas com a Petrobras e a Agência Nacional do Petróleo sobre possíveis parcerias.
Para o setor privado, esses levantamentos funcionam como uma primeira triagem do território. Os dados geológicos, geofísicos e geoquímicos produzidos pelo governo são públicos e ajudam as empresas a decidir onde vale a pena concentrar recursos em pesquisa mineral antes de avançar para etapas mais caras, como campanhas de sondagem. Quanto maior o conhecimento prévio de uma região, menor tende a ser a incerteza na busca por novas jazidas e maior a atratividade para novos investimentos. O próprio Serviço Geológico classifica esse conjunto como dado "pré-competitivo", produzido pelo Estado para reduzir o risco exploratório das empresas.
A geofísica funciona como uma das primeiras ferramentas para entender o que existe abaixo da superfície sem a necessidade de perfurar todo o território. Aeronaves equipadas com sensores percorrem grandes áreas e medem propriedades físicas das rochas, como variações do campo magnético, da gravidade e da radioatividade natural. Os dados permitem identificar anomalias — regiões cujo comportamento é diferente do entorno e que podem indicar estruturas geológicas ou sistemas associados à presença de determinados minerais. A geoquímica funciona de forma complementar, com amostras de solos, sedimentos e rochas sendo analisadas para identificar concentrações anormais de determinados elementos.
O plano será submetido a consulta pública, e empresas, associações e outras instituições poderão sugerir mudanças nas prioridades e indicar regiões consideradas relevantes para novos levantamentos. Francisco Valdir, diretor de Geologia e Recursos Minerais do Serviço Geológico, afirmou que a definição das áreas ainda poderá ser ajustada a partir das contribuições recebidas. Também existe espaço para participação de empresas privadas no financiamento e na definição de prioridades, e a ordem de execução pode mudar caso outras instituições ajudem a financiar os trabalhos.
Uma nova fonte de recursos pode ganhar força com a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, sancionada em setembro. A legislação obriga empresas que atuam na pesquisa, lavra, beneficiamento e transformação de minerais críticos e estratégicos a destinar anualmente parte da receita dessas atividades a pesquisa, desenvolvimento e inovação. Nos primeiros seis anos após a regulamentação, as companhias deverão aplicar pelo menos 0,3% da receita operacional bruta em projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação, além de outros 0,2% para o Fundo Garantidor da Atividade Mineral. Depois desse período, a obrigação destinada a pesquisa, desenvolvimento e inovação passa para 0,5%. A lei inclui entre os projetos que podem receber esses recursos o conhecimento geofísico, o mapeamento geológico e a pesquisa mineral, abrindo a possibilidade de parte do dinheiro obrigatório das empresas ser direcionada a iniciativas relacionadas ao levantamento do subsolo brasileiro. Metade dos recursos de pesquisa, desenvolvimento e inovação poderá ser aplicada pelas próprias companhias e a outra metade deverá ocorrer por meio de parcerias previstas na legislação. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, já afirmou que a previsão orçamentária para o Serviço Geológico em 2027 é de R$ 300 milhões, com objetivo de ampliar o conhecimento sobre o subsolo e o potencial mineral brasileiro.
Citas Notables
A definição das áreas ainda poderá ser ajustada a partir das contribuições recebidas durante a consulta pública— Francisco Valdir, diretor de Geologia e Recursos Minerais do Serviço Geológico do Brasil