Governo lança Desenrola MEI com descontos de até 70% em dívidas

Quando sai do sistema, o MEI fica desprotegido e não consegue acessar crédito
O ministro do Empreendedorismo explicou por que a inadimplência empurra microempreendedores de volta para a informalidade.

Em um momento em que milhões de pequenos empreendedores brasileiros acumulam dívidas que os empurram de volta à informalidade, o governo federal lançou o Desenrola MEI — um programa de renegociação com descontos de até 70% para microempreendedores inscritos na Dívida Ativa da União. A iniciativa, anunciada na véspera do defeso eleitoral, reflete uma tensão antiga entre a formalização do trabalho e a capacidade real de pagamento de quem empreende na base da economia. Ao mesmo tempo, um projeto de lei propõe ampliar o teto de faturamento do MEI pela primeira vez em quase uma década, sinalizando uma reconfiguração mais profunda desse universo produtivo.

  • Cerca de 3,5 milhões de microempreendedores acumulam dívidas com a União que os impedem de acessar crédito, benefícios sociais e programas governamentais.
  • A inadimplência funciona como uma armadilha: sem conseguir pagar, o MEI perde o CNPJ ativo e retorna à informalidade, agravando sua vulnerabilidade.
  • O Desenrola MEI oferece parcelas a partir de R$ 25 e prazos de até 12 anos, tentando tornar o pagamento viável para quem está no limite financeiro.
  • O governo projeta recuperar R$ 1,2 bilhão em créditos de baixíssima recuperabilidade, classificando o impacto fiscal como positivo — não negativo.
  • Paralelamente, um projeto de lei quer elevar o teto de faturamento do MEI de R$ 81 mil para R$ 140 mil até 2028, com custo fiscal estimado acima de R$ 2 bilhões e ligações políticas que o governo prefere não admitir.

Na sexta-feira, o governo federal lançou o Desenrola MEI, programa de renegociação de dívidas voltado a microempreendedores individuais com débitos inscritos na Dívida Ativa da União. A iniciativa pode beneficiar cerca de 3,5 milhões de CNPJs, oferecendo descontos de até 70%, parcelas mínimas de R$ 25 e prazos de quitação de até 12 anos para dívidas de até R$ 20 mil.

O ministro do Empreendedorismo, Paulo Pereira, explicou que a inadimplência vinha funcionando como mecanismo de exclusão: sem conseguir regularizar sua situação, o MEI perde acesso à previdência social, a linhas de crédito e a outros programas federais, sendo empurrado de volta à informalidade. A procuradora-geral da Fazenda Nacional, Anelize Almeida, garantiu que o programa não terá impacto fiscal negativo — pelo contrário, estima-se a recuperação de aproximadamente R$ 1,2 bilhão em créditos com baixíssimo potencial de retorno, o equivalente a cerca de 10% do estoque total de débitos de MEIs na Dívida Ativa.

O anúncio foi feito estrategicamente um dia antes do início do defeso eleitoral, período em que esse tipo de evento é proibido por lei — sinalizando atenção do governo Lula ao eleitorado de pequenos empresários em ano de eleições.

Em paralelo, o governo enviou à Câmara dos Deputados um projeto de lei que reajusta o teto de faturamento anual do MEI, congelado em cerca de R$ 81 mil desde 2018. A proposta prevê elevação para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028, além de ampliar de um para dois o número de funcionários permitidos. O custo fiscal deve superar R$ 2 bilhões. O presidente da Câmara, Hugo Motta, afirmou que a medida está vinculada à aprovação da PEC que extingue a escala 6x1 — conexão que o governo nega, mas que revela o entrelaçamento das negociações legislativas.

Outra mudança em estudo, relatada pelo deputado Jorge Goetten, é a redução do prazo de inadimplência que leva à suspensão do CNPJ — de 12 meses para cerca de 2 meses. A ideia é criar um incentivo ao pagamento regular, com a promessa de reativação imediata do cadastro assim que o débito seja quitado.

Na sexta-feira, o governo federal apresentou uma iniciativa voltada para microempreendedores que acumulam débitos com a União. O programa, chamado Desenrola MEI, oferece descontos de até 70% em dívidas inscritas na Dívida Ativa e pode alcançar aproximadamente 3,5 milhões de CNPJs segundo as projeções do governo Lula.

O alcance do programa é definido por um limite claro: microempreendedores com dívidas de até R$ 20 mil podem solicitar a renegociação. As parcelas mínimas começam em R$ 25, e os prazos para quitação se estendem por até 12 anos. O programa abrange débitos do imposto recolhido mensalmente através do DAS (Documento de Arrecadação do Simples Nacional), entre outras modalidades de inadimplência.

O ministro do Empreendedorismo, Paulo Pereira, presente no anúncio, explicou o diagnóstico que levou à criação do programa. Segundo ele, a inadimplência entre MEIs estava funcionando como um mecanismo de expulsão do sistema formal, empurrando empreendedores de volta para a informalidade. Quando um MEI sai do sistema, perde a proteção da malha de seguridade social e fica impedido de acessar outras linhas de crédito e programas do governo federal.

A procuradora-geral da Fazenda Nacional, Anelize Almeida, detalhou como o programa funcionará na prática. Os descontos serão calibrados de acordo com os diferentes tipos de dívidas e a capacidade de pagamento de cada empreendedor. Segundo ela, a iniciativa não terá impacto fiscal negativo. Pelo contrário: ela classificou o impacto como positivo, já que se trata de créditos com potencial muito baixo de recuperação. A procuradora estimou que o programa pode recuperar aproximadamente R$ 1,2 bilhão em dívidas, o que representa cerca de 10% do estoque total de débitos de MEIs inscritos na Dívida Ativa da União.

O anúncio foi feito estrategicamente um dia antes do início do defeso eleitoral, período em que eventos desse tipo ficam proibidos por lei. A gestão petista busca com essa medida sinalizar aos pequenos empresários em ano de eleições.

Paralelamente ao Desenrola MEI, o governo enviou à Câmara dos Deputados um projeto de lei que reajusta o teto de faturamento anual do MEI, congelado em aproximadamente R$ 81 mil desde 2018. Pela proposta, o limite subiria para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028. O texto também amplia de um para dois o número de funcionários que um MEI pode contratar. O custo fiscal dessas medidas deve ultrapassar R$ 2 bilhões.

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, afirmou que o projeto de ampliação do teto faz parte de uma negociação direta que ele comandou, vinculada à aprovação da PEC que acaba com a escala de trabalho 6x1. O governo nega essa conexão, mas a declaração de Motta sugere que as medidas estão entrelaçadas nas negociações legislativas.

O deputado Jorge Goetten, relator do projeto na Câmara, informou que um grupo de técnicos trabalha em outra mudança: reduzir o prazo de inadimplência que leva à suspensão do CNPJ do MEI. A ideia é encurtar esse período de 12 meses para aproximadamente 2 meses, funcionando como incentivo ao pagamento regular dos tributos. Segundo Goetten, assim que o MEI quite o imposto, seu CNPJ volta ao funcionamento normal. Ele enquadrou a medida como responsabilidade fiscal, pensando na previdência, e afirmou que ela busca beneficiar os MEIs que honram seus compromissos regularmente, que segundo ele são a maioria.

Ao sair do sistema, o MEI fica desprotegido da malha de seguridade social e o MEI negativado não consegue acessar outras linhas do governo federal
— Paulo Pereira, ministro do Empreendedorismo
Esse programa tem impacto fiscal positivo, porque estou falando de créditos com baixíssimo potencial de recuperabilidade
— Anelize Almeida, procuradora-geral da Fazenda Nacional
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que o governo decidiu agora oferecer descontos tão altos em dívidas de MEI? Isso não deveria ter sido feito antes?

Model

O diagnóstico é que a inadimplência estava funcionando como uma porta de saída do sistema formal. Quando um MEI fica negativado, ele perde acesso a crédito, proteção social, tudo. Muitos voltam para a informalidade. O governo está tentando recuperar essas pessoas antes que saiam completamente.

Inventor

Mas R$ 1,2 bilhão é muito dinheiro para o governo abrir mão. Como isso não é um prejuízo fiscal?

Model

A procuradora da Fazenda Nacional foi clara: esses créditos têm potencial muito baixo de recuperação mesmo. Se o MEI não pagou em anos, a chance de cobrar 100% é praticamente zero. Recuperar 10% é ganho, não perda.

Inventor

E quanto ao timing? Anunciar isso um dia antes do defeso eleitoral parece muito calculado.

Model

É. O governo está em ano de eleições e precisa sinalizar aos pequenos empresários. Mas o programa em si não é só marketing — a estrutura de renegociação é real, as parcelas de R$ 25 são acessíveis, os prazos de 12 anos são longos o suficiente para caber no orçamento de um microempreendedor.

Inventor

Qual é o risco aqui? O que pode dar errado?

Model

Se muitos MEIs não conseguirem manter os pagamentos mesmo com as parcelas pequenas, o programa não recupera nem aquele 1,2 bilhão. E há também a questão política: o projeto de ampliação do teto de faturamento está amarrado a negociações sobre a PEC 6x1, o que pode criar resistências inesperadas na Câmara.

Inventor

Os MEIs que já pagam em dia — como eles veem isso?

Model

Segundo o deputado Goetten, eles são a maioria e honram seus compromissos. O risco é que vejam a medida como recompensa para quem não pagou. Por isso a ideia de reduzir o prazo de suspensão do CNPJ para 2 meses — é uma forma de dizer que inadimplência tem consequência, mas há saída.

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