Governo do DF paga primeira parcela e garante realização do Festival de Cinema de Brasília

Equipe de organização do festival trabalhou sem receber salários desde março de 2026, enfrentando situação de incerteza financeira e risco de desemprego.
Passamos de frustração para alívio e dinâmica operacional
Diretor do festival reflete sobre a reversão da ameaça de cancelamento após pagamento da primeira parcela.
Mark

Por que um festival de cinema gerou tanta comoção quando quase foi cancelado? Não é só um evento cultural entre tantos outros?

Mimi

Porque este não é um evento qualquer. O Festival de Brasília existe desde 1965 — é mais antigo que a capital. Durante a ditadura, ele parou como ato de resistência. Mas desde então, nunca falhou. Nem na pandemia. Cancelá-lo agora seria quebrar uma corrente de 50 anos de continuidade democrática.

Mark

E por que o governo chegou a anunciar o cancelamento se depois recuou tão rapidamente?

Mimi

Porque não tinha dinheiro no caixa. Mas subestimou o peso simbólico do festival. Quando a notícia vazou, a reação foi tão negativa que a governadora precisou intervir pessoalmente. Foi um cálculo político que não deu certo.

Mark

A equipe trabalhou cinco meses sem receber. Como isso é possível em um órgão público?

Mimi

Não é órgão público — é uma organização que trabalha com recursos públicos. Quando o dinheiro não chega, a equipe fica pendurada. E neste caso, o patrocinador master, o Banco de Brasília, está em crise profunda. Então havia dois problemas: falta de orçamento e um patrocinador falindo.

Mark

Agora que pagaram a primeira parcela, o problema está resolvido?

Mimi

Parcialmente. Pagaram metade do que é necessário. A outra metade não tem data para chegar. Então a incerteza continua, só que agora com um compromisso formal sobre a mesa.

Mark

O que acontece se a segunda parcela não vier a tempo?

Mimi

O festival seria realizado de forma incompleta, ou simplesmente não sairia do papel. Mas desta vez, o governo já recuou uma vez. Recuar novamente teria um custo político muito maior.

  • Uma decisão tomada em sigilo quase apagou o festival de cinema mais antigo do Brasil, criado em 1965 e reconhecido como patrimônio imaterial do DF.
  • A equipe organizadora trabalhou cinco meses sem receber salários, enquanto o Cine Brasília — projetado por Niemeyer e patrimônio mundial — corria risco de fechar as portas.
  • A repercussão pública foi imediata: a governadora Celina Leão recuou e prometeu garantir os recursos, mas sem explicar de onde viriam nem quando chegariam.
  • Na sexta-feira, o pagamento de R$ 1,5 milhão foi confirmado, transformando a crise em alívio operacional — ainda que apenas metade do financiamento total tenha sido liberada.
  • A segunda parcela de R$ 1,5 milhão permanece sem cronograma definido, mantendo o festival em terreno financeiro instável até a realização prevista para setembro.

Há 61 anos, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro resiste como memória viva da cultura nacional — sobreviveu à ditadura, à pandemia e ao esquecimento. Desta vez, quase sucumbiu ao silêncio burocrático: sem verbas, sem salários desde março, e com um anúncio de cancelamento que durou apenas dias antes de recuar sob o peso da indignação pública. O governo do Distrito Federal liberou R$ 1,5 milhão — metade do necessário — e o festival segue, por ora, de pé, carregando consigo a fragilidade de tudo aquilo que depende da vontade política para existir.

Na segunda-feira passada, o governo do Distrito Federal comunicou em sigilo o que parecia impensável: o 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro seria cancelado por falta de verbas. A reação da comunidade cultural foi imediata. A governadora Celina Leão recuou publicamente e garantiu que o evento aconteceria, mas sem explicar de onde viriam os recursos.

Na sexta-feira, o governo efetivou o pagamento da primeira parcela — R$ 1,5 milhão, disponível até 17 de agosto. Para o diretor Henrique Rocha, a prioridade era clara: pagar a equipe, que trabalhava sem receber desde março. Cinco meses de trabalho não remunerado. "Passamos de uma frustração muito grande para um cenário de alívio e de muita dinâmica operacional", disse Rocha. O valor liberado, porém, representa apenas metade dos R$ 3 milhões necessários para viabilizar a edição, marcada para 11 a 19 de setembro. O cronograma para o restante segue indefinido.

O quase-cancelamento gerou comoção porque o festival não é um evento qualquer. Fundado em 1965, é o mais antigo do Brasil — mais velho que a própria Brasília. Resistiu à ditadura militar, que o suspendeu entre 1972 e 1974 como ato de protesto, e atravessou a pandemia sem interrupção. Em 2007, foi reconhecido como patrimônio imaterial do DF. O espaço que o abriga, o Cine Brasília, projetado por Oscar Niemeyer, é Patrimônio Mundial da Humanidade desde 1987.

Parte da crise tem raízes no colapso do Banco de Brasília, patrocinador master do festival desde 2024, que enfrenta sua pior crise histórica após transações malsucedidas com o Banco Master e não divulga balanços há um ano. Com a primeira parcela paga, o festival respira — mas a segunda metade do financiamento permanece em aberto, e a tradição de seis décadas segue dependente de uma promessa ainda incompleta.

Na segunda-feira da semana anterior, o governo do Distrito Federal reuniu-se em sigilo e comunicou uma decisão que chocou a comunidade cultural: o 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro seria cancelado. Faltava dinheiro. Ponto final. Mas a repercussão negativa foi imediata e contundente. A governadora Celina Leão (PP) recuou publicamente, afirmando que o evento seguiria em frente e que a Secretaria de Economia providenciaria os recursos. Ainda assim, a dúvida pairava — o anúncio não explicava de onde viriam as verbas, nem quando.

Na sexta-feira seguinte, a incerteza cedeu lugar a um alívio palpável. O governo efetivou o pagamento da primeira parcela: R$ 1,5 milhão. A quantia estaria disponível até a segunda-feira (17 de agosto). Para Henrique Rocha, diretor do festival, a prioridade era cristalina: pagar a equipe. Desde março, os envolvidos na organização trabalhavam sem receber um centavo. Cinco meses de trabalho não remunerado. Rocha havia sugerido uma reunião com a governadora para discutir a situação, mas o encontro nunca aconteceu. Agora, com o pagamento confirmado, o tom mudou. "Passamos de uma frustração muito grande — não apenas pelo atraso nos pagamentos, mas pela possibilidade de não realizar o festival — para um cenário de alívio e de muita dinâmica operacional", disse Rocha ao g1. "O reconhecimento do governo sobre a importância do festival foi um sinal importante em vários sentidos."

O valor liberado representa apenas metade do que é necessário. O governo precisa desembolsar R$ 3 milhões no total para viabilizar a 59ª edição, marcada para 11 a 19 de setembro. Quando virá o restante? A administração não informou. Essa ausência de cronograma deixa em aberto a possibilidade de novos atrasos, ainda que o compromisso formal agora exista.

O quase-cancelamento gerou reações intensas porque o Festival de Brasília não é um evento qualquer. Criado em 1965, é o mais antigo festival de cinema do Brasil — mais velho que a própria capital, que foi inaugurada em 1960. Durante a ditadura militar, entre 1972 e 1974, o festival deixou de acontecer como forma de protesto. Mas desde então, nunca mais interrompeu suas atividades, nem mesmo durante a pandemia de Covid-19. Em 2007, foi reconhecido como patrimônio imaterial do Distrito Federal. Cancelá-lo seria um precedente inédito em tempos democráticos.

O espaço que abriga o festival — o Cine Brasília — carrega seu próprio peso histórico. Projetado por Oscar Niemeyer e inaugurado em 1960, o cinema recebeu o título de Patrimônio Mundial da Humanidade em 1987, destacando-se como um dos equipamentos culturais mais importantes de exibição cinematográfica de toda a América Latina. Sem recursos, a instituição corria risco de fechar as portas. Os gestores relatavam que a falta de pagamentos já afetava funcionários e fornecedores, comprometendo o próprio funcionamento do espaço.

Parte da crise financeira que quase levou ao cancelamento tem raízes em outro lugar. Desde 2024, o patrocinador master do festival é o Banco de Brasília (BRB), que enfrenta a pior crise de sua história. A instituição não divulga balanços há um ano, resultado de transações malsucedidas com o Banco Master. Um patrocinador em colapso não consegue sustentar um evento de grande porte.

Agora, com a primeira parcela paga e o festival oficialmente confirmado, a organização pode respirar — mas apenas parcialmente. As inscrições para a 59ª edição foram anunciadas para começar em 25 de março. A equipe que trabalhou sem receber desde março finalmente receberá seus salários. Mas a segunda metade do financiamento permanece em suspenso, sem data definida, deixando em aberto a questão de como um festival com seis décadas de tradição conseguirá completar sua realização com recursos ainda incertos.

A prioridade máxima é o pagamento da equipe
— Henrique Rocha, diretor do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
Passamos de uma frustração muito grande para um cenário de alívio e de muita dinâmica operacional
— Henrique Rocha
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