Governo chama tarifas dos EUA de 'injustas' em última reunião antes de decisão

qualquer tarifa seria um caminho errado para construir um acordo bilateral
A posição oficial do governo brasileiro na última reunião com negociadores americanos antes da decisão sobre tarifas.

Brasil apresentou plano com medidas para contornar investigações da 'seção 301', incluindo ações contra corrupção e desmatamento, mantendo o PIX como inegociável. Governo considera cenário mais provável a aplicação da tarifa; outras possibilidades incluem adiamento da taxação ou postergação para negociações técnicas.

  • Reunião remota na terça-feira entre auxiliares de Lula e Jamieson Greer, chefe do USTR
  • Decisão sobre tarifa de 25% será anunciada na quarta-feira (15 de julho)
  • Brasil apresentou plano com medidas para contornar investigação da 'seção 301', mantendo PIX como inegociável
  • Governo ofereceu redução de tarifas em cerca de 300 linhas tarifárias para múltiplos países
  • Cenário mais provável é aplicação da tarifa; adiamento é considerado menos provável

Governo Lula realiza última reunião com representante comercial dos EUA antes da decisão sobre aplicação de tarifas de até 25% contra o Brasil, classificando as medidas como injustas.

Na terça-feira à noite, auxiliares do presidente Lula se conectaram remotamente com o chefe do representante comercial dos Estados Unidos para uma última tentativa de evitar o que pode ser uma das maiores retaliações comerciais contra o Brasil em anos. A decisão sobre se Washington aplicará uma tarifa de 25% contra produtos brasileiros será anunciada na quarta-feira — amanhã, para quem lê isto no dia seguinte à reunião. Antes disso, o Planalto deixou claro sua posição: as tarifas são injustas.

A equipe brasileira, reunindo quadros do Palácio do Planalto, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e do Ministério das Relações Exteriores, se encontrou com Jamieson Greer, o auxiliar de Donald Trump responsável pelas negociações comerciais. Este foi o quinto encontro entre as partes. A base legal para as possíveis tarifas é uma investigação conhecida como "seção 301", que examina práticas comerciais que os americanos consideram injustas. O governo brasileiro argumenta, em nota oficial, que nenhuma das razões apontadas nessa investigação justifica as sobretaxas propostas. A mensagem foi clara: qualquer tarifa seria um caminho errado para construir um acordo bilateral que beneficiasse ambos os lados.

O Brasil chegou a essa reunião final com um plano concreto. Apresentou aos americanos um conjunto de medidas que poderia adotar para responder às seis áreas de preocupação identificadas na investigação da seção 301 — que vão desde corrupção até controle do desmatamento. Mas havia uma linha que não seria cruzada: o PIX, o sistema de pagamentos instantâneos que se tornou central na economia brasileira, foi deixado de fora das negociações. Parte das medidas oferecidas já está em tramitação no Congresso Nacional ou foi formulada internamente no Palácio do Planalto.

Em conversas anteriores, o foco tinha sido diferente. O Brasil sinalizou aos americanos que poderia reduzir tarifas em cerca de 300 linhas tarifárias — produtos específicos que entram no país com impostos. Mas havia um problema legal: as regras da Organização Mundial do Comércio proíbem que um país reduza tarifas para apenas um parceiro comercial. O Brasil não poderia fazer isso apenas para os Estados Unidos. A solução foi oferecer reduções tarifárias para vários países, em setores onde os americanos teriam vantagem competitiva e onde a indústria brasileira não seria prejudicada.

Há também uma segunda ameaça tarifária em jogo. Os Estados Unidos ameaçam impor uma tarifa de 12,5% contra o Brasil e mais 59 países sob a alegação de falta de controle sobre trabalho forçado. O governo brasileiro criticou essa medida também, considerando-a injusta.

Quanto ao que pode acontecer amanhã, o governo trabalha com três cenários. O mais provável, segundo auxiliares do presidente, é que os americanos apliquem a tarifa de 25% baseada na investigação da seção 301. A postura dos negociadores americanos nas reuniões do grupo de trabalho bilateral e o histórico de Trump — conhecido por usar tarifas como ferramenta de negociação — pesam nessa avaliação. Os outros dois cenários são menos prováveis mas possíveis: um adiamento da taxação ou uma postergação sob o argumento de que é necessário mais tempo para negociações técnicas. Há ainda uma hipótese que auxiliares de Lula mencionam, embora considerem remota: que os americanos adiem as tarifas e atribuam a decisão à atuação de Flávio Bolsonaro, pré-candidato ao Planalto, conferindo assim uma vitória política ao político do PL.

A decisão sairá amanhã. O Brasil fez sua última jogada. Agora espera.

Como já demonstrado pelo governo brasileiro, nenhuma das razões apontadas na Seção 301 justificam a aplicação das tarifas recomendadas
— Nota do Planalto
A aplicação de qualquer sobretaxa se mostra injusta e não é o caminho para que possamos vir a formular um acordo bilateral mutuamente adequado
— Posição do governo Lula
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que o Brasil insiste que o PIX é inegociável? Parece uma linha na areia estranha para uma negociação comercial.

Model

Porque o PIX não é apenas um sistema de pagamento. É infraestrutura financeira crítica que o Brasil construiu e que funciona. Ceder controle sobre ele a pressões externas abre precedente perigoso — e sinalizaria fraqueza em um momento em que o governo está tentando demonstrar que tem limites.

Inventor

Então o governo acredita que vai perder essa negociação?

Model

O cenário mais provável, segundo eles mesmos, é que as tarifas sejam aplicadas. Mas apresentar um plano detalhado, mesmo que rejeitado, deixa registrado que o Brasil tentou. Isso importa para a próxima fase.

Inventor

Qual é a próxima fase?

Model

Ou negociar uma redução das tarifas já aplicadas, ou preparar retaliação. O Brasil não pode simplesmente aceitar 25% de sobretaxa em seus produtos. Haverá resposta.

Inventor

E essa história sobre Flávio Bolsonaro? Por que o governo mencionaria isso?

Model

Porque se Trump adia as tarifas e credita a Bolsonaro, isso beneficia politicamente um rival de Lula. O governo está sinalizando que vê essa possibilidade e que não a vê como vitória — é apenas adiamento com custo político doméstico.

Inventor

Então o Brasil está preso entre duas coisas ruins?

Model

Exatamente. Tarifas aplicadas prejudicam a economia. Tarifas adiadas por influência de Bolsonaro prejudicam Lula politicamente. O melhor cenário — negociar um acordo real — parece cada vez mais distante.

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