Governo assume Malha Oeste após impasse bilionário com Rumo

Uma ferrovia de 1.900 quilômetros em espera, enquanto bilhões definem seu futuro
A Malha Oeste permanece inoperante enquanto governo e Rumo disputam uma conta que pode chegar a R$ 6,5 bilhões.
Mark

Como uma ferrovia inteira fica parada por causa de uma disputa sobre dinheiro? Não é possível simplesmente o governo assumir e continuar operando?

Mimi

Tecnicamente é possível, mas há uma complicação. A Rumo diz que o governo deve R$ 6,5 bilhões por ter mudado as regras do jogo lá em 1996. Se o governo assume sem resolver isso, está aceitando implicitamente uma dívida que contesta.

Luke

Mas espera — o governo tem uma sentença de primeira instância favorável desde 2014 que reconhece o desequilíbrio. Então não é que o governo esteja errado; é que a Rumo ganhou uma rodada na Justiça.

Mimi

Exatamente. E a Rumo sabe disso. Internamente, a empresa considera que chega à mesa de negociação em posição favorável porque já obteve essa vitória. Por isso não está com pressa de resolver.

Mark

E enquanto isso, a ferrovia fica parada? Ninguém está transportando nada?

Mimi

Ninguém. Está completamente inoperante. A Rumo faz vigilância patrimonial em 31 postos, mas não há circulação de trens. Parte da infraestrutura já está sucateada.

Luke

Mas o governo está planejando relicitar a ferrovia em 2027 com R$ 29 bilhões em investimentos. Isso significa que o governo está apostando que conseguirá resolver a disputa com a Rumo ou simplesmente vai oferecer a ferrovia a outro operador?

Mimi

Provavelmente os dois. A pendência financeira com a Rumo não impede o governo de fazer uma nova licitação. O contrato anterior já terminou. Então enquanto negocia com a Rumo, o governo pode oferecer a ferrovia a outro operador.

Mark

Isso não é arriscado? E se a Rumo ganhar a ação judicial e o novo operador tiver que lidar com essa dívida?

Luke

Sim, é um risco real. A ação está suspensa agora, mas a Rumo não descarta retomar a disputa judicial caso não haja avanço. E o TCU tem apenas 90 dias, prorrogáveis por mais 30, para tentar mediar um acordo. Se não conseguir, volta para a Justiça.

Mimi

E aí fica complicado para qualquer novo operador que assuma a ferrovia. Ele herda uma disputa que vem desde 2000.

Mark

Então o governo está basicamente esperando que o TCU resolva em quatro meses o que a Justiça não conseguiu resolver em 26 anos?

Luke

Mais ou menos. Mas há uma diferença: agora há pressão para resolver porque a ferrovia está parada e o governo quer relicitar. Antes, a Rumo tinha uma liminar que a permitia suspender o pagamento de arrendamento, então não havia urgência.

  • Ferrovia Malha Oeste: 1.900 quilômetros entre São Paulo e Mato Grosso do Sul
  • Concessão de 30 anos terminou em junho de 2026
  • Disputa financeira: governo diz que Rumo deve R$ 4,6 a R$ 5,3 bilhões; Rumo cobra R$ 6,5 bilhões de reequilíbrio
  • Ação judicial iniciada em 2000; sentença de primeira instância em 2014 reconheceu desequilíbrio, mas decisão não é definitiva
  • TCU tentará mediar acordo em 90 dias; governo planeja relicitar ferrovia em 2027 com R$ 29 bilhões em investimentos

Desentendimento sobre cifra bilionária impede encerramento definitivo do contrato de 30 anos da ferrovia entre São Paulo e Mato Grosso do Sul. Rumo cobra reequilíbrio financeiro de R$ 6,5 bilhões por mudanças nas regras de transporte desde 1996; governo contesta valor e já obteve sentença favorável em primeira instância.

Governo e concessionária Rumo travam negociações sobre conta de até R$ 6 bilhões referente ao encerramento da concessão da Malha Oeste, que terminou em junho. União assume operação temporária enquanto disputa judicial segue sem resolução.

A Malha Oeste, ferrovia que conecta São Paulo a Mato Grosso do Sul por 1.900 quilômetros de trilhos, terminou sua concessão de 30 anos em junho deste ano. Mas o encerramento não foi definitivo. Uma disputa financeira de bilhões de reais entre o governo federal e a concessionária Rumo travou tudo — e agora o Estado precisa assumir temporariamente uma ferrovia que está completamente parada, com grande parte de sua infraestrutura já deteriorada.

O problema começou com números que ninguém quer pagar. O governo calcula que a Rumo deve entre R$ 4,6 bilhões e R$ 5,3 bilhões aos cofres públicos, uma conta que inclui indenizações por trechos abandonados, pagamento de outorga e multas acumuladas ao longo de três décadas. A Rumo, porém, cobra da União um reequilíbrio financeiro de até R$ 5,965 bilhões em valores de dezembro de 2021 — cifra que, atualizada, já se aproxima de R$ 6,5 bilhões. Nenhum dos lados está disposto a assumir essa fatura. No último dia de junho, quando a concessão deveria terminar, a União e a Rumo assinaram um aditivo contratual às pressas, estendendo o contrato por 180 dias adicionais. O objetivo era usar esse tempo para chegar a um "encontro de contas" — basicamente, acertar quem deve o quê. Não funcionou.

A raiz do conflito está em decisões tomadas há três décadas. Quando a ferrovia foi leiloada em 1996, a empresa Novoeste, que depois se tornou Rumo, baseou seus cálculos em uma premissa: derivados de petróleo e etanol responderiam por 58% da receita esperada. Poucos meses depois do leilão, porém, o governo mudou as regras de transporte desses produtos e retirou a prioridade que era dada à ferrovia. Isso desequilibrou economicamente o contrato desde o início, segundo a concessionária. A Rumo acionou a Justiça em 2000. Em 2005, uma liminar permitiu à empresa suspender o pagamento das parcelas de arrendamento enquanto seu pedido de reequilíbrio não fosse resolvido. Em 2014, uma sentença de primeira instância reconheceu o desequilíbrio. Mas essa decisão não é definitiva. Desde então, nada foi decidido. A ação judicial está suspensa por causa da tentativa anterior de acordo, mas a Rumo não descarta retomar a disputa caso não haja avanço nas negociações.

Enquanto a briga continua, alguém precisa cuidar da ferrovia. O Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) teve de correr atrás de um prestador de serviço para assumir a guarda da linha a partir de janeiro de 2027, já que o prazo de 180 dias — que termina em 28 de dezembro — não será suficiente. Até lá, a Rumo segue fazendo vigilância patrimonial em 31 postos ao longo da ferrovia, incluindo roçada e monitoramento mensal por satélite. Não há previsão de circulação de trens. A ferrovia está inoperante.

Para tentar resolver o impasse, o governo acionou a área de consenso do Tribunal de Contas da União (TCU) para intermediar a operação. O rito de solução consensual prevê 90 dias, prorrogáveis por mais 30, para chegar a uma resposta final. Esse prazo começa depois da admissão do processo pela corte. A Rumo, em nota, afirmou que "acompanha o andamento do processo e segue cumprindo as obrigações estabelecidas no instrumento vigente" e reiterou que a ferrovia apresentou "desequilíbrio econômico-financeiro estrutural desde os primeiros meses da concessão". O governo contesta o tamanho da cobrança. Segundo a consultoria jurídica do Ministério dos Transportes, os cálculos do governo são "substancialmente inferiores" aos apresentados pela Rumo.

Paralelamente, o governo já está planejando o próximo passo. A Malha Oeste foi incluída no plano de concessão federal para ser repassada a outro operador. A ferrovia perdeu parte de sua atratividade porque cargas migraram para outras ligações entre Mato Grosso e o porto de Santos, feitas pelas malhas Norte e Paulista. Atualmente, os trechos com maior potencial são os ligados ao transporte de minério na região de Corumbá e de celulose no leste de Mato Grosso do Sul. A nova concessão prevê aproximadamente R$ 29 bilhões em investimentos e R$ 3,6 bilhões em aportes públicos para recuperar trechos degradados. O leilão, que era aguardado para este ano, passou por sucessivos adiamentos e deve ficar para 2027.

A pendência financeira com a Rumo não impede o governo de fazer uma nova licitação. O contrato anterior já terminou e, segundo envolvidos nas negociações, a ferrovia pode ser oferecida novamente enquanto União e Rumo continuam discutindo a conta. Até que outro operador assuma, caberá ao Dnit preservar uma ferrovia que continua sem tráfego regular — uma estrutura de 1.900 quilômetros em espera, enquanto bilhões de reais em disputa definem seu futuro.

A Malha Oeste apresentou desequilíbrio econômico-financeiro estrutural desde os primeiros meses da concessão
— Rumo (em nota)
Os cálculos do governo são substancialmente inferiores aos apresentados pela Rumo
— Consultoria jurídica do Ministério dos Transportes
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