Desentendimento sobre cifra bilionária impede encerramento definitivo do contrato de 30 anos da ferrovia entre São Paulo e Mato Grosso do Sul. Rumo cobra reequilíbrio financeiro de R$ 6,5 bilhões por mudanças nas regras de transporte desde 1996; governo contesta valor e já obteve sentença favorável em primeira instância.
Governo assume Malha Oeste após impasse bilionário com Rumo
Uma ferrovia de 1.900 quilômetros em espera, enquanto bilhões definem seu futuro
Como uma ferrovia inteira fica parada por causa de uma disputa sobre dinheiro? Não é possível simplesmente o governo assumir e continuar operando?
Tecnicamente é possível, mas há uma complicação. A Rumo diz que o governo deve R$ 6,5 bilhões por ter mudado as regras do jogo lá em 1996. Se o governo assume sem resolver isso, está aceitando implicitamente uma dívida que contesta.
Mas espera — o governo tem uma sentença de primeira instância favorável desde 2014 que reconhece o desequilíbrio. Então não é que o governo esteja errado; é que a Rumo ganhou uma rodada na Justiça.
Exatamente. E a Rumo sabe disso. Internamente, a empresa considera que chega à mesa de negociação em posição favorável porque já obteve essa vitória. Por isso não está com pressa de resolver.
E enquanto isso, a ferrovia fica parada? Ninguém está transportando nada?
Ninguém. Está completamente inoperante. A Rumo faz vigilância patrimonial em 31 postos, mas não há circulação de trens. Parte da infraestrutura já está sucateada.
Mas o governo está planejando relicitar a ferrovia em 2027 com R$ 29 bilhões em investimentos. Isso significa que o governo está apostando que conseguirá resolver a disputa com a Rumo ou simplesmente vai oferecer a ferrovia a outro operador?
Provavelmente os dois. A pendência financeira com a Rumo não impede o governo de fazer uma nova licitação. O contrato anterior já terminou. Então enquanto negocia com a Rumo, o governo pode oferecer a ferrovia a outro operador.
Isso não é arriscado? E se a Rumo ganhar a ação judicial e o novo operador tiver que lidar com essa dívida?
Sim, é um risco real. A ação está suspensa agora, mas a Rumo não descarta retomar a disputa judicial caso não haja avanço. E o TCU tem apenas 90 dias, prorrogáveis por mais 30, para tentar mediar um acordo. Se não conseguir, volta para a Justiça.
E aí fica complicado para qualquer novo operador que assuma a ferrovia. Ele herda uma disputa que vem desde 2000.
Então o governo está basicamente esperando que o TCU resolva em quatro meses o que a Justiça não conseguiu resolver em 26 anos?
Mais ou menos. Mas há uma diferença: agora há pressão para resolver porque a ferrovia está parada e o governo quer relicitar. Antes, a Rumo tinha uma liminar que a permitia suspender o pagamento de arrendamento, então não havia urgência.
Le Pouls
- Ferrovia Malha Oeste: 1.900 quilômetros entre São Paulo e Mato Grosso do Sul
- Concessão de 30 anos terminou em junho de 2026
- Disputa financeira: governo diz que Rumo deve R$ 4,6 a R$ 5,3 bilhões; Rumo cobra R$ 6,5 bilhões de reequilíbrio
- Ação judicial iniciada em 2000; sentença de primeira instância em 2014 reconheceu desequilíbrio, mas decisão não é definitiva
- TCU tentará mediar acordo em 90 dias; governo planeja relicitar ferrovia em 2027 com R$ 29 bilhões em investimentos
Desentendimento sobre cifra bilionária impede encerramento definitivo do contrato de 30 anos da ferrovia entre São Paulo e Mato Grosso do Sul. Rumo cobra reequilíbrio financeiro de R$ 6,5 bilhões por mudanças nas regras de transporte desde 1996; governo contesta valor e já obteve sentença favorável em primeira instância.
Governo e concessionária Rumo travam negociações sobre conta de até R$ 6 bilhões referente ao encerramento da concessão da Malha Oeste, que terminou em junho. União assume operação temporária enquanto disputa judicial segue sem resolução.
A Malha Oeste, ferrovia que conecta São Paulo a Mato Grosso do Sul por 1.900 quilômetros de trilhos, terminou sua concessão de 30 anos em junho deste ano. Mas o encerramento não foi definitivo. Uma disputa financeira de bilhões de reais entre o governo federal e a concessionária Rumo travou tudo — e agora o Estado precisa assumir temporariamente uma ferrovia que está completamente parada, com grande parte de sua infraestrutura já deteriorada.
O problema começou com números que ninguém quer pagar. O governo calcula que a Rumo deve entre R$ 4,6 bilhões e R$ 5,3 bilhões aos cofres públicos, uma conta que inclui indenizações por trechos abandonados, pagamento de outorga e multas acumuladas ao longo de três décadas. A Rumo, porém, cobra da União um reequilíbrio financeiro de até R$ 5,965 bilhões em valores de dezembro de 2021 — cifra que, atualizada, já se aproxima de R$ 6,5 bilhões. Nenhum dos lados está disposto a assumir essa fatura. No último dia de junho, quando a concessão deveria terminar, a União e a Rumo assinaram um aditivo contratual às pressas, estendendo o contrato por 180 dias adicionais. O objetivo era usar esse tempo para chegar a um "encontro de contas" — basicamente, acertar quem deve o quê. Não funcionou.
A raiz do conflito está em decisões tomadas há três décadas. Quando a ferrovia foi leiloada em 1996, a empresa Novoeste, que depois se tornou Rumo, baseou seus cálculos em uma premissa: derivados de petróleo e etanol responderiam por 58% da receita esperada. Poucos meses depois do leilão, porém, o governo mudou as regras de transporte desses produtos e retirou a prioridade que era dada à ferrovia. Isso desequilibrou economicamente o contrato desde o início, segundo a concessionária. A Rumo acionou a Justiça em 2000. Em 2005, uma liminar permitiu à empresa suspender o pagamento das parcelas de arrendamento enquanto seu pedido de reequilíbrio não fosse resolvido. Em 2014, uma sentença de primeira instância reconheceu o desequilíbrio. Mas essa decisão não é definitiva. Desde então, nada foi decidido. A ação judicial está suspensa por causa da tentativa anterior de acordo, mas a Rumo não descarta retomar a disputa caso não haja avanço nas negociações.
Enquanto a briga continua, alguém precisa cuidar da ferrovia. O Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) teve de correr atrás de um prestador de serviço para assumir a guarda da linha a partir de janeiro de 2027, já que o prazo de 180 dias — que termina em 28 de dezembro — não será suficiente. Até lá, a Rumo segue fazendo vigilância patrimonial em 31 postos ao longo da ferrovia, incluindo roçada e monitoramento mensal por satélite. Não há previsão de circulação de trens. A ferrovia está inoperante.
Para tentar resolver o impasse, o governo acionou a área de consenso do Tribunal de Contas da União (TCU) para intermediar a operação. O rito de solução consensual prevê 90 dias, prorrogáveis por mais 30, para chegar a uma resposta final. Esse prazo começa depois da admissão do processo pela corte. A Rumo, em nota, afirmou que "acompanha o andamento do processo e segue cumprindo as obrigações estabelecidas no instrumento vigente" e reiterou que a ferrovia apresentou "desequilíbrio econômico-financeiro estrutural desde os primeiros meses da concessão". O governo contesta o tamanho da cobrança. Segundo a consultoria jurídica do Ministério dos Transportes, os cálculos do governo são "substancialmente inferiores" aos apresentados pela Rumo.
Paralelamente, o governo já está planejando o próximo passo. A Malha Oeste foi incluída no plano de concessão federal para ser repassada a outro operador. A ferrovia perdeu parte de sua atratividade porque cargas migraram para outras ligações entre Mato Grosso e o porto de Santos, feitas pelas malhas Norte e Paulista. Atualmente, os trechos com maior potencial são os ligados ao transporte de minério na região de Corumbá e de celulose no leste de Mato Grosso do Sul. A nova concessão prevê aproximadamente R$ 29 bilhões em investimentos e R$ 3,6 bilhões em aportes públicos para recuperar trechos degradados. O leilão, que era aguardado para este ano, passou por sucessivos adiamentos e deve ficar para 2027.
A pendência financeira com a Rumo não impede o governo de fazer uma nova licitação. O contrato anterior já terminou e, segundo envolvidos nas negociações, a ferrovia pode ser oferecida novamente enquanto União e Rumo continuam discutindo a conta. Até que outro operador assuma, caberá ao Dnit preservar uma ferrovia que continua sem tráfego regular — uma estrutura de 1.900 quilômetros em espera, enquanto bilhões de reais em disputa definem seu futuro.
Citations marquantes
A Malha Oeste apresentou desequilíbrio econômico-financeiro estrutural desde os primeiros meses da concessão— Rumo (em nota)
Os cálculos do governo são substancialmente inferiores aos apresentados pela Rumo— Consultoria jurídica do Ministério dos Transportes