Gonçalo Castelo-Branco: o primeiro português nos bastidores do Nobel da Medicina

Agora estou no outro lado, é totalmente diferente
Castelo-Branco reflete sobre a mudança de estar como observador para ser membro do Comité Nobel.
Mark

Como é que se escolhem realmente os vencedores? Parece um processo muito fechado.

Mimi

É fechado, sim, mas por razões que fazem sentido. Começamos com 700 nomeações por ano — resultado de milhares de convites — e depois investigamos cada uma durante meses. Não é só ler um currículo; é perceber o contexto histórico, falar com pessoas da área, compreender o verdadeiro impacto.

Luke

Mas 700 nomeações é muito. Quantas chegam realmente à votação final?

Mimi

Isso não posso dizer com exatidão. Há um afunilamento gradual. Algumas são descartadas rapidamente porque a área ainda não maturou. Outras avançam mais depressa.

Mark

E como é que decidem entre duas descobertas que têm impacto semelhante?

Mimi

É difícil, e acaba por ser subjetivo. Por isso é que a composição do Comité é heterogénea — pessoas de diferentes áreas. Ajuda a evitar vieses.

Luke

Mas há sempre pessoas que acham que deveriam ter ganho. Como é que lidam com isso?

Mimi

É inerente. O prémio tem um limite de três vencedores, e há sempre contribuições importantes que ficam de fora. Mas o processo é tão exaustivo que raramente há controvérsia.

Mark

Falam diretamente com os candidatos?

Mimi

Não fazemos entrevistas. Procuramos a opinião de pessoas da área, investigadores que estavam envolvidos na altura da descoberta.

Luke

E se alguém se nomear a si próprio? Há uma regra contra isso?

Mimi

Não sei se há uma regra escrita, mas implicitamente nunca vi ninguém a fazer isso. Não me lembro de nomeações próprias.

Mark

Qual é o critério mais importante?

Mimi

O testamento de Alfred Nobel é claro: tem de ser uma descoberta — não uma invenção — e tem de ter o maior benefício para a humanidade. Essas são as duas componentes fundamentais.

Luke

E quanto ao secretismo? Porque é que é tão importante?

Mimi

Protege o prémio. Evita rumores sobre quem vai ganhar, situações desagradáveis. A identidade dos nomeados só é revelada 50 anos depois.

Mark

Deve ser estranho estar agora do outro lado, sabendo quem vai ganhar antes do anúncio.

Mimi

É totalmente diferente. Durante anos tentei estar na sala ou via no YouTube. Agora estou do lado de quem escolhe. O entusiasmo está sempre lá, mas é uma responsabilidade diferente.

  • Gonçalo Castelo-Branco é o primeiro português no Comité Nobel para Fisiologia ou Medicina
  • Processo anual envolve 700 nomeações de milhares de convites, investigadas de janeiro a outubro
  • Testamento de Alfred Nobel estabelece dois critérios: descoberta fundamental com máximo benefício para a humanidade
  • Limite de três vencedores por prémio; identidades dos nomeados reveladas apenas 50 anos depois
  • Votação acontece 5 de outubro; Castelo-Branco trabalha no Instituto Karolinska desde 1999

O processo Nobel começa com milhares de convites e 700 nomeações, seguindo-se meses de investigação exaustiva sobre o impacto real das descobertas na humanidade. O testamento de Alfred Nobel estabelece critérios rigorosos: a descoberta deve ser fundamental e ter máximo benefício para a humanidade, com limite de três vencedores por prémio.

Gonçalo Castelo-Branco torna-se o primeiro português a integrar o Comité Nobel para Fisiologia ou Medicina, revelando em entrevista os detalhes do processo secreto de seleção que envolve 700 nomeações anuais e culmina na votação de segunda-feira.

Gonçalo Castelo-Branco entrou pela primeira vez na sala de votação do Instituto Karolinska em Estocolmo em 2023, quando foi nomeado membro da Assembleia-Geral Nobel dedicada à Fisiologia ou Medicina. Agora, no final de 2025, tornou-se o primeiro português a integrar o Comité Nobel para essa mesma área — o órgão executivo responsável pela investigação exaustiva que precede a votação final. Na segunda-feira, 5 de outubro, quando os 50 professores daquela instituição se reunirem naquela sala monocromática, com as paredes alaranjadas e a grande mesa redonda de madeira característica da região, Castelo-Branco estará lá mais cedo do que o habitual. Desta vez, não é apenas um observador entusiasmado; é parte da máquina que escolhe os laureados do prémio mais prestigiado da ciência.

O processo que culmina naquela votação começa meses antes, em janeiro, quando a secretaria da Assembleia Nobel envia convites a cientistas, universidades e professores de medicina de vários países. A data limite para as nomeações é 31 de janeiro. A partir daí, o trabalho de investigação intensifica-se. Todos os anos, cerca de 700 nomeações chegam ao Comité — resultado de milhares de convites enviados. Cada uma delas representa uma pessoa ou um agregado de pessoas que fizeram contribuições numa determinada área da medicina. Desde o início de fevereiro, o Comité começa a investigar cada candidatura, um processo que se estende até outubro e que envolve um afunilamento gradual. Algumas são descartadas rapidamente, porque a área ainda não maturou o suficiente. Outras avançam mais depressa — a vacina de mRNA, por exemplo, foi um processo rápido, apesar da descoberta subjacente ter sido feita muitos anos antes, porque o impacto durante a pandemia de Covid foi inegável.

O trabalho do Comité não é apenas ler currículos. Os membros investigam o contexto histórico de cada descoberta, conversam com investigadores da área para compreender como a investigação evoluiu, tentam perceber quem fez realmente o quê e quando. Castelo-Branco explica que, embora não façam entrevistas diretas aos candidatos, procuram a opinião de pessoas próximas do trabalho científico para avaliar o verdadeiro impacto. Às vezes, a descoberta que ganhou o prémio foi feita décadas antes — um dos candidatos do ano anterior estava a fazer uma caminhada com o telemóvel desligado quando soube que tinha ganho. O prémio Nobel não é um reconhecimento de carreira; é um prémio pela descoberta específica. Há outras distinções para reconhecer contribuições ao longo de uma vida inteira.

O testamento de Alfred Nobel estabelece os critérios que guiam todo este trabalho. Para a Medicina, a descoberta tem de ser exatamente isso — uma descoberta, não uma invenção — e tem de ter o maior benefício para a humanidade. Estes são os dois pilares. Quando há duas descobertas com impacto semelhante, a escolha torna-se subjetiva, e é por isso que a composição do Comité é deliberadamente heterogénea, com especialistas de diferentes áreas. Castelo-Branco reconhece que há sempre áreas que mereciam um Prémio Nobel e nunca o receberam, e que há sempre pessoas que pensam que deveriam ter sido escolhidas. Mas o Prémio Nobel de Fisiologia ou Medicina raramente teve vencedores controversos, precisamente porque o processo é exaustivo e envolve pessoas de diferentes disciplinas.

Há também limitações estruturais. O prémio pode ser atribuído a um máximo de três pessoas por ano. Isto significa que muitas vezes há contribuições importantes que ficam de fora, simplesmente porque não há espaço. Outros prémios, como o Brain Prize ou o Breakthrough Prize, não têm este limite, o que ajuda a reconhecer mais contribuições. Mas a restrição dos três vencedores é parte do testamento original, e o Comité tem de trabalhar dentro dessa realidade, fazendo uma investigação rigorosa para identificar quem fez realmente as descobertas essenciais.

O secretismo é fundamental para o prestígio do prémio. A identidade dos nomeados e de quem os nomeia só é revelada 50 anos depois da votação. Neste momento, é possível consultar quem estava na calha para vencer desde 1905 até 1975. Castelo-Branco, vinculado por um contrato de confidencialidade, não pode responder a muitas perguntas sobre o processo atual. Mas há uma outra razão para o segredo: protege o prémio de situações potencialmente desagradáveis, como rumores sobre quem vai ganhar que depois se revelam falsos. A votação acontece no próprio dia do anúncio. Há também a condição de que os vencedores têm de estar vivos; o prémio não é atribuído a título póstumo. Houve um caso em que alguém faleceu durante o fim de semana antes da atribuição, e o prémio foi mantido, apesar das complicações legais.

Para Castelo-Branco, que trabalha no Instituto Karolinska desde 1999, quando fez o seu doutoramento, esta mudança de papel é profunda. Durante anos, tentava estar presente no auditório quando o anúncio era feito, ou via no YouTube se não conseguisse entrar — havia sempre filas porque a sala tinha capacidade limitada. Agora está do outro lado. O trabalho é intenso — muitas noites a ler sobre áreas fora da sua especialidade — mas considera-o gratificante. Indiretamente, ajuda o seu próprio grupo de investigação, porque adquire uma visão muito mais global da ciência. Conciliar a liderança de um grupo de investigação com o papel no Comité não é fácil, especialmente quando se quer manter a vida familiar, mas quando se faz por gosto, o esforço compensa.

Este ano, a semana Nobel será diferente para ele. Terá de chegar mais cedo ao Instituto Karolinska, participará na reunião preparatória do Comité antes da votação, e depois assistirá ao anúncio do outro lado da sala. Mas o entusiasmo permanece. A semana Nobel é dedicada à cultura e à ciência em todo o mundo — há o prémio de Fisiologia ou Medicina, mas também o de Química, que frequentemente toca em áreas próximas da bioquímica, e o de Literatura, em que Castelo-Branco ainda nutre a esperança de ver um português ganhar, como Saramago fez um ano antes de ele chegar a Estocolmo. Em dezembro, durante a cerimónia oficial, participará nas receções para os laureados e assistirá às palestras. Ainda está a aprender como tudo funciona, e espera ter algumas surpresas na segunda-feira. Se continuar no Comité no próximo ano, já saberá o que o espera.

A semana Nobel é sempre entusiasmante. Desde que vim para cá, havia filas para entrar e assistir ao anúncio. Agora estou no outro lado, é totalmente diferente.
— Gonçalo Castelo-Branco
O Prémio Nobel de Fisiologia ou Medicina raramente teve vencedores controversos, porque é um processo muito exaustivo com pessoas de diferentes áreas.
— Gonçalo Castelo-Branco
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