'Golpe das tarefas': falsa vaga de home office faz profissional perder R$ 1,2 mil

Ester Nunes, profissional de RH de 26 anos, perdeu R$ 1,2 mil em economia pessoal após cair no esquema de falsa vaga de home office.
O criminoso cria confiança pagando pelas primeiras tarefas
Pesquisador de segurança explica como o golpe das tarefas funciona em etapas para ganhar credibilidade antes de exigências crescentes.
Mark

Por que essas vagas falsas funcionam tão bem? Parece que deveria ser óbvio.

Mimi

Porque exploram exatamente o que as pessoas querem acreditar. Alguém procurando emprego ou renda extra está em um estado de esperança. A vaga chega sem que você tenha se candidatado — isso parece sorte, não parece suspeita. E o primeiro contato é por WhatsApp, um lugar onde você já fala com amigos e família.

Mark

Mas como eles ganham confiança tão rápido?

Mimi

Pagam. Ester recebeu dinheiro pelas primeiras tarefas. Isso muda tudo. De repente, não é mais uma promessa abstrata — é real, está na sua conta. Quando pedem o primeiro depósito, você já se vê como alguém que ganhou dinheiro ali. Você quer acreditar que pode ganhar mais.

Mark

E quando a pessoa percebe que é um golpe?

Mimi

Geralmente é tarde. Ester só entendeu quando pediram R$ 2,6 mil e ela disse que não tinha. Aí disseram que ela perderia tudo o que já tinha enviado se não continuasse pagando. É uma armadilha psicológica perfeita — você já perdeu dinheiro, então a escolha parece ser entre perder tudo ou investir mais.

Mark

Existe alguma forma de recuperar o dinheiro?

Mimi

Existe, mas é complicado. Você tem 80 dias para avisar o banco e pedir bloqueio via MED. O banco tenta congelar a conta do criminoso. Mas muitas vezes o dinheiro já foi sacado ou transferido. Se não houver saldo, não há o que recuperar.

Mark

Então a maioria das vítimas perde o dinheiro de verdade?

Mimi

Provavelmente. O sistema existe para tentar recuperar, mas depende de o criminoso ter deixado dinheiro na conta. Quanto mais rápido você avisar o banco, melhores as chances. Mas sim, para muitas pessoas, esse dinheiro não volta.

  • Ester Nunes, 26 anos, perdeu R$ 1,2 mil em falsa vaga de home office
  • Fraudes de falsas oportunidades de emprego cresceram 56% entre março e abril de 2026
  • Golpe ocupa segunda posição entre fraudes mais denunciadas (17,9% dos registros)
  • Vítima tem até 80 dias para solicitar devolução via MED do Banco Central

Criminosos abordam vítimas por WhatsApp e mensagens, pedindo pequenos depósitos iniciais para "liberar tarefas mais lucrativas", criando falsa sensação de ganho antes de exigências crescentes. Golpe ocupa segunda posição entre fraudes mais denunciadas (17,9% dos registros), ficando atrás apenas de golpes de lojas desconhecidas, segundo plataforma SOS Golpe.

Profissional de RH perde R$ 1,2 mil em esquema de falsa vaga de home office que promete renda extra através de tarefas online, evoluindo para exigências de depósitos via PIX. Fraudes relacionadas a falsas oportunidades de emprego cresceram 56% entre março e abril.

Ester Nunes, profissional de Recursos Humanos com 26 anos, recebeu uma mensagem que parecia promissora: uma vaga de trabalho em home office com possibilidade de renda extra. Ela não se lembrava de ter enviado currículo para nenhuma empresa, mas a oportunidade soou atraente o suficiente para que respondesse. O que se seguiu foi uma sequência cuidadosamente orquestrada de pequenas vitórias e promessas crescentes que a custou R$ 1,2 mil — dinheiro que saiu de sua reserva financeira pessoal e nunca retornou.

O esquema, conhecido entre especialistas como "golpe das tarefas", funciona em etapas. No começo, tudo parece legítimo. Os criminosos pedem que a vítima realize atividades simples online: avaliar empresas no Google, responder questionários, tarefas que parecem inofensivas. Em troca, prometem pequenas recompensas. Ester depositou R$ 300 inicialmente. Quando quis sacar seus ganhos, os golpistas exigiram R$ 900 como taxa de desbloqueio. Ela pagou, usando parte de sua reserva. Depois veio outra exigência: R$ 2,6 mil. Foi nesse momento que a realidade se impôs. Quando disse que não tinha esse valor, recebeu a informação de que perderia tudo o que já havia enviado se não continuasse pagando. Ela pesquisou, descobriu a verdade: o saldo exibido na plataforma era fictício. O único dinheiro real que havia saído era aquele transferido via PIX diretamente para os criminosos.

Ester compartilhou sua história no TikTok, onde o vídeo acumulou mais de 2 milhões de visualizações. Sua experiência não é isolada. Segundo a plataforma SOS Golpe, fraudes relacionadas a falsas oportunidades de emprego e promessas de renda extra cresceram 56% entre março e abril de 2026. A modalidade ocupa a segunda posição entre as fraudes mais denunciadas, representando 17,9% dos registros — atrás apenas de golpes envolvendo lojas ou empresas pouco conhecidas. Os criminosos costumam abordar vítimas por WhatsApp, Telegram, redes sociais, SMS ou e-mail, frequentemente usando nomes de empresas reconhecidas no mercado para transmitir credibilidade.

Jonathan Ramos, pesquisador de segurança da ESET Brasil, explica como o mecanismo funciona. O criminoso cria uma relação de confiança pagando pelas primeiras tarefas. Depois, começa a exigir depósitos para liberar novas atividades ou supostos lucros maiores. É nesse ponto que a vítima perde o dinheiro e o golpista desaparece. Existem variações: alguns criminosos cobram taxas para cursos, certificados ou exames admissionais supostamente obrigatórios. Outros pedem selfies, vídeos e fotografias de documentos pessoais — material que pode ser usado posteriormente para roubo de identidade, abertura de contas bancárias ou contratação de empréstimos em nome da vítima.

Os sinais de alerta são claros para quem sabe onde procurar. Ofertas recebidas sem que você tenha enviado currículo. Primeiro contato por WhatsApp ou Telegram em vez de canais oficiais. Promessas de salários muito acima da média para funções com poucos requisitos. Qualquer pedido de pagamento durante o processo seletivo. A Federação Brasileira de Bancos alertou sobre o aumento de tentativas de obtenção indevida de dados pessoais e informações bancárias sob o pretexto de participação em processos seletivos ou realização de exames admissionais.

Para quem já caiu no golpe, existe um caminho — embora nem sempre bem-sucedido. Breno Lobo, consultor do Banco Central, orienta que a vítima entre em contato com seu banco assim que detectar a fraude. O primeiro passo é comunicar imediatamente a instituição para que ela acione o MED (Mecanismo de Eliminação de Diferenças) e tente bloquear o dinheiro antes que seja sacado ou transferido. A vítima tem até 80 dias, contados a partir da transação, para solicitar a devolução. O banco da vítima aciona o Banco Central, que comunica o banco do recebedor para bloquear os recursos disponíveis até o valor da fraude. O caso é analisado em até sete dias. Se a fraude for comprovada, o dinheiro disponível pode ser devolvido total ou parcialmente em até 96 horas.

Mas há uma limitação crucial: o mecanismo só funciona se houver saldo na conta usada pelo golpista. Em muitos casos, os criminosos sacam ou transferem o dinheiro rapidamente. Se não houver recursos suficientes para devolução integral, o banco do recebedor deve monitorar a conta e realizar novos bloqueios sempre que houver entrada de dinheiro, até que o valor seja recuperado ou se completem 90 dias da transação original. Se ao fim desse período não houver recursos suficientes, o MED é encerrado e o banco da vítima não é obrigado a usar dinheiro próprio para cobrir o prejuízo. Ester registrou uma reclamação no Banco Central, anexou prints das conversas com os criminosos, os comprovantes dos PIX e o protocolo da solicitação aberta junto ao banco. Até o momento, ela afirma que não recebeu a devolução.

Eu não me lembrava de ter enviado currículo para nenhuma vaga, mas resolvi entrar em contato porque parecia uma oportunidade de renda extra
— Ester Nunes, vítima do golpe
O criminoso cria uma relação de confiança pagando pelas primeiras tarefas. Depois, começa a exigir depósitos para liberar novas atividades ou supostos lucros
— Jonathan Ramos, pesquisador de segurança da ESET Brasil
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