Nas altitudes silenciosas dos Alpes suíços, o gelo que levou milénios a formar-se continua a desaparecer a um ritmo que a ciência nunca havia registado com tanta frequência. Em 2026, os glaciares da Suíça perderam 5,5% do seu volume — a segunda maior queda percentual de sempre —, impulsionados por ondas de calor que os especialistas atribuem integralmente à ação humana sobre o clima. Nos últimos cinco anos, quase um quinto do gelo suíço desapareceu, e os cientistas advertem que, sem mudanças profundas nas emissões globais, estes monumentos naturais não têm futuro a longo prazo.
Glaciares suíços perdem 5,5% do volume de gelo em ano de ondas de calor recorde
Os glaciares alpinos não têm qualquer hipótese de sobreviver a longo prazo
Porque é que 5,5% é considerado a segunda maior queda? O que aconteceu em 2022 que foi pior?
Em 2022, os glaciares perderam mais do que isto. Nesse ano, houve uma combinação perfeita de fatores — calor extremo, pouca neve no inverno, e poeira do Saara que escureceu o gelo e o fez absorver mais calor. Este ano foi grave, mas 2022 foi ainda pior.
Mas espera — o artigo diz que nos últimos cinco anos perderam quase um quinto do volume total. Se 5,5% é a segunda maior queda anual, isso significa que a perda está a ser distribuída de forma desigual entre os anos. Alguns anos são piores que outros?
Exatamente. Há variação ano a ano, mas a tendência geral é de aceleração. O que preocupa os especialistas é que mesmo os anos "melhores" agora são piores do que os anos "piores" de há uma década.
Matthias Huss diz que o aquecimento pode ser atribuído a 100% às alterações climáticas antropogénicas. Como é que ele consegue ser tão preciso nessa percentagem?
Essa é uma afirmação forte. O artigo não explica a metodologia por trás dessa percentagem. Pode ser baseada em modelos climáticos, mas a forma como é apresentada — "tão simples quanto isso" — simplifica um processo científico complexo.
Huss é glaciologista no ETHZ, uma instituição de topo. Provavelmente está a basear-se em consenso científico estabelecido sobre a atribuição de mudanças climáticas. Mas tens razão em questionar como se chega a esse número exato.
A neve é importante por dois motivos, segundo Huss. Protege o gelo e também cria novo gelo. Se não há neve, o glaciar está condenado?
Basicamente, sim. Sem neve a acumular-se nas altitudes mais elevadas, o glaciar não consegue repor o que perde. É um ciclo que se quebrou.
O artigo menciona que equipas espalharam corante vermelho nos riachos para rastrear fluxos de água. Isso é observação, não previsão. Sabemos o que está a acontecer agora, mas o artigo não diz nada sobre quanto tempo os glaciares têm antes de desaparecerem completamente.
Verdade. O alerta é que não têm hipótese de sobreviver a longo prazo, mas "a longo prazo" é vago. Pode ser décadas ou séculos, dependendo de como as emissões evoluem.
O colapso da encosta nos Himalaias em agosto — isso foi causado diretamente pelo aquecimento global?
O artigo diz que o aquecimento global "contribuiu para desestabilizar" a encosta. Isso é diferente de dizer que o causou. Pode haver múltiplos fatores envolvidos. A linguagem é cuidadosa, mas ainda assim sugere uma ligação causal que pode ser mais complexa.
El Pulso
- Ondas de calor recorde varreram a Europa em 2026, reduzindo a espessura média dos glaciares suíços entre 2,5 e 4 metros num único ano.
- Glaciares emblemáticos como o Aletsch — o maior dos Alpes — registaram alguns dos maiores derrames de gelo da sua história documentada, sinalizando uma crise sem precedentes.
- Nos últimos cinco anos, quase um quinto do volume total de gelo suíço evaporou-se, revelando uma aceleração dramática de uma tendência já preocupante.
- Equipas científicas percorrem os Alpes a medir fendas e fluxos de água, despejando corante vermelho em riachos para rastrear a magnitude do colapso em curso.
- Especialistas são inequívocos: sem redução significativa das emissões de combustíveis fósseis, os glaciares alpinos não conseguirão sobreviver — e a Europa, que aquece mais depressa do que qualquer outra região do mundo, sentirá as consequências.
Nas altitudes silenciosas dos Alpes suíços, o gelo que levou milénios a formar-se continua a desaparecer a um ritmo que a ciência nunca havia registado com tanta frequência. Em 2026, os glaciares da Suíça perderam 5,5% do seu volume — a segunda maior queda percentual de sempre —, impulsionados por ondas de calor que os especialistas atribuem integralmente à ação humana sobre o clima. Nos últimos cinco anos, quase um quinto do gelo suíço desapareceu, e os cientistas advertem que, sem mudanças profundas nas emissões globais, estes monumentos naturais não têm futuro a longo prazo.
Os glaciares suíços perderam 5,5% do seu volume de gelo em 2026, a segunda maior queda percentual alguma vez registada. Ondas de calor recorde que varreram a Europa ao longo do ano aceleraram um degelo que os especialistas já não hesitam em ligar diretamente às alterações climáticas de origem humana. Matthias Huss, responsável pelo serviço de monitorização GLAMOS, foi categórico: sem as emissões de combustíveis fósseis, não haveria aquecimento desta magnitude. A Academia Suíça de Ciências reforçou o alerta, concluindo que os glaciares alpinos não têm hipótese de sobreviver a longo prazo nas condições atuais.
Os números concretos são impressionantes: a espessura média dos glaciares individuais recuou entre 2,5 e 4 metros, e glaciares icónicos como o Allalin, o Rhône e o Aletsch — o maior dos Alpes — registaram perdas históricas. Para avaliar a dimensão do fenómeno, equipas de especialistas espalharam-se pelas montanhas, despejando corante vermelho em riachos para rastrear os fluxos de água derretida e medir as fendas abertas pelo degelo.
O que torna 2026 particularmente alarmante é o contexto: nos últimos cinco anos, o volume total de gelo na Suíça diminuiu quase um quinto. O recorde anterior datava de 2022, quando calor intenso, pouca neve invernal e poeira do Saara que escureceu os glaciares — fazendo-os absorver mais calor solar — se combinaram de forma devastadora. Huss sublinhou que a neve de inverno é essencial não apenas para proteger o gelo antigo, mas também para gerar novo gelo a grandes altitudes. Sem essa acumulação, os glaciares não conseguem repor o que perdem.
O colapso suíço não é um caso isolado: satélites documentam o encolhimento acelerado dos glaciares na Gronelândia e na Antártida, e em agosto uma encosta nos Himalaias colapsou, provocando inundações mortais no Nepal. A Suíça concentra a maior parte do gelo glaciar dos Alpes e funciona como um indicador crítico da saúde climática europeia — num continente que aquece mais rapidamente do que qualquer outro no planeta. A mensagem dos cientistas é clara e urgente: sem uma redução significativa das emissões globais, este gelo não tem futuro.
Os glaciares da Suíça encolheram 5,5% do seu volume de gelo ao longo de 2026, marcando a segunda maior perda percentual jamais documentada. O recuo foi impulsionado por ondas de calor recorde que varreram a Europa durante o ano, deixando os especialistas em alerta sobre o futuro das massas de gelo que dominam os Alpes.
Matthias Huss, responsável pelo serviço suíço de monitorização de glaciares GLAMOS, foi direto sobre a causa: o aquecimento que se observa agora pode ser atribuído integralmente às alterações climáticas provocadas pela atividade humana. Sem as emissões de combustíveis fósseis, disse, não haveria qualquer aquecimento neste momento. A Academia Suíça de Ciências acompanhou esta avaliação num comunicado divulgado no início de outubro, alertando que os glaciares alpinos não têm qualquer hipótese de sobreviver a longo prazo sob as condições climáticas atuais.
O degelo extremo deste ano traduziu-se em números concretos: a espessura média dos glaciares individuais diminuiu entre 2,5 e 4 metros. Glaciares emblemáticos como o Allalin, o Clarident, o Rhône e o Aletsch — o maior dos Alpes — registaram alguns dos maiores derrames de gelo da sua história documentada. Equipas de especialistas espalharam-se pelos Alpes para avaliar o escoamento e as fendas causadas pela água corrente, despejando corante vermelho nos riachos para rastrear os fluxos e compreender a magnitude do fenómeno.
O que torna este ano particularmente grave é a aceleração da tendência. Nos últimos cinco anos, o volume total de gelo na Suíça diminuiu quase um quinto — uma taxa de perda que revela como o problema se agravou rapidamente. O recorde anterior de degelo ocorreu em 2022, quando uma combinação de calor estival intenso, fraca precipitação de neve no inverno e uma dispersão invulgar de poeira avermelhada trazida do Saara escureceram os glaciares, fazendo com que absorvessem mais calor solar.
Huss explicou por que a cobertura de neve invernal é crítica para a sobrevivência dos glaciares. A neve protege o gelo exposto do degelo — quanto mais tempo houver neve, mais tempo se evita a perda do gelo antigo. Mas a neve também serve outro propósito: gera novo alimento para o glaciar. Quanto mais neve existir, maior é o potencial de manter parte dela a grandes altitudes e formar novo gelo. Sem essa acumulação, os glaciares não conseguem repor o que perdem.
O colapso dos glaciares suíços não é um fenómeno isolado. Os especialistas apontam para o aquecimento global como fator desestabilizador de encostas montanhosas noutras regiões — em agosto, uma encosta dos Himalaias colapsou, provocando inundações catastróficas e mortais no Nepal. Os satélites documentaram um enorme encolhimento dos glaciares na Gronelândia e na Antártida ao longo do último meio século, confirmando que o recuo do gelo é um fenómeno planetário.
O que distingue a Suíça é que os seus glaciares integram a maior parte do gelo glaciar dos Alpes, tornando-os um indicador crítico da saúde do continente europeu — que aquece mais rapidamente do que qualquer outra região do mundo. A mensagem dos especialistas é clara: sem uma redução significativa das emissões de gases de efeito estufa, os glaciares alpinos não conseguirão sobreviver.
Citas Notables
O aquecimento que estamos a viver agora pode ser atribuído a 100% às alterações climáticas antropogénicas. Sem as emissões humanas ou os combustíveis fósseis, não teríamos qualquer aquecimento neste momento.— Matthias Huss, responsável do GLAMOS
A neve protege o gelo exposto do degelo e também é importante para gerar novo alimento para o glaciar. Quanto mais neve existir, maior será o potencial de manter parte da neve a grandes altitudes e formar novo gelo.— Matthias Huss