Gilmar alerta para risco de R$ 24 bi ao SUS com precatórios de hospitais

Potencial desassistência no SUS em decorrência da ausência de recursos financeiros caso as condenações judiciais se concretizem em larga escala.
Reduzirá a capacidade de investimento em políticas públicas de saúde
Gilmar alertou sobre o impacto de R$ 24 bilhões em condenações judiciais no orçamento do Ministério da Saúde.
Mark

Por que Gilmar está tão preocupado com isso agora? Isso é novo?

Mimi

Não é novo, mas está crescendo. Desde 2022 e 2023, cerca de 1.750 casos foram apresentados. O Ministério da Saúde gastou R$ 111,9 milhões em 2023 só com condenações. Gilmar está vendo o padrão se repetir e quer que a corte estabeleça uma regra clara antes que vire uma avalanche.

Luke

Mas qual é exatamente o número que importa aqui? Os R$ 24 bilhões são uma projeção do que poderia acontecer se todos os hospitais processassem, ou é uma estimativa do que já está em risco?

Mimi

É uma projeção. O Ministério da Saúde calculou: se todos os prestadores de serviços do SUS decidissem judicializar com base nesse entendimento, seria R$ 24,5 bilhões por ano. Mas hoje, em 2026, o gasto real é muito menor.

Mark

E por que os hospitais estão pedindo a tabela Tunep em vez da tabela SUS?

Mimi

Porque a Tunep — a tabela dos planos de saúde — paga muito mais. Os hospitais argumentam que estão fazendo o mesmo trabalho, então deveriam receber o mesmo valor. É uma questão de equidade de remuneração.

Luke

Mas o Ministério da Saúde diz que a Tunep é só para planos de saúde, e que os contratos com hospitais são responsabilidade de estados e municípios, não da União. Então há uma questão jurídica real aqui sobre quem é o devedor.

Mimi

Exatamente. E é por isso que Gilmar quer que o Supremo decida se isso tem repercussão geral — para estabelecer uma regra que valha para todo o país, em vez de deixar cada tribunal decidir de um jeito.

Mark

Qual é o problema com o Banco Master que Gilmar mencionou?

Mimi

Gilmar observou que muitos desses precatórios não ficam com os hospitais originais. Eles são vendidos e concentram-se em instituições financeiras como o Banco Master, que os usam para inflar seus balanços. Isso levanta questões sobre especulação financeira com dívidas públicas.

Luke

Mas Gilmar não nomeou o Banco Master diretamente no ofício. E há um histórico aqui: ele se reuniu com Daniel Vorcaro, o dono do Master, em abril de 2024, e depois votou contra a posição que Vorcaro defendia. Isso é importante para entender possíveis conflitos de interesse, mas não está claro no documento.

Mark

Então qual é o próximo passo?

Mimi

Gilmar quer levar a questão ao plenário virtual do Supremo para decidir sobre repercussão geral. Se conseguir os votos, a corte vai estabelecer uma regra que vincula todos os tribunais. Enquanto isso, pediu ao STJ que julgue rápido um caso similar, e determinou que todos os tribunais apertem o controle sobre como expedem precatórios.

  • Processos sobre revisão de tabela SUS podem gerar impacto de R$ 24 bilhões ao ano no orçamento do Ministério da Saúde
  • Cerca de 1.750 casos foram apresentados em 2022 e 2023; União gastou R$ 111,9 milhões em 2023 com condenações
  • Gilmar Mendes acionou presidentes do STF (Edson Fachin) e STJ (Luis Felipe Salomão) em 30 de setembro de 2026
  • Precatórios estão concentrados em instituições financeiras como o Banco Master, não nas entidades hospitalares originais

Processos envolvendo revisão da tabela SUS por hospitais privados e filantrópicos podem gerar impacto anual de cerca de R$ 24 bilhões ao orçamento do Ministério da Saúde. Gilmar citou preocupações com expedição irregular de precatórios e concentração de créditos em reduzido número de agentes econômicos, sem citar diretamente o Banco Master.

Ministro Gilmar Mendes acionou presidentes do STF e STJ sobre ações judiciais de hospitais que podem impactar R$ 24 bilhões do orçamento do SUS através de precatórios relacionados à revisão de tabelas de remuneração.

O ministro Gilmar Mendes movimentou-se nesta quarta-feira (30 de setembro) para alertar sobre um risco financeiro que ele avalia como potencialmente devastador para o Sistema Único de Saúde. Em ofícios dirigidos aos presidentes do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça, Gilmar acionou Edson Fachin e Luis Felipe Salomão pedindo que as cortes se debrucem sobre uma questão que envolve hospitais privados e filantrópicos — e que pode custar ao Ministério da Saúde cerca de R$ 24 bilhões por ano.

O cerne da controvérsia é técnico, mas suas consequências são concretas. Hospitais privados e entidades filantrópicas, como Santas Casas, que prestam serviços complementares ao SUS, vêm acionando a Justiça para reivindicar remuneração pela tabela Tunep — a tabela usada para calcular ressarcimentos de planos de saúde — em vez de receberem pelos valores da tabela do SUS, que é significativamente menor. Quando essas entidades vencem na Justiça, a União é condenada ao pagamento de dívidas judiciais, os chamados precatórios. Segundo documento da consultoria jurídica do Ministério da Saúde de fevereiro de 2025, cerca de 1.750 casos desse tipo foram apresentados em 2022 e 2023, e a União já gastou R$ 111,9 milhões em 2023 apenas com essas condenações.

Gilmar argumenta que o risco é ainda maior. Se todos os prestadores de serviços do SUS — públicos e privados — decidissem judicializar suas demandas com base nesse mesmo entendimento, o Ministério da Saúde poderia ter de desembolsar R$ 24,5 bilhões adicionais por ano. Esse valor foi estimado a partir do ajuste da verba repassada para estados e municípios em 2023 para pagamento de serviços de média e alta complexidade. O ministro expressou preocupação não apenas com o volume de recursos, mas também com o que chamou de "expedição irregular de precatórios pelo Poder Judiciário" — inclusive antes das ações transitarem em julgado.

Há outro aspecto que inquieta Gilmar: a concentração desses créditos judiciais em poucas mãos. Sem nomear diretamente, o ministro referiu-se ao Banco Master, de Daniel Vorcaro, observando que parcela significativa dos precatórios expedidos já não permanece nas mãos das entidades hospitalares originais, mas é negociada e concentrada em instituições financeiras que as utilizam para inflar seus balanços. Essa observação ganha peso à luz de um encontro que Gilmar teve com Vorcaro em abril de 2024 — encontro que veio à tona publicamente e gerou questionamentos sobre conflitos de interesse. Na ocasião, o Banco Master mantinha bilhões em créditos de precatórios, particularmente do setor sucroalcooleiro. Gilmar votou contra o entendimento que Vorcaro defendia.

O ministro pretende levar a questão ao plenário virtual do Supremo para que a corte decida se o tema tem repercussão geral — ou seja, se a decisão deve vincular todas as instâncias da Justiça. Em 2022, sob a presidência de Luiz Fux, o Supremo havia entendido que não era o caso. Mas Gilmar argumenta que aquela análise não alcançou os oito votos necessários para rejeitar a repercussão geral, abrindo caminho para revisão. "A eventual necessidade de destinar recursos dessa magnitude ao pagamento da obrigação, com efeitos financeiros retroativos, reduzirá a capacidade de investimento da União em políticas públicas de saúde, com consequências diretas para a população brasileira", escreveu no ofício a Fachin.

O Ministério da Saúde, em seu próprio documento, alertou que as condenações em larga escala podem gerar "desassistência em decorrência da ausência de recursos financeiros" para o SUS. A pasta também observou que as ações judiciais não propõem ampliação de ofertas de serviços ou melhoria de acesso para usuários do sistema — trata-se puramente de reajuste de tabelas de remuneração. Do ponto de vista da União, a Tunep serve apenas para calcular ressarcimentos de planos de saúde, e a responsabilidade pelos contratos e convênios com entidades privadas de saúde recai sobre estados e municípios, não sobre o governo federal.

Como resultado dos ofícios de Gilmar, o presidente do Supremo também determinou medidas de aperto no controle e na fiscalização da emissão de precatórios que devem ser adotadas por todos os tribunais do país. Simultaneamente, Gilmar pediu ao STJ que julgasse o mais rápido possível um processo que também aborda a revisão das tabelas, e na terça-feira anterior havia solicitado uma inspeção extraordinária nos tribunais regionais federais para rastrear possíveis irregularidades. O que estava em discussão técnica nos corredores do Judiciário agora ocupa a agenda dos presidentes das duas maiores cortes do país.

A eventual necessidade de destinar recursos dessa magnitude ao pagamento da obrigação, com efeitos financeiros retroativos, reduzirá a capacidade de investimento da União em políticas públicas de saúde, com consequências diretas para a população brasileira
— Ministro Gilmar Mendes, em ofício ao presidente do STF
As condenações podem gerar desassistência em decorrência da ausência de recursos financeiros para o SUS
— Ministério da Saúde, em documento de fevereiro de 2025
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