Gestor descarta cenário de dólar a R$ 6 mesmo com reeleição de Lula, argumentando que governo faz ajustes quando situação fica crítica. Armor Capital evita apostas direcionais no Brasil até primeiro turno, preferindo operações de curto prazo e posições no exterior.
Gestor da Armor Capital descarta ajuste fiscal com Lula reeleito, mas vê dólar contido
Quando a coisa aperta, o governo faz a lição de casa
Por que o gestor descarta um dólar a R$ 6 se ele mesmo projeta deterioração fiscal?
Porque ele vê um padrão histórico: quando a situação fica realmente crítica, o governo age. Não é otimismo, é observação de 40 anos de ciclos. O Brasil já passou por crises piores.
Mas isso assume que o governo terá espaço político e capacidade para agir. Em 2024, o pacote de corte de gastos foi anunciado junto com uma isenção de IR — sinais mistos. Como ele sabe que 2028 será diferente?
Ele não sabe. Por isso a Armor não está fazendo apostas direcionais fortes no Brasil. Está esperando.
E no exterior, por que vender petróleo se o Brasil depende dos preços altos?
Porque globalmente a demanda está crescendo mais lentamente que a produção. A transição energética está acontecendo. Quando o Irã se acalmar, a oferta aumenta ainda mais.
Mas a projeção de US$ 60 por barril é dele ou de consenso? Se for dele sozinho, é um risco concentrado.
É a visão dele. E sim, é um risco. Se o Irã continuar instável, os preços podem não cair como espera.
Por que ele está comprado em bancos americanos de varejo e não de investimento?
Porque os bancos de varejo têm mais espaço para ganhos de eficiência com IA em operações de crédito e processamento. Os de investimento já têm margens altas e menos para otimizar.
Isso assume que a IA vai realmente gerar ganhos de eficiência mensuráveis e que os bancos vão passar isso para o resultado. Ainda é especulação.
Verdade. Mas é uma aposta mais fundamentada que simplesmente comprar as Sete Magníficas, que já subiram muito.
E o real? Ele disse que é resiliente mas frágil. Como isso se traduz em posição?
Não se traduz. Ele não está apostando forte no real. Está esperando. Se o petróleo cair, o real cai com ele, e aí talvez haja oportunidade. Mas por enquanto, não há convicção.
The Pulse
- Alfredo Menezes, presidente e CIO da Armor Capital
- Descarta cenário de dólar a R$ 6 mesmo com reeleição de Lula
- Projeta deterioração fiscal para 2028-2029
- Armor está vendida em petróleo e Treasuries, comprada em bancos americanos e prata
- Maior aposta cambial é venda do peso mexicano
Gestor descarta cenário de dólar a R$ 6 mesmo com reeleição de Lula, argumentando que governo faz ajustes quando situação fica crítica. Armor Capital evita apostas direcionais no Brasil até primeiro turno, preferindo operações de curto prazo e posições no exterior.
Alfredo Menezes, da Armor Capital, projeta que reeleição de Lula não causará colapso cambial, mas antecipa deterioração fiscal futura. Gestor mantém posições defensivas no Brasil enquanto aposta em oportunidades no exterior.
Alfredo Menezes, presidente e diretor de investimentos da Armor Capital, não acredita que a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva provocará um colapso cambial no Brasil, mesmo diante de perspectivas fiscais sombrias. Em entrevista, o gestor descartou explicitamente um cenário em que o dólar chegue a R$ 6, argumentando que o governo brasileiro, historicamente, implementa medidas corretivas quando a situação se torna insustentável. "Já vi várias vezes falarem que Brasil ia quebrar, mas quando a coisa aperta o governo faz a lição de casa", disse Menezes, resumindo uma confiança baseada em padrões de comportamento dos últimos 40 anos.
No entanto, essa confiança não se traduz em otimismo sobre os próximos quatro anos. Menezes projeta que um quarto mandato de Lula enfrentará deterioração fiscal progressiva, especialmente porque o presidente não possui um sucessor claro dentro do PT. O gestor espera um ambiente semelhante ao vivido em 2024, quando o dólar disparou e os juros subiram significativamente após a frustração com o pacote de corte de gastos anunciado junto com a proposta de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. Segundo sua avaliação, esse ciclo tende a se repetir: o quadro fiscal se deteriorará, a inflação subirá — provavelmente entre 2028 e 2029 — e somente quando a situação ficar crítica o governo tomará medidas corretivas.
O desafio, na visão de Menezes, reside na estrutura tributária brasileira já saturada. O país possui uma carga de impostos elevada, o que limita significativamente a margem para aumentar receitas. Isso significa que qualquer ajuste fiscal futuro terá de vir principalmente pela redução de despesas, um caminho politicamente mais árduo e que o governo tem evitado. Diante dessa incerteza sobre o timing e a magnitude dos ajustes, a Armor Capital adotou uma postura defensiva no Brasil. A gestora prefere não fazer apostas direcionais fortes até o primeiro turno das eleições, mantendo-se em operações de curto prazo, como day trade, ou em estratégias de arbitragem que compram uma ação enquanto vendem outra. O grosso de suas posições está alocado no exterior.
No mercado internacional, Menezes identifica uma competição agressiva por recursos entre o governo americano e grandes empresas de tecnologia, ambas buscando financiamento para investimentos em inteligência artificial. Essa disputa pressiona juros e crédito globalmente, inclusive no Japão, historicamente conhecido por taxas baixas. A Armor está posicionada defensivamente nesse cenário, vendida em Treasuries americanos — ou seja, apostando que a curva de juros subirá ainda mais — e tomada em juros americanos. A gestora também está vendida em petróleo, prevendo que a demanda crescerá bem abaixo da produção conforme a transição para energia limpa avança e países como Brasil e Venezuela ampliam sua oferta. Menezes projeta que assim que o conflito no Irã terminar, os preços do barril cairão rapidamente, chegando a US$ 60 no próximo ano.
Na bolsa americana, Menezes considera que as Sete Magníficas — as grandes empresas de tecnologia — já subiram bastante impulsionadas pela IA, e que agora o foco deve se deslocar para as empresas usuárias dessa tecnologia. Ele vê oportunidades especialmente no setor financeiro, onde a automação de serviços não braçais — em bancos, seguradoras, escritórios jurídicos e contabilidade — deve gerar ganhos significativos de eficiência. Por isso, a Armor está comprada em bancos americanos de varejo, que devem capturar ganhos marginais maiores com tecnologia do que os bancos de investimento. A gestora também está comprada em prata, metal cada vez mais utilizado na indústria de semicondutores e energia solar.
No câmbio, Menezes espera que moedas emergentes e o euro sofram com a alta dos juros americanos, que tende a fortalecer o dólar. A maior aposta cambial da Armor é a venda do peso mexicano — uma posição que se beneficia de uma taxa de juros menor no México, facilitando o carregamento da operação, além da dependência econômica do país em relação aos Estados Unidos. A gestora também está vendida em euro. Quanto ao real, Menezes o avalia como uma das moedas emergentes mais resilientes atualmente, principalmente graças aos preços elevados do petróleo. Porém, reconhece que essa resiliência é frágil: se o conflito no Irã terminar e os preços do petróleo caírem, o real sofrerá pressão.
No Brasil, as posições da Armor são limitadas e focadas em arbitragem entre bancos. A gestora compra ações de instituições que devem se beneficiar do uso de IA e vende as que terão ganhos menores de produtividade. Menezes também relata cautela com crédito nos bancos de varejo, evitando especialmente aqueles que trabalham com as classes C e D, segmentos que devem sofrer mais com inadimplência. Fora essas operações pontuais, a gestora mantém-se principalmente no giro diário em outros mercados até a eleição, quando então definirá sua estratégia de longo prazo. A postura reflete uma espera cautelosa: confiança de que o Brasil não entrará em colapso, mas ceticismo sobre a trajetória fiscal nos próximos anos e preferência por oportunidades mais claras no exterior.
Notable Quotes
Já vi várias vezes falarem que Brasil ia quebrar, mas quando a coisa aperta o governo faz a lição de casa— Alfredo Menezes, Armor Capital
Não acredito que ele, no quarto mandato, vai fazer algum ajuste fiscal— Alfredo Menezes, sobre Lula