Obesidade praticamente dobrou em menos de uma década: de 16,2% aos 22 anos para 32,9% aos 30 anos entre os participantes. Transtornos mentais comuns aumentaram de 22% para 38,2%, com ansiedade e depressão afetando desproporcionalmente as mulheres.
Geração de 1993 aos 30 anos: mais educação e trabalho, mas obesidade e transtornos mentais em alta
Os efeitos do tabagismo já podem ser identificados muito cedo
Como é possível que uma geração tenha avançado tanto em educação e trabalho, mas piorado tanto em saúde?
Porque educação e emprego não são a mesma coisa que bem-estar. Essa geração conquistou mais anos de estudo e mais acesso ao mercado de trabalho, mas isso aconteceu dentro de um contexto de transformações nas formas de viver, comer e trabalhar que prejudicaram a saúde.
Mas precisamos ser cuidadosos aqui. O estudo mostra correlação temporal, não necessariamente causalidade. A obesidade dobrou, sim, mas não sabemos exatamente o quê mudou nas vidas dessas pessoas entre os 22 e os 30 anos.
Verdade. Mas os pesquisadores apontam que quando um indicador se move assim numa geração inteira, não é provável que seja apenas escolha individual. Tem a ver com as condições em que a população vive, trabalha, se alimenta.
E as mulheres parecem estar em situação pior, certo? Mais ansiedade, mais depressão, e ainda assim mais educadas.
Exatamente. As mulheres têm indicadores educacionais superiores — 48,4% completaram 12 anos ou mais de escolaridade, contra 38,1% dos homens. Mas a ansiedade entre elas é quase o dobro da dos homens, e a depressão também é muito mais alta.
Isso pode estar relacionado ao fato de que 41,4% das mulheres sem trabalho deixaram o emprego para cuidar de filhos, enquanto apenas 0,9% dos homens fizeram o mesmo. Há uma sobrecarga desproporcionalmente sobre as mulheres.
Sim. E isso limita sua permanência no mercado de trabalho, mesmo com mais educação. É um padrão que os pesquisadores identificaram claramente.
E quanto aos números de obesidade? Dobrar em menos de uma década é realmente alarmante.
É, mas vale notar que esses números não vieram de autorrelato. Foram medições presenciais com métodos de alta precisão — DXA, BodPod. Então temos confiança nos dados.
E quando você soma sobrepeso e obesidade, chega a 66,5% dos participantes. Isso não é um problema individual; é um padrão populacional que aponta para mudanças estruturais.
O que vem a seguir? Isso vai continuar piorando?
O estudo não faz previsões. Mas os pesquisadores observam que doenças cardiometabólicas estão surgindo cada vez mais cedo nas gerações recentes. Isso é um sinal de alerta.
The Pulse
- Obesidade praticamente dobrou: de 16,2% aos 22 anos para 32,9% aos 30 anos
- Transtornos mentais comuns aumentaram de 22% para 38,2% entre as duas avaliações
- Ansiedade entre mulheres chegou a 28,7%, quase o dobro dos 14,9% entre homens
- 3.333 pessoas foram entrevistadas aos 30 anos na avaliação mais recente (2023-2024)
- 41,4% das mulheres sem trabalho deixaram emprego para cuidar de filhos em tempo integral
Obesidade praticamente dobrou em menos de uma década: de 16,2% aos 22 anos para 32,9% aos 30 anos entre os participantes. Transtornos mentais comuns aumentaram de 22% para 38,2%, com ansiedade e depressão afetando desproporcionalmente as mulheres.
Pesquisa de coorte de nascimentos em Pelotas mostra que geração nascida em 1993 alcançou maiores níveis educacionais e participação no trabalho aos 30 anos, mas enfrenta índices alarmantes de obesidade, transtornos mentais e tabagismo.
Aos 30 anos, a geração nascida em 1993 em Pelotas chegou a um ponto de inflexão. Mais educada, mais presente no mercado de trabalho — esses eram os ganhos claros. Mas a mesma coorte que começou a ser acompanhada desde os primeiros dias de vida pela Universidade Federal de Pelotas também carregava consigo um peso crescente de problemas de saúde que não existiam uma década antes. Entre 22 e 30 anos, a obesidade praticamente dobrou. Os transtornos mentais comuns quase dobraram também. O tabagismo seguia presente. Essa é a história que emergiu dos dados mais recentes da Coorte de Nascimentos de 1993, pesquisa que entrevistou 3.333 pessoas entre 2023 e 2024.
Os avanços educacionais foram reais. A média de anos de estudo cresceu de 9,8 para 10,3 entre os 22 e os 30 anos. Mas as mulheres saíram na frente: quase metade delas (48,4%) completou 12 anos ou mais de escolaridade formal, contra 38,1% dos homens. No mercado de trabalho, a participação subiu de 63% aos 22 anos para 75,7% aos 30. Aqui, porém, a história se complica. Entre as mulheres fora do mercado de trabalho, 41,4% disseram ter deixado o emprego para cuidar de filhos em tempo integral. Entre os homens, apenas 0,9% citou o mesmo motivo. Os homens sem ocupação apontavam falta de oportunidades (29%) ou problemas de saúde (18,8%). Para os pesquisadores, o padrão é claro: as tarefas de cuidado continuam recaindo de forma desproporcional sobre as mulheres, limitando sua permanência no mercado.
Mas foi a saúde física que chamou mais atenção. A proporção de participantes com obesidade passou de 16,2% aos 22 anos para 32,9% aos 30 — um aumento de praticamente 100% em menos de uma década. Quando somados os casos de sobrepeso e obesidade, o percentual chegava a 66,5% dos participantes. Esses números não vieram de autorrelato. Os pesquisadores realizaram avaliações presenciais com medição de peso, altura e circunferência da cintura, além de exames avançados como absorciometria por dupla energia (DXA) e pletismografia por deslocamento de ar (BodPod), métodos de alta precisão. A mudança foi tão rápida que os pesquisadores buscaram explicações estruturais, não individuais.
A saúde mental deteriorou ainda mais. Os transtornos mentais comuns avançaram de 22% para 38,2% entre as duas avaliações. As mulheres foram desproporcionalmente afetadas. A prevalência de ansiedade entre elas chegou a 28,7%, quase o dobro dos 14,9% observado entre os homens. A depressão também foi mais alta no público feminino: 9,2% das mulheres relataram a condição, contra 3,2% dos homens. A avaliação não se baseou apenas em questionários. Psicólogos treinados realizaram entrevistas presenciais e aplicaram instrumentos padronizados, incluindo a entrevista diagnóstica M.I.N.I., usada para identificar transtornos psiquiátricos específicos.
Os pesquisadores observaram também que 18,2% dos participantes apresentavam síndrome metabólica aos 22 anos — uma condição caracterizada pelo aumento da circunferência abdominal associado a pressão alta, alterações na glicemia ou nos níveis de colesterol e triglicerídeos. Helen Gonçalves, coordenadora da Coorte de 1993, ofereceu uma interpretação que vai além do comportamento individual. "Quando um indicador se move assim numa geração inteira, a explicação mais provável não deve estar nas escolhas de cada um, mas nas condições em que a população vive, trabalha, se alimenta", disse. Os pesquisadores avaliam que fatores relacionados às doenças cardiometabólicas estão surgindo cada vez mais cedo nas gerações recentes, em um contexto de transformações na alimentação, na prática de atividades físicas e nos hábitos de vida.
O tabagismo também deixou marcas mensuráveis. A pesquisa identificou que a exposição acumulada ao cigarro já estava associada à redução da função pulmonar aos 22 anos, relação que se manteve na avaliação aos 30 anos. Na avaliação mais recente, 17,7% dos participantes se declararam fumantes. Além disso, 12,8% informaram utilizar cigarro eletrônico diariamente. Larissa Picanço, pesquisadora autora do estudo sobre a relação entre carga tabágica e função pulmonar, destacou que os danos do cigarro aparecem muito antes da velhice. "Uma das mensagens mais importantes é que os efeitos do tabagismo já podem ser identificados muito cedo. A exposição vai se acumulando ao longo do tempo, e não é preciso chegar à velhice para que apareçam alterações mensuráveis na função pulmonar", afirmou.
O estudo original recrutou 5.249 participantes nascidos em Pelotas em 1993. Na avaliação realizada entre 2023 e 2024, 3.333 pessoas foram entrevistadas aos 30 anos. Considerando também os 242 óbitos identificados ao longo do acompanhamento, a taxa de retenção chegou a 68,1%. Os dados fazem parte de um esforço de três décadas para entender como as condições de vida moldam a saúde de uma geração inteira — e o que emergiu foi um retrato de ganhos educacionais e laborais ofuscados por uma deterioração rápida e generalizada da saúde física e mental.
Notable Quotes
Os dados mostram uma geração que chegou aos 30 anos com conquistas importantes em educação e trabalho, mas também com uma carga crescente de fatores de risco para a saúde— Helen Gonçalves, coordenadora da Coorte de 1993
Quando um indicador se move assim numa geração inteira, a explicação mais provável não deve estar nas escolhas de cada um, mas nas condições em que a população vive, trabalha, se alimenta— Helen Gonçalves