Em Coimbra, dois mil especialistas e a Ordem dos Psicólogos Portugueses reúnem-se para interrogar o que o trabalho significa quando uma geração inteira recusa deixar que ele defina quem é. A Geração Z não abandonou a ambição — redefiniu-a, colocando o equilíbrio entre vida e carreira no centro das suas escolhas. Este congresso é menos um debate técnico e mais um espelho: as organizações que não souberem ler este sinal enfrentarão, silenciosamente, o seu próprio esvaziamento.
Gen Z rejeita workaholism: novas gerações perdem centralidade no trabalho
O trabalho perdeu muita da sua centralidade como trave-mestra da existência
Porque é que a Gen Z rejeita tão claramente o modelo de trabalho que gerações anteriores aceitavam?
Porque cresceu num mundo onde viu os custos reais disso — burnout, ansiedade, famílias desfeitas. E tem poder de escolha que gerações anteriores não tinham. Pode sair.
Mas quanto disso é realmente uma mudança de valores e quanto é apenas que o mercado de trabalho está tão competitivo que as empresas têm de oferecer isso para atrair pessoas?
Provavelmente ambas as coisas. Os valores mudaram, mas a mudança só se manifesta porque há escassez de talento.
Ferreira da Silva diz que empresas que defendem workaholism terão dificuldades em recrutar. Isso é uma previsão ou já está a acontecer?
Ele fala em "dificuldades crescentes", o que sugere que já está a acontecer, mas não é ainda uma crise total.
Ele não apresenta dados sobre isso. É uma observação de um psicólogo, não uma estatística de mercado de trabalho.
E quanto à inteligência artificial? Parece ser uma ameaça real às lideranças?
A ameaça não é a IA em si, é a tentação de a usar para evitar o trabalho difícil de pensar, debater, discordar. É preguiça disfarçada de eficiência.
Mas ele não diz que as empresas estão a fazer isso. Diz que seria um erro. Há uma diferença entre avisar sobre um risco e documentar que o risco está a materializar-se.
Portugal ainda tem um problema sério com workaholism, certo?
Segundo ele, sim. Chama-lhe um "absurdo atávico" que persiste com impacto social, económico e psicológico forte.
Mas novamente, isso é uma avaliação qualitativa de um especialista, não uma medição sistemática da cultura portuguesa.
Il Polso
- A Geração Z está a abandonar ativamente empregadores que glorificam o excesso de trabalho, e as empresas ainda não perceberam a velocidade desta fuga.
- Num mundo hiperconectado, a reputação de uma organização dissemina-se em horas — e os jovens talentos consultam-na antes de aceitar qualquer proposta.
- A inteligência artificial generativa ameaça introduzir enviesamentos invisíveis nos processos de recrutamento, enquanto líderes cedem decisões críticas a algoritmos sem escrutínio.
- O mercado de coaching empresarial cresce sem regulação, com intervenções sem base científica a substituir práticas psicológicas fundamentadas.
- Especialistas apontam três imperativos urgentes para reter talento: lideranças que cumprem a palavra dada, planos de progressão realistas e ambientes que celebrem tanto a exigência como a vida pessoal.
Em Coimbra, dois mil especialistas e a Ordem dos Psicólogos Portugueses reúnem-se para interrogar o que o trabalho significa quando uma geração inteira recusa deixar que ele defina quem é. A Geração Z não abandonou a ambição — redefiniu-a, colocando o equilíbrio entre vida e carreira no centro das suas escolhas. Este congresso é menos um debate técnico e mais um espelho: as organizações que não souberem ler este sinal enfrentarão, silenciosamente, o seu próprio esvaziamento.
A Ordem dos Psicólogos Portugueses reuniu esta semana em Coimbra dois mil participantes para debater o futuro do trabalho e a relação das novas gerações com ele. O congresso, que conta com a presença da ministra da Saúde, Ana Paula Martins, aborda desde a revolução digital ao envelhecimento populacional, passando pela saúde mental e pela crise climática.
Jaime Ferreira da Silva, presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia do Trabalho, Social e das Organizações, é direto: para a Geração Z, o trabalho deixou de ser o eixo central da vida. Estas gerações escolhem ativamente organizações que ofereçam equilíbrio genuíno — e têm ferramentas para evitar as que não o fazem. Quem insistir em defender uma cultura de workaholism enfrentará dificuldades crescentes em recrutar e reter talento qualificado.
O desafio, porém, vai além da cultura do excesso. A inteligência artificial generativa levanta dilemas novos: o risco de enviesamento em triagens automáticas de candidaturas e a tentação de delegar decisões críticas a algoritmos. Paralelamente, cresce um mercado de coaching sem regulação, onde formações de fim de semana substituem indevidamente intervenções com fundamento científico.
Para competir num mercado global, Ferreira da Silva identifica três necessidades essenciais: lideranças coerentes onde a palavra se cumpre na prática, planos realistas de progressão profissional e ambientes que combinem exigência com feedback regular e espaço genuíno para a vida pessoal. Portugal, reconhece, ainda tem muito caminho a percorrer — a cultura do workaholism persiste como um resquício com custos profundos para a sociedade, a economia e a saúde psicológica das pessoas.
A Ordem dos Psicólogos Portugueses reúne esta semana em Coimbra dois mil participantes e especialistas para debater o futuro do trabalho e a forma como as novas gerações se relacionam com ele. O encontro, que decorre até ao final da semana, contará com a presença da ministra da Saúde, Ana Paula Martins, e abordará transformações que vão da revolução digital ao envelhecimento populacional, passando pela saúde mental, dependências, conflitos e crise climática.
Jaime Ferreira da Silva, presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia do Trabalho, Social e das Organizações, oferece uma perspectiva clara sobre o que está a mudar: para as novas gerações, particularmente a Gen Z, o trabalho deixou de ser o eixo central da vida. Estas gerações procuram e escolhem ativamente organizações que ofereçam equilíbrio genuíno entre a carreira e a vida pessoal. A mudança é tão profunda que Ferreira da Silva avisa diretamente os empregadores: quem insistir em defender práticas de workaholism enfrentará dificuldades crescentes em recrutar talento.
O contexto amplifica esta transformação. Num mundo hiperconectado, as notícias sobre líderes e suas práticas disseminam-se rapidamente. As organizações precisam estar atentas ao que as pessoas dizem sobre elas, porque essa reputação influencia quem aceita trabalhar lá. A Gen Z não apenas rejeita o excesso de trabalho — ela tem ferramentas para escolher onde não quer estar.
Mas o desafio vai além da cultura do workaholism. Ferreira da Silva identifica outras questões urgentes para o futuro do trabalho. A inteligência artificial generativa coloca dilemas novos às lideranças: desde o risco de enviesamento em triagens automáticas de candidaturas até à tentação de delegar decisões críticas a algoritmos. Há também o crescimento desregulado do coaching nas empresas, onde indivíduos sem formação académica adequada oferecem intervenções que carecem de fundamento científico. Um curso de fim-de-semana não prepara ninguém para intervir de forma sustentável na mudança de processos cognitivos e comportamentais.
Para reter talento num mercado cada vez mais competitivo e global, as organizações precisam de três coisas. Primeiro, lideranças coerentes e consequentes, onde a palavra dada se cumpra na prática. Segundo, planos realistas de progressão profissional, com assertividade para corrigir expectativas irrealistas. Terceiro, ambientes de trabalho saudáveis que combinem exigência e competição com feedback regular, celebração conjunta e espaço genuíno para a vida pessoal.
Ferreira da Silva reconhece que Portugal ainda tem muito a fazer neste último ponto. A cultura do workaholism persiste como um resquício atávico, com impactos profundos na sociedade, na economia e na saúde psicológica das pessoas. O congresso desta semana em Coimbra é, em parte, um sinal de que essa conversa está a mudar — mas a mudança nas práticas reais das empresas ainda está por vir.
Citazioni salienti
Quem defender o workaholism, terá dificuldades em contratar— Jaime Ferreira da Silva, presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia do Trabalho, Social e das Organizações
Para as novas gerações, sobretudo a Gen Z, o trabalho perdeu muita da sua centralidade como trave-mestra da existência— Jaime Ferreira da Silva