Geleira do Juízo Final pode elevar nível do mar em até 3 cm até 2100

O derretimento acelerado da geleira Thwaites ameaça elevar o nível dos oceanos, afetando potencialmente bilhões de pessoas em regiões costeiras e ilhas baixas.
A água quente do oceano alcança regiões profundas sob o gelo
Pesquisadores descobrem que infiltração oceânica em zona de aterramento estendida duplica estimativas de elevação do mar.
Mark

Por que essa estimativa de 3 centímetros é tão diferente das projeções que vínhamos usando?

Mimi

O estudo incorpora um processo que os modelos tradicionais representavam de forma inadequada: como a água oceânica quente penetra sob o gelo em uma zona muito mais extensa do que se pensava. Quando você expande essa zona de alguns quilômetros, o derretimento intensifica significativamente.

Luke

Mas espera — o estudo mantém as condições climáticas constantes entre 1996 e 2023. Isso não é um cenário realista. O planeta vai continuar aquecendo.

Mimi

Exato. Por isso os pesquisadores chamam isso de estimativa de limite inferior. É o que já está acontecendo, sem adicionar aquecimento futuro. Se o planeta aquecer, os números podem ser maiores.

Mark

E quanto à data de 2038 para o desprendimento da Crista Mouginot? Isso é uma previsão?

Mimi

Não é uma previsão definitiva. É um resultado que emerge das simulações com certas condições. A probabilidade de desprendimento até 2100 é de cerca de 60%, mas o momento exato depende de fatores que ainda não conseguimos medir com precisão.

Luke

Quais são esses fatores que faltam?

Mimi

O modelo não simula completamente a circulação da água sob a plataforma de gelo. Mantém a zona de aterramento com largura fixa, quando na realidade ela varia com as marés, a topografia e a pressão da água. E não inclui o efeito de grandes blocos se desprendendo e alterando a dinâmica.

Mark

Então o que os pesquisadores precisam fazer agora?

Mimi

Fazer medições diretas da temperatura, salinidade e circulação da água sob o gelo. Esses dados reais ajudariam a reduzir as incertezas e melhorar os modelos.

Luke

E enquanto isso, quanto tempo temos?

Mimi

Essa é a pergunta que ninguém consegue responder com certeza. O que sabemos é que a Thwaites já recuou 25 quilômetros desde meados dos anos 1990, e o processo está acelerando.

  • A Geleira Thwaites pode elevar o nível do mar em até 3 cm até 2100 — o dobro do que projeções anteriores indicavam —, ameaçando bilhões de pessoas em zonas costeiras.
  • O mecanismo central é a infiltração de água oceânica quente por vários quilômetros sob o gelo, um processo que modelos tradicionais representavam de forma inadequada e que intensifica o derretimento pela base.
  • Desde meados dos anos 1990, a porção ocidental da Thwaites já recuou cerca de 25 quilômetros, e simulações indicam 60% de probabilidade de que a geleira perca seu ponto de apoio na Crista Mouginot até 2100 — possivelmente já em 2038.
  • O novo modelo desenvolvido pela UC Irvine reproduziu com maior precisão as mudanças observadas entre 1996 e 2023, mas ainda não contempla a circulação oceânica completa nem variações dinâmicas da zona de aterramento.
  • Para reduzir as incertezas, os pesquisadores defendem medições diretas de temperatura, salinidade e circulação da água sob o gelo — dados que ainda não existem em escala suficiente.

No extremo sul do planeta, uma geleira conhecida como a Geleira do Juízo Final carrega em seu lento recuo uma das perguntas mais urgentes da era humana: até onde o mar pode subir? Um estudo publicado na Nature Communications por pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Irvine, revela que a infiltração de água oceânica quente sob a Geleira Thwaites — um mecanismo há muito subestimado — pode elevar o nível global dos oceanos em até 3 centímetros até 2100, o dobro das estimativas anteriores, mesmo sem aquecimento climático adicional. O que torna a descoberta ainda mais sóbria é que esse processo já está em curso, inscrito não em cenários futuros, mas no presente que herdamos.

A Geleira Thwaites, na Antártida Ocidental, carrega o apelido de Geleira do Juízo Final com alguma razão. Um estudo publicado na Nature Communications por pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Irvine, indica que ela pode elevar o nível médio global do mar em até 3 centímetros até 2100 — praticamente o dobro das estimativas que serviam de referência internacional. O mecanismo responsável por essa revisão é a infiltração de água oceânica quente sob o gelo, que intensifica o derretimento da base da geleira e acelera seu recuo.

O que distingue esse estudo é sua sobriedade: as simulações foram conduzidas com as condições climáticas médias observadas entre 1996 e 2023, sem incorporar aquecimento adicional. Isso significa que o processo já está acontecendo. O autor principal, Mattia Poinelli, explica que observações por satélite revelam uma zona de aterramento — a fronteira onde o gelo deixa de tocar o fundo do mar e começa a flutuar — que pode se estender por vários quilômetros, permitindo que água quente alcance regiões profundas sob o manto de gelo.

Os modelos tradicionais tratavam essa zona como uma fronteira estreita, subestimando a penetração da água oceânica. Ao ampliar essa representação, os pesquisadores obtiveram estimativas progressivamente maiores: sem a zona, 8,3 milímetros de elevação; com cinco quilômetros de extensão, 3,01 centímetros — compatível com observações recentes por satélite. Desde meados dos anos 1990, a porção ocidental da Thwaites já recuou cerca de 25 quilômetros.

Há ainda uma preocupação adicional: a geleira pode perder contato com a Crista Mouginot, formação do fundo do mar que funciona como ponto de sustentação. Nas simulações com zonas de aterramento entre quatro e seis quilômetros, a probabilidade desse desprendimento chegou a 60% até 2100, podendo ocorrer já em 2038. Os pesquisadores ressaltam, porém, que o modelo ainda não simula integralmente a circulação oceânica sob o gelo nem variações dinâmicas da zona de aterramento. Para avançar, defendem medições diretas de temperatura, salinidade e circulação da água sob a geleira — dados que poderão determinar com maior precisão o quanto o mar ainda tem a subir.

A Geleira Thwaites, na Antártida Ocidental, conhecida como a Geleira do Juízo Final, pode elevar o nível médio global do mar em até 3 centímetros até 2100 — praticamente o dobro das estimativas que vinham sendo usadas como referência internacional. A conclusão vem de um estudo publicado na revista Nature Communications por pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Irvine, e aponta para um mecanismo que os modelos científicos tradicionais ainda representam de forma inadequada: a infiltração de água oceânica quente sob o gelo, que intensifica o derretimento da base da geleira e acelera seu recuo.

O que torna essa descoberta significativa é que as simulações mantiveram as condições climáticas médias observadas entre 1996 e 2023, sem incorporar aquecimento adicional do planeta até o fim do século. Isso significa que os pesquisadores conseguiram quantificar um processo que já está acontecendo, independentemente de cenários futuros de mudança climática. Mattia Poinelli, principal autor do estudo, explicou que observações por satélite demonstram a existência de uma zona de aterramento — a região de transição onde o gelo deixa de estar apoiado no fundo do mar e começa a flutuar — que às vezes se estende por vários quilômetros. Nessa área, a água quente do oceano alcança regiões profundas sob o manto de gelo e provoca derretimento intenso.

Os modelos computacionais tradicionais representavam essa zona de aterramento como uma fronteira estreita, o que subestimava a quantidade de água oceânica que conseguia penetrar sob o gelo. Para corrigir essa limitação, os pesquisadores desenvolveram um modelo capaz de representar a infiltração de água por vários quilômetros sob a geleira. Ao comparar os resultados com observações realizadas entre 1996 e 2023, a equipe conseguiu reproduzir com maior precisão as mudanças registradas na espessura, na velocidade e na posição da geleira. Eric Rignot, coautor do estudo e professor de Ciências do Sistema Terrestre na Universidade da Califórnia, em Irvine, observou que a percepção crescente do que está acontecendo na parte inferior de geleiras como a Thwaites tem provocado uma sensação ainda maior de preocupação entre os cientistas.

Desde meados da década de 1990, a porção ocidental da Thwaites, onde o gelo se desloca mais rapidamente, recuou aproximadamente 25 quilômetros. Parte desse movimento é explicada pelo contato com a água do oceano. As simulações apresentaram resultados variáveis conforme a extensão da zona de aterramento representada no modelo: sem representação dessa zona, a elevação estimada era de 8,3 milímetros; com uma zona de aproximadamente um quilômetro, 1,43 centímetros; com três quilômetros, 1,94 centímetros; e com cinco quilômetros, 3,01 centímetros. O cenário de cinco quilômetros, compatível com observações recentes por satélite, apresentou uma incerteza de 5,7 milímetros.

Além de acelerar o derretimento, a entrada de água do oceano pode influenciar a estabilidade de uma região da geleira que permanece parcialmente apoiada na Crista Mouginot, uma formação do fundo do mar que funciona como ponto de sustentação para o gelo. Com o avanço do derretimento, a Thwaites pode perder contato com essa estrutura e recuar em direção à Crista Sul. Nas simulações que consideraram zonas de aterramento entre quatro e seis quilômetros de largura, a probabilidade de desprendimento da Crista Mouginot chegou a aproximadamente 60% até 2100, e esse desprendimento poderia ocorrer já em 2038. A data, porém, não representa uma previsão definitiva — o resultado depende das condições consideradas no modelo e da evolução dos processos que determinam o comportamento da geleira.

Os pesquisadores reconhecem que o modelo ainda não contempla todos os fatores capazes de influenciar a evolução da Thwaites. Uma das limitações é a ausência de mudanças na posição da frente de gelo provocadas pelo desprendimento de grandes blocos. A pesquisa utiliza ainda uma representação simplificada do derretimento causado pelo oceano, sem simular integralmente a circulação da água sob a plataforma de gelo. Outro ponto de incerteza está na extensão da zona de aterramento, que nas simulações foi mantida fixa, embora essa característica possa variar em função da topografia do fundo do mar, da inclinação do gelo, das marés e da pressão da água sob a geleira. Para reduzir essas incertezas, os pesquisadores defendem a realização de novas medições diretas da temperatura, da salinidade e da circulação da água sob o gelo, dados que poderão ajudar a determinar com maior precisão como a água oceânica avança sob a geleira e de que maneira esse processo interfere na perda de gelo e nas projeções de elevação do nível do mar.

A percepção crescente do que está acontecendo na parte inferior de geleiras como a Thwaites está provocando uma sensação ainda maior de preocupação
— Eric Rignot, coautor do estudo e professor de Ciências do Sistema Terrestre na Universidade da Califórnia, em Irvine
Observações por satélite demonstram a existência de uma zona de aterramento que às vezes tem vários quilômetros de largura, onde a água quente do oceano alcança regiões profundas sob os mantos de gelo e provoca derretimento intenso
— Mattia Poinelli, principal autor do estudo
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