Mulheres em Oxford e outras cidades inglesas veem regularmente seus abusadores em locais públicos, enquanto muitos cumpriram penas curtas ou nunca foram processados. Investigações revelaram que centenas de criminosos de gangues de aliciamento sexual operaram entre 1990 e 2010, com estimativas de mais de 370 crianças abusadas apenas em Oxford.
Gangues de exploração sexual infantil seguem impunes no Reino Unido décadas após crimes
Em qualquer lugar que você possa imaginar, você verá um homem que fez alguma coisa
Por que essas mulheres estão falando agora, décadas depois?
Porque viram seus abusadores em liberdade — no supermercado, na rua — e perceberam que a história oficial de "justiça feita" não corresponde à realidade. A BBC as procurou, e elas decidiram que era hora de contar a verdade.
Mas quantos desses homens que elas veem realmente abusaram delas? Ou são suspeitos que nunca foram processados? Há uma diferença importante.
Como é possível que tantos criminosos nunca tenham sido julgados?
As investigações foram inadequadas no início. A polícia não acreditava nas meninas. E quando as meninas eram drogadas e colocadas em quartos com vários homens, era extremamente difícil identificar quem fez o quê.
O ex-detetive Simon Morton diz que a identificação é "extremamente difícil". Isso é uma limitação real da investigação, não necessariamente uma falha de vontade.
E quanto aos homens que foram condenados? As penas foram justas?
Sarah acha que não. Seus três abusadores foram condenados a penas de cinco a vinte e quatro anos em 2020 — mais de vinte anos após os crimes. Para ela, deveriam ter ficado presos para sempre.
Mas é importante notar que vinte e quatro anos é uma pena significativa. A questão é se foi longa o suficiente, não se foi absurdamente curta.
Qual é o impacto duradouro disso tudo?
Dependência química, trauma emocional, incapacidade de cuidar de seus filhos. Sarah diz que não tem estado emocionalmente presente para seus filhos porque não está presente para si mesma. Chloe fica em pânico sobre como manter sua filha segura.
Isso é real e documentado. Mas também é importante notar que essas mulheres conseguiram construir vidas — elas têm filhos, elas falam publicamente. Não é uma história de destruição total, embora seja uma história de dano profundo.
O que a investigação do governo pode descobrir que já não sabemos?
Por que as autoridades falharam em proteger essas crianças. Se havia preconceito racial envolvido, como em Rotherham. Quais foram os fatores culturais e institucionais que levaram a que não se acreditasse nas meninas.
Mas a investigação não vai durar até 2029? Isso é muito tempo. E em Oxford especificamente, uma investigação minuciosa já não encontrou evidências de que preconceito racial foi um fator determinante, ao contrário de outras cidades.
Essas mulheres confiam na polícia agora?
Não. Rachel diz que um policial em Oxford tentou abusá-la. Chloe nunca denunciou seus abusadores à polícia. Há uma desconfiança profunda.
A polícia diz que "nunca é tarde demais para denunciar" e que ouvirá as vítimas. Mas as ações passadas — ou a falta delas — criaram uma barreira que as palavras não conseguem ultrapassar.
O Pulso
- Mais de 370 crianças foram abusadas em Oxford entre 1990 e 2010
- Três mulheres em Oxford veem regularmente seus abusadores em liberdade
- Investigação nacional do governo britânico com orçamento de 65 milhões de libras até 2029
- 21 homens condenados em conexão com a gangue de Oxford, mas muitos perpetradores nunca foram processados
Mulheres em Oxford e outras cidades inglesas veem regularmente seus abusadores em locais públicos, enquanto muitos cumpriram penas curtas ou nunca foram processados. Investigações revelaram que centenas de criminosos de gangues de aliciamento sexual operaram entre 1990 e 2010, com estimativas de mais de 370 crianças abusadas apenas em Oxford.
Sobreviventes de exploração sexual por gangues criminosas no Reino Unido relatam que muitos abusadores permanecem em liberdade após décadas, com penas curtas ou sem processamento, circulando livremente em suas comunidades.
Sarah caminha pela cidade onde cresceu e vê rostos que a assombram. Um homem numa loja. Outro num posto de gasolina. Um terceiro num restaurante. Cada um deles a abusou sexualmente quando era criança, forçada a se prostituir para uma gangue criminosa que a drogava com heroína desde os onze anos. Mais de vinte anos depois, ela continua vendo esses homens em liberdade — alguns cumpriram penas curtas de prisão, outros nunca foram sequer julgados. "Em qualquer lugar que você possa imaginar, você verá um homem que fez alguma coisa", conta ela à BBC.
Sarah é uma de três mulheres que sobreviveram a anos de exploração sexual em Oxford e que agora falam publicamente sobre o que sofreram. Junto com Chloe e Rachel, ela acredita que centenas de criminosos ainda circulam livremente pela cidade. Um ex-detetive que liderou a investigação inicial sobre as gangues de aliciamento sexual em Oxford concorda com essa avaliação. O que essas mulheres descrevem é parte de um escândalo nacional que se estende por décadas e por múltiplas cidades inglesas — Rotherham, Rochdale, Telford e Oxford entre elas. Entre os anos 1990 e 2010, grupos de homens exploraram e abusaram sexualmente de meninas menores de idade de forma sistemática. Uma estimativa de 2015 aponta que apenas em Oxford mais de 370 crianças foram vítimas.
O padrão de abuso era consistente e calculado. Os homens se aproximavam das meninas, ofereciam álcool e cigarros — frequentemente misturados com heroína — e depois diziam que elas estavam em dívida. Sarah descreve como os abusadores a forçavam a beber até vomitar, a trancavam em casas e a colocavam em quartos com colchões no chão enquanto uma série de homens entrava e saía durante o dia e a noite. Rachel foi traficada para outras cidades, onde homens pagavam à gangue para fazer sexo com ela. Chloe, abusada desde os treze anos, relata o mesmo ciclo: "Eles nos buscavam e havia um senhor desconhecido no carro, e então íamos para um apartamento. Exatamente como sempre — eles nos estupravam."
A resposta das autoridades foi inadequada e tardia. Sarah testemunhou contra três de seus abusadores em tribunal, e eles foram condenados em 2020 a penas que variaram de cinco a vinte e quatro anos — mais de duas décadas após os crimes. Rachel foi testemunha central no primeiro julgamento dos membros da gangue em 2013, quando sete homens foram condenados. Mas processos subsequentes revelaram que havia muito mais vítimas do que se pensava inicialmente. Apesar de um total de vinte e um homens já terem sido condenados em conexão com a gangue de Oxford, Rachel afirma que muitos outros perpetradores nunca enfrentaram consequências. Chloe, uma das vítimas ocultas da gangue, nunca teve nenhum de seus abusadores processado. Ela contou apenas a um pequeno grupo de pessoas o que lhe aconteceu.
As mulheres descrevem uma falha sistemática das autoridades em acreditar nelas. Rachel diz que durante anos a polícia não acreditava quando ela contava o que estava acontecendo. Um porta-voz da polícia da região do Vale do Tâmisa afirmou que as autoridades trabalham "incansavelmente" para investigar e processar os criminosos, e que "nunca é tarde demais para denunciar". Mas as mulheres permanecem céticas. Rachel relata que até mesmo um policial em Oxford tentou abusá-la — ele a colocou na parte de trás de uma viatura na rua Cowley e pediu que lhe fizesse sexo oral. Ela nunca denunciou o incidente.
O custo humano continua se desenrolando décadas depois. Sarah lutou contra o vício em drogas durante a maior parte de sua vida e já passou tempo na prisão. Ela diz que seu vício, que a acompanha por toda a vida, é resultado direto dos cigarros que seus aliciadores lhe davam. "Acho que eles deveriam ficar lá para sempre, porque obviamente tiraram a minha vida", diz ela. Chloe tornou-se mãe e diz que isso "me fez perceber o quão doentio foi o que eles fizeram". Ela fica em pânico em relação ao futuro e sobre como manter a vida de sua filha segura. Sarah não tem estado emocionalmente presente para seus filhos porque não está emocionalmente presente para si mesma. Quando vê seus abusadores em público — no supermercado, dirigindo pela cidade — Chloe sente "enjoo e frio".
Em abril deste ano, o governo britânico lançou uma investigação nacional para apurar por que crianças vulneráveis não foram protegidas na Inglaterra e no País de Gales. A investigação, que deve durar até 2029, tem um orçamento de sessenta e cinco milhões de libras e tentará responder perguntas que as próprias autoridades ainda não entendem: como as gangues operaram por tanto tempo, o que as forças policiais sabiam e o que fizeram com essas informações, e quais fatores culturais e institucionais levaram a que não se acreditasse no que muitas crianças disseram. Simon Morton, o ex-detetive que liderou a investigação inicial, admite que tanto ele quanto sua equipe falharam inicialmente em compreender o que estava acontecendo. "É uma loucura, é simplesmente absurda a quantidade de pessoas envolvidas", diz ele. "Deveríamos ter feito mais. É trágico."
Para Rachel, a percepção pública de que todos os perpetradores foram presos e a justiça foi feita "simplesmente não reflete o que realmente aconteceu". "Eu só quero que algo nessa escala nunca mais se repita", diz ela. "É o maior escândalo da minha vida."
Citações Notáveis
Acho que eles deveriam ficar lá para sempre, porque obviamente tiraram a minha vida— Sarah, sobrevivente de exploração sexual
Deveríamos ter feito mais. É trágico— Simon Morton, ex-detetive que liderou investigação inicial em Oxford