Gangue mata 47 e sequestra 50 no Haiti; líder ameaça executar reféns

Pelo menos 47 pessoas mortas, incluindo cinco crianças, mais de 50 sequestradas, 22 executadas em complexo de igreja, e uma adolescente estuprada durante o ataque.
Quando decidimos atacar, podemos atacar, e vamos conseguir
A mensagem que as gangues enviam ao governo haitiano através de ataques como o de Kenscoff.
Mark

Por que as gangues atacaram especificamente Kenscoff neste momento?

Mimi

Kenscoff é estratégica. Controlar a região permite cercar Pétion-Ville, a área mais rica de Porto Príncipe, e dominar rotas que ligam a capital ao sul do país. Mas há também uma dimensão política: o ataque é um recado ao governo e à polícia, que prometem melhorias de segurança antes das eleições em dezembro.

Mark

A ameaça de executar os reféns parece ser uma estratégia deliberada, não apenas uma intimidação.

Mimi

Exatamente. Cria uma armadilha perfeita. Se a polícia não age, é acusada de negligência. Se age e há mortes entre os criminosos, as gangues executam os reféns e culpam o Estado. É uma forma de paralisar a resposta do governo.

Mark

Qual é a escala real da crise de segurança no Haiti neste momento?

Mimi

Muito maior do que os números sugerem. Mais de 3 mil pessoas mortas entre janeiro e junho. 1,5 milhão deslocadas. Quase 800 estupros em um trimestre, a maioria coletivos. E muitos sequestros não são sequer denunciados porque as famílias negociam diretamente com os criminosos.

Mark

Por que as famílias preferem negociar diretamente?

Mimi

Acreditam que isso permite uma libertação mais rápida e evita represálias. Quando você não confia que a polícia pode proteger você ou seus parentes, você trata diretamente com quem tem o poder — neste caso, as gangues.

Mark

O que significa que 70% de Porto Príncipe está sob controle de gangues?

Mimi

Significa que o Estado perdeu o monopólio da violência. As gangues definem as regras, cobram taxas, decidem quem entra e sai. A polícia opera apenas em bolsões. É um colapso de autoridade estatal.

Mark

As eleições em dezembro podem mudar isso?

Mimi

Dificilmente. O ataque de domingo é uma mensagem de que as gangues não se importam com promessas políticas. Elas têm poder real. Qualquer governo eleito em dezembro herdará uma crise de segurança que não pode ser resolvida rapidamente.

  • 47 pessoas mortas, mais de 50 sequestradas em Kenscoff no domingo (23 de agosto)
  • Líder de gangue ameaçou executar todos os reféns se forças policiais avançarem
  • Gangues controlam 70% de Porto Príncipe e grandes áreas do Haiti central
  • 1,5 milhão de pessoas deslocadas pela violência de gangues
  • Eleições gerais marcadas para 13 de dezembro, primeira em mais de uma década

Ataque a Kenscoff foi um dos maiores sequestros em massa do Haiti, com 25 casas incendiadas e cinco crianças entre as vítimas. Ameaça de execução coloca forças de segurança em armadilha: inação deixa reféns em risco, ação pode resultar em mortes que gangues usarão contra Estado.

Organização criminosa atacou comunidade em Porto Príncipe, matando 47 pessoas e sequestrado mais de 50. Líder ameaçou executar reféns se forças policiais avançarem, criando dilema para governo haitiano.

No domingo passado, homens armados invadiram Kenscoff, uma comunidade nos arredores de Porto Príncipe que até então era considerada relativamente segura. O que se seguiu foi um dos maiores sequestros em massa já registrados no Haiti: pelo menos 47 pessoas mortas, mais de 50 levadas como reféns, 25 casas incendiadas. Entre os mortos estão cinco crianças. Vinte e duas das vítimas foram executadas em um complexo de uma igreja onde haviam procurado abrigo.

O ataque colocou o governo haitiano em uma encruzilhada sem saída. Um líder de gangue identificado como Izo 2 — que comanda operações em Kenscoff sob coordenação de Izo, um dos chefes criminosos mais poderosos do país — publicou um vídeo nas redes sociais dirigido a Vladimir Paraison, diretor da Polícia Nacional do Haiti. A mensagem era clara: se algum dos "soldados" da gangue fosse ferido durante operações de resgate, todos os reféns seriam mortos. Segundo Romain Le Cour, diretor do Observatório do Haiti, essa ameaça cria uma armadilha perfeita. Se as forças de segurança não agirem, serão acusadas de abandonar as vítimas. Se avançarem e houver mortes entre os criminosos, as gangues responsabilizarão o Estado pelos reféns que forem executados.

Marc Paul, morador de Kenscoff com 42 anos, viu seu irmão, madrasta, padrasto e dois primos serem sequestrados. Uma sobrinha de 16 anos também foi levada, estuprada, mas conseguiu escapar. Quando Paul fugiu durante o ataque, precisou correr sobre corpos. "Não consigo dormir sabendo que todas essas pessoas morreram", disse ele. Sua família já havia perdido a casa em outro ataque de gangues em janeiro de 2025, mas Paul afirma que a violência de domingo foi muito maior. Ao comentar um vídeo publicado pelas gangues, ele disse sobre seu irmão: "Provavelmente vai morrer".

O ataque não é isolado. Kenscoff foi alvo de um grande ataque em janeiro de 2025, seguido por ofensivas esporádicas nas montanhas ao redor. Mas a ação de domingo foi a maior até agora. As gangues têm interesse estratégico na região: ela permite cercar e controlar Pétion-Ville, uma área nobre da capital, além de oferecer rotas alternativas que ligam Porto Príncipe ao sul do país. Entre janeiro e agosto deste ano, operações de segurança haviam reduzido a violência em Kenscoff em 66% — até o ataque de domingo reverter esses ganhos.

O contexto mais amplo é ainda mais preocupante. Homens armados controlam cerca de 70% de Porto Príncipe e grandes áreas da região central do Haiti. A violência das gangues provocou o deslocamento de um número recorde de 1,5 milhão de pessoas. Mais de 3.050 pessoas foram mortas entre janeiro e junho deste ano. Quase 800 estupros foram registrados entre abril e junho, com 87% dos casos envolvendo estupros coletivos. O número de sequestros registrados naquele trimestre foi mais de 40% maior do que no anterior — e muitos sequestros não são sequer denunciados, pois familiares preferem negociar diretamente com os criminosos na esperança de uma libertação mais rápida.

O ataque também é um teste político. O Haiti se prepara para realizar eleições gerais em 13 de dezembro, a primeira em mais de uma década. Segundo Le Cour, o ataque pode ter sido uma demonstração de força e um recado ao governo e à polícia: as promessas de proteção não correspondem à realidade. "Quando decidimos atacar, podemos atacar, e vamos conseguir", é a mensagem que as gangues enviam. Enquanto as forças de segurança concentravam esforços para recuperar o controle de áreas centrais de Porto Príncipe, os grupos criminosos começaram a expandir operações para comunidades rurais vulneráveis pela baixa capacidade de resposta policial, mas que permanecem estrategicamente valiosas.

Sobreviventes acusaram o governo de não ter oferecido proteção suficiente antes do ataque. A Polícia Nacional do Haiti negou as acusações. Mas a questão permanece: como uma comunidade considerada tranquila pode ser invadida e devastada dessa forma? O secretário-geral da ONU, António Guterres, condenou o ataque nesta terça-feira, chamando atenção para as "alarmantes condições de segurança no Haiti". O que acontece em Kenscoff nos próximos dias — como as forças de segurança navegam essa armadilha, se os reféns são libertados ou se as ameaças são executadas — pode redefinir não apenas a percepção de segurança no país, mas também o resultado das eleições que se aproximam.

Este é um grande teste político e de segurança para o governo, para a polícia e para a missão internacional
— Romain Le Cour, diretor do Observatório do Haiti
Eu precisei correr sobre corpos. Não consigo dormir sabendo que todas essas pessoas morreram
— Marc Paul, morador de Kenscoff
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