Mendonça argumenta que o acesso às mídias foi desnecessário processualmente e potencializou riscos de vazamentos de informações ainda não analisadas pela PF. Em julho, Mendonça havia requisitado arquivos brutos do Master para supervisão; em setembro, resistiu ao compartilhamento integral com colegas ministros, alegando estágios processuais distintos.
Gabinete de Mendonça diz que acesso a dados do Master comprometeu investigação
Dados que nem a polícia conseguiu analisar foram expostos publicamente
Por que Mendonça resistiu ao compartilhamento dos dados com os colegas em setembro, se havia requisitado arquivos brutos em julho?
Segundo o gabinete, os contextos eram diferentes. Em julho, havia investigações avançadas com pessoas formalmente investigadas. Em setembro, a petição 16.662 ainda não havia levado o plenário a deliberar pela instauração de uma investigação específica.
Mas isso não é um pouco circular? Se o plenário não havia deliberado sobre investigação, como Mendonça já tinha os dados brutos em mãos desde julho?
Boa pergunta. O gabinete diz que os arquivos de julho permanecem criptografados e lacrados, nunca foram acessados. Mendonça os requisitou para supervisão, mas não os abriu.
E quando os colegas pediram os dados em setembro, qual foi o argumento para não compartilhar?
Mendonça disse que o acesso era desnecessário processualmente e que potencializava riscos de vazamentos, expondo informações que a PF ainda não havia analisado.
Mas dois dias depois de receber os arquivos, Mendonça pediu ajuda técnica à PF porque não conseguia acessá-los. Isso sugere que talvez a questão não fosse tanto sobre o risco de vazamento, mas sobre dificuldades técnicas?
É uma observação válida. O ofício de 19 de setembro pedia providências para superar obstáculos ao acesso. Não está claro se a resistência inicial era baseada em princípios de sigilo ou em questões práticas.
Qual é o impacto real dessa decisão nas investigações?
O gabinete afirma que a divulgação comprometeu diligências e esvaziou a possibilidade de acesso a outros meios de prova ainda não revelados. Mas não detalha quais diligências específicas foram prejudicadas.
Exatamente. A nota é genérica. Não sabemos se investigações foram realmente comprometidas ou se essa é uma justificativa posterior para explicar a mudança de posição.
El Pulso
- Mendonça requisitou arquivos brutos em julho, mas resistiu ao compartilhamento com colegas em setembro
- Dados do celular de Daniel Vorcaro com referências a Alexandre de Moraes foram disponibilizados em 10 e 11 de setembro
- Moraes, Zanin e Gilmar Mendes receberam os dados da PF em 14 de setembro; Mendonça e Fux em 17 de setembro
- Em 19 de setembro, Mendonça pediu ajuda técnica à PF porque não conseguia acessar os arquivos
Mendonça argumenta que o acesso às mídias foi desnecessário processualmente e potencializou riscos de vazamentos de informações ainda não analisadas pela PF. Em julho, Mendonça havia requisitado arquivos brutos do Master para supervisão; em setembro, resistiu ao compartilhamento integral com colegas ministros, alegando estágios processuais distintos.
O gabinete do ministro André Mendonça afirma que a divulgação de dados do caso Master prejudicou diligências e comprometeu a obtenção de novas provas, citando riscos de vazamentos e antecipação indevida de informações.
O gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, divulgou uma nota argumentando que a forma e o momento em que dados do caso Master foram disponibilizados prejudicaram investigações em andamento e comprometeram a possibilidade de colher novas provas. Segundo o comunicado enviado à Folha, o acesso às mídias foi além do necessário do ponto de vista processual e amplificou riscos de vazamentos, expondo informações que nem mesmo a Polícia Federal havia conseguido analisar até então.
O caso em questão envolve a petição 16.662, que reúne um relatório da PF sobre mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, nas quais há referências ao ministro Alexandre de Moraes. Quando os demais ministros se preparavam para julgar o caso, cobraram acesso à íntegra dos dados que fundamentavam o documento. Em 10 e 11 de setembro, Mendonça removeu o sigilo de processos do Master, tornando públicos os documentos dos autos, mas não disponibilizou a extração completa do celular de Vorcaro. Mendonça sustentou que os elementos já acessíveis eram suficientes para o julgamento e resistiu ao compartilhamento integral. Diante dessa recusa, Moraes, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes solicitaram os dados diretamente à PF, que entregou as cópias em 14 de setembro com as cautelas de sigilo preservadas. Mendonça e Luiz Fux também fizeram a mesma requisição e receberam os arquivos em 17 de setembro.
O que torna a posição de Mendonça particularmente notável é uma mudança de entendimento ocorrida dois meses antes. Em julho, o ministro havia considerado imprescindível acessar informações além dos recortes fornecidos pela PF para avaliar argumentos das defesas e verificar o cumprimento de suas próprias orientações. Quando a Folha questionou o gabinete sobre essa aparente contradição, a resposta foi que as duas situações correspondiam a estágios processuais distintos. A requisição de julho, segundo a nota, servia à supervisão de investigações já avançadas, com pessoas formalmente investigadas e submetidas a medidas judiciais, em um contexto processual muito mais desenvolvido. Já a petição 16.662, afirmou o gabinete, ainda não havia levado o plenário sequer a deliberar pela instauração de uma investigação específica em procedimento autônomo.
A ordem de 10 de julho, na petição 16.319, havia determinado o envio ao gabinete do material bruto sobre o qual incidiram ou incidiriam as análises da PF, incluindo arquivos ainda não examinados pela polícia. Mendonça argumentou que as defesas contestavam as análises policiais com dados dos aparelhos que alegavam estar fora dos recortes apresentados ao tribunal, e que examinar o conjunto permitiria comparar os argumentos da defesa e da investigação. O gabinete também esclareceu que nenhuma mídia encaminhada pela PF foi efetivamente acessada e que todas permanecem criptografadas e lacradas, aguardando o momento em que seu exame se torne necessário.
O gabinete argumentou que as contestações das defesas demandarão essa comparação no momento oportuno e que, apesar do estágio avançado das investigações, ainda não chegou a ocasião de confrontar as informações dos processos com os dados brutos recebidos. Contudo, em 19 de setembro, apenas dois dias depois de receberem os arquivos, Mendonça e Fux informaram à PF que não haviam conseguido acessar efetivamente o conteúdo e pediram ajuda técnica. O ofício de Mendonça solicitava providências para superar os obstáculos ao acesso e verificar a integridade do material entregue ao gabinete. A situação levanta questões sobre a consistência nas decisões sobre sigilo e acesso a dados em investigações do STF, com potencial impacto em procedimentos futuros.
Citas Notables
O acesso às mídias, além de desnecessário do ponto de vista processual, apenas potencializou os riscos de vazamentos e antecipou o conhecimento público sobre elementos que nem mesmo a autoridade policial conseguiu ainda analisar— Gabinete do ministro André Mendonça