Futebol não mexe com América: estreia dos EUA no Mundial passa despercebida

O entusiasmo genuíno concentra-se apenas na comunidade latina
Enquanto os EUA organizavam o Mundial, apenas imigrantes mexicanos celebravam a estreia da seleção norte-americana.
Mark

Como é possível um país organizar o maior torneio de futebol do mundo e ninguém parecer notar?

Mimi

Porque o futebol nunca foi verdadeiramente americano. É um desporto de imigrantes, de comunidades latinas. Os americanos têm os seus próprios rituais desportivos.

Mark

Mas então, quem estava realmente a ver o jogo naquela noite?

Mimi

Principalmente mexicanos. Funcionários de restaurante que vestiram a camisola dos EUA mas gritavam como se fosse o México a marcar.

Mark

Isso não é contraditório? Apoiar um país enquanto se torce por outro?

Mimi

Não quando tens família nos dois lados. Aquela empregada queria um empate porque ambos os lados fazem parte de quem ela é.

Mark

E os americanos de verdade? Os que nasceram ali?

Mimi

Provavelmente nem sabiam que havia um Mundial. Se fosse o Super Bowl, seria diferente. Mas futebol? Isso é coisa de outros.

Mark

Então o que significa organizar um Mundial num país que não se importa com futebol?

Mimi

Significa que o futebol continua a ser um desporto de segunda categoria, mesmo quando o palco é o maior possível.

  • A estreia da seleção americana no seu próprio Mundial decorreu numa noite de indiferença quase total — as ruas de Palm Beach estavam tão silenciosas como qualquer outra noite comum.
  • O único restaurante com movimento futebolístico era mexicano, onde funcionários imigrantes vestiam a camisola dos EUA e gritavam os golos com uma paixão que os próprios americanos não demonstravam.
  • Uma empregada, quando questionada sobre um hipotético duelo entre México e Estados Unidos, respondeu que queria um empate — revelando a tensão íntima de quem vive dividido entre duas identidades.
  • O futebol americano, o basquetebol e o beisebol continuam a eclipsar o 'soccer', mesmo quando o país organiza o torneio mais assistido do planeta.
  • O entusiasmo genuíno pelo Mundial concentra-se nas comunidades latinas, acentuando o fosso entre a importância global do evento e a sua ressonância cultural dentro dos EUA.

Quando os Estados Unidos recebem pela primeira vez em décadas o maior torneio de futebol do mundo, as suas ruas permanecem em silêncio — não por falta de evento, mas por falta de pertença cultural. O futebol existe na América, mas vive nas margens, sustentado pela paixão das comunidades imigrantes latinas que encontraram nele uma ponte entre dois mundos. É uma ironia que o país anfitrião seja, talvez, o menos inflamado pela chama que ilumina todos os outros.

Eram nove da noite em Miami quando os Estados Unidos entravam em campo para a sua estreia num Mundial que o próprio país organizava — ao lado do Canadá e do México, pela primeira vez desde 1994. Mas pelas ruas de Palm Beach, o silêncio era total. Nenhuma agitação, nenhuma celebração. Se fosse beisebol, a cidade estaria em chamas. Mas era futebol, e isso mudava tudo.

A procura por algum fervor americano levou a uma descoberta frustrante: o único lugar com movimento era um restaurante mexicano, com bolas de papel penduradas na entrada a sinalizar que ali se transmitia o jogo. Dentro, os funcionários — todos mexicanos — vestiam a camisola norte-americana e gritavam cada golo dos EUA com uma paixão que parecia vir das entranhas. Quando se perguntou a uma empregada o que faria se México e Estados Unidos se encontrassem, a resposta foi honesta: "Não sei... queria um empate." Era a voz de alguém dividido entre duas lealdades, incapaz de escolher porque ambas faziam parte de si.

A questão que ficava no ar era perturbadora: quantos americanos saberiam sequer que havia um Mundial a decorrer no seu próprio país? O futebol ocupa um lugar estranho na cultura desportiva americana — presente, mas sempre à sombra de outras modalidades. Mesmo quando o país organiza o maior torneio da modalidade, a indiferença permanece. O entusiasmo genuíno vive apenas nas comunidades latinas, naqueles para quem o futebol é verdadeiramente importante. O contraste é gritante: enquanto o resto do mundo ferve, as ruas americanas ficam calmas, como se nada de especial estivesse a acontecer.

Eram nove da noite em Miami quando a seleção dos Estados Unidos entrou em campo para sua estreia no Campeonato do Mundo. Era um momento histórico de certa forma — a primeira vez desde 1994 que o país recebia uma competição de tal envergadura, e desta vez como anfitrião oficial, ao lado do Canadá e do México. Mas pelas ruas de Palm Beach, ninguém parecia ter reparado. Os carros passavam, as palmeiras balançavam ao vento, e havia um silêncio que não combinava com o que deveria ser uma celebração nacional. Se fosse beisebol, talvez a cidade inteira estivesse em chamas. Mas era futebol — ou "soccer", como chamam por lá — e isso mudava tudo.

A procura por um restaurante onde se sentisse alguma vibração americana em torno do jogo levou a uma descoberta frustrante: o silêncio era ensurdecedor. Onde estava o fervor, aquela agitação crescente que caracteriza um Mundial? Onde estava a loucura nas ruas? Depois de alguns minutos a navegar entre as palmeiras, finalmente apareceu alguma coisa — mas não era bem o que se esperava. O único lugar com movimento futebolístico era um restaurante mexicano. Bolas de papel penduradas na entrada sinalizavam que ali se transmitia o jogo. Era, provavelmente, o único sítio nas redondezas onde alguém estava realmente a prestar atenção.

Dentro do estabelecimento, a atmosfera revelava uma verdade incómoda: parecia que era o México que estava em campo, não os Estados Unidos. Os funcionários eram mexicanos, mas todos vestiam a camisola norte-americana. Quando a seleção dos EUA marcava — e marcou quatro vezes — eles gritavam como se fossem golos da sua própria nação. Havia uma paixão ali, uma celebração genuína, mas vinha de quem tinha raízes noutro lugar. Quando se perguntou a uma empregada do restaurante quem apoiaria se México e Estados Unidos se encontrassem na competição, a resposta foi honesta e reveladora: "Não sei, é difícil... Queria um empate." Era a resposta de alguém dividido entre duas lealdades, incapaz de escolher porque ambas faziam parte da sua identidade.

A questão que pairava no ar era simples mas perturbadora: quantos norte-americanos, se perguntados naquela noite, saberiam sequer que havia um Mundial de futebol a decorrer no seu próprio país? Provavelmente poucos. E se soubessem, quantos se importariam? O futebol ocupa um lugar estranho na cultura desportiva americana — presente, mas marginal, sempre à sombra do futebol americano, do basquetebol, do beisebol. Mesmo quando o país organiza o maior torneio da modalidade, quando a seleção nacional joga em casa, a indiferença permanece. O entusiasmo genuíno, aquele que faz as pessoas sair à rua e celebrar, concentra-se apenas na comunidade latina, naqueles para quem o futebol é verdadeiramente importante, naqueles que cresceram com a bola nos pés e não apenas a assistir de sofá. O contraste é gritante: enquanto o resto do mundo ferve com a emoção de um Mundial, as ruas americanas permanecem calmas, indiferentes, como se nada de especial estivesse a acontecer.

Não sei, é difícil... Queria um empate
— Empregada de restaurante mexicano, quando questionada sobre quem apoiaria entre México e EUA
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