Fundo Clima enfrenta críticas sobre alocação de recursos e eficiência

Bilhões de reais alocados sem avaliação de quanto cada real efetivamente reduz emissões
O Fundo Clima não possui critérios formais para orientar quais projetos recebem financiamento.
Mark

Por que um fundo criado há tanto tempo — 2009 — só agora está enfrentando críticas sobre sua eficiência?

Mimi

Porque o fundo permaneceu pequeno e discreto por anos. O grande salto aconteceu em 2024, quando o Tesouro começou a canalizar bilhões em títulos sustentáveis. Quando o dinheiro era modesto, ninguém questionava muito. Quando virou dez bilhões, as contas começaram a não fechar.

Mark

Os conselheiros mencionam etanol e milho em Mato Grosso. Por que isso é problemático se essas são culturas brasileiras tradicionais?

Mimi

Não é sobre serem tradicionais. É que essas culturas precisam de muita água, e Mato Grosso já enfrenta escassez hídrica severa. Financiar expansão delas com dinheiro de um fundo climático é contraditório — você está usando recursos para combater mudanças climáticas para financiar atividades que as pioram.

Mark

A captura de carbono parece uma solução futurista. Por que os conselheiros querem restringi-la?

Mimi

Porque custa muito caro para o que entrega. A tecnologia ainda não é economicamente viável em larga escala. Faz sentido em setores sem alternativa, como cimento. Mas usar dinheiro público para subsidiar uma tecnologia cara quando há opções mais baratas disponíveis é desperdício.

Mark

Qual é a diferença entre trezentos e oitenta e três reais por tonelada e cento e vinte e seis?

Mimi

É a diferença entre gastar três vezes mais que o necessário. Se você quer evitar cem toneladas de emissão, pode fazer isso gastando doze mil e seiscentos reais em um fundo internacional ou trinta e oito mil e trezentos no fundo brasileiro. O resultado é o mesmo, mas o custo não.

Mark

O Ministério do Meio Ambiente vai resolver isso em setembro?

Mimi

Vai tentar. Mas a reunião é só o começo. O real desafio é estabelecer critérios que funcionem na prática — e depois ter coragem de dizer não a projetos que não atendem esses critérios, mesmo que tenham apoio político.

  • O Fundo Clima gasta R$ 383 por tonelada de CO₂ evitada — o triplo do Fundo Verde para o Clima, que realiza o mesmo por R$ 126.
  • Trinta e nove conselheiros enviaram carta ao Planalto e ao BNDES denunciando a ausência de qualquer critério formal que oriente quais projetos recebem recursos.
  • Investimentos em etanol, milho e captura de carbono são questionados por consumirem água em biomas frágeis ou por serem economicamente inviáveis na escala atual.
  • O volume desembolsado saltou de R$ 883 milhões em 2023 para R$ 10,2 bilhões em 2024, alimentado por títulos soberanos sustentáveis — dívida que o país pagará com juros.
  • O Ministério do Meio Ambiente prometeu estabelecer parâmetros de racionalização em reunião marcada para setembro, mas sem garantias concretas de mudança.

Há dezessete anos, o Brasil criou um fundo climático com propósito nobre — financiar a transição para uma economia de baixo carbono. Hoje, conselheiros do mais alto nível apontam que bilhões de reais são alocados sem critérios formais de custo-efetividade, tornando o instrumento três vezes mais caro por tonelada de CO₂ evitada do que seus equivalentes internacionais. O dinheiro, agora proveniente de dívida pública, exige uma resposta que vá além das boas intenções.

Criado há dezessete anos com a missão de financiar projetos que reduzissem emissões e preparassem o Brasil para os impactos climáticos, o Fundo Nacional sobre Mudança do Clima começou a revelar fissuras estruturais. Em julho deste ano, trinta e nove membros do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável enviaram uma carta ao Planalto e ao BNDES com uma constatação incômoda: o fundo não possui critérios formais de custo-efetividade. Bilhões de reais são alocados sem que se avalie sistematicamente quanto cada real investido efetivamente reduz emissões.

Os conselheiros apontam casos concretos. Investimentos em etanol e milho no Mato Grosso preocupam por demandar volumes enormes de água em biomas já fragilizados. A captura de carbono, tecnologia autorizada a receber financiamento a partir de 2026, é questionada por seu custo elevado em relação às emissões que evita — os conselheiros sugerem restringi-la a setores sem alternativa, como cimento e siderurgia.

A comparação internacional expõe a dimensão do problema. Em 2024, o fundo aprovou R$ 33,2 bilhões para evitar 86,6 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, resultando em um custo de R$ 383 por tonelada. O Fundo Verde para o Clima faz o mesmo por R$ 126; os Fundos de Investimento Climático, por R$ 231. O instrumento brasileiro custa três vezes mais que seu principal concorrente global.

O agravante é que os recursos cresceram de forma explosiva — de R$ 883 milhões em 2023 para R$ 10,2 bilhões em 2024 — graças à canalização de títulos soberanos sustentáveis, ou seja, dívida pública. Quando o dinheiro vem de empréstimos com juros, a ineficiência deixa de ser apenas técnica e passa a ser uma questão de responsabilidade fiscal. O Ministério do Meio Ambiente prometeu abordar o tema em setembro, com a expectativa de que parâmetros claros sejam finalmente estabelecidos. Sem isso, o fundo permanecerá um instrumento bem-intencionado e mal direcionado — e boas intenções nunca foram suficientes para fazer uma política pública funcionar.

Há dezessete anos, o Brasil criou um instrumento que parecia simples em sua intenção: um fundo nacional capaz de financiar projetos que reduzissem as emissões de gases de efeito estufa e preparassem o país para os impactos inevitáveis das mudanças climáticas — secas prolongadas, chuvas torrenciais, eventos extremos cada vez mais frequentes. A ideia era sólida. A execução, porém, começou a revelar fissuras.

Em julho deste ano, trinta e nove membros do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável enviaram uma carta ao Planalto e ao BNDES apontando um problema fundamental: o Fundo Nacional sobre Mudança do Clima não possui critérios formais de custo-efetividade que orientem quais projetos recebem recursos e em que proporção. Isso significa que bilhões de reais estão sendo alocados sem uma avaliação sistemática de quanto cada real investido efetivamente reduz emissões ou prepara o país para seus efeitos.

Os conselheiros citam casos específicos que ilustram essa desorganização. Investimentos em etanol e milho em Mato Grosso aparecem na carteira do fundo, apesar de essas culturas demandarem volumes enormes de água — um recurso cada vez mais escasso — e poderem acelerar mudanças no solo de um bioma já fragilizado pelo desmatamento e pela falta de chuva. Há também a questão da captura de carbono, uma tecnologia autorizada a receber financiamento a partir de 2026. O processo usa equipamentos sofisticados e reações químicas para separar dióxido de carbono do ar e armazená-lo antes que chegue à atmosfera. O problema: custa muito caro em relação à quantidade de emissões que efetivamente evita. Os conselheiros sugerem que esse tipo de investimento seja restrito a setores onde realmente não há alternativa, como cimento e siderurgia.

O tamanho do problema fica claro quando se compara o desempenho do fundo brasileiro com seus equivalentes internacionais. Em 2024, considerando financiamentos diretos e cofinanciamentos, o Fundo Clima aprovou trinta e três bilhões e duzentos milhões de reais para evitar a emissão de oitenta e seis milhões e seiscentas mil toneladas de dióxido de carbono equivalente. Isso resulta em um custo de trezentos e oitenta e três reais por tonelada. O Fundo Verde para o Clima, que opera em escala global, consegue fazer o mesmo por cento e vinte e seis reais. Os Fundos de Investimento Climático, duzentos e trinta e um. O fundo brasileiro custa três vezes mais que seu principal concorrente internacional.

O salto nos números do fundo é recente e dramático. Em 2023, foram desembolsados oitocentos e oitenta e três milhões de reais. Em 2024, dez bilhões e duzentos milhões. Essa explosão ocorreu porque o Tesouro Nacional começou a canalizar recursos de títulos soberanos sustentáveis — dívida pública — para o fundo. Quando o dinheiro vem de empréstimos que o país precisa pagar com juros, a pergunta sobre eficiência deixa de ser uma questão técnica e vira uma questão de responsabilidade fiscal. Cada real gasto de forma ineficiente é um real que não estará disponível para outras prioridades, ou que aumentará a carga de endividamento do país.

O Ministério do Meio Ambiente respondeu que está ciente das críticas e que abordará o tema em uma reunião marcada para setembro. A expectativa é que a pasta e o BNDES finalmente estabeleçam parâmetros claros para racionalizar os financiamentos. Sem isso, o fundo continuará sendo um instrumento bem-intencionado mas mal direcionado — e as boas intenções, sozinhas, nunca foram suficientes para fazer uma política pública funcionar.

Não há critérios formais de custo-efetividade que orientem a composição da carteira
— Carta de 39 membros do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável
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