Fundador da Kaszek vê Brasil como polo de IA e defende progresso sobre regulação

Quando há mudança de paradigma, experiência anterior às vezes atrapalha
O fundador da Kaszek explica por que contrata jovens autodidatas sem diploma universitário para sua equipe.
Mark

Então o Brasil realmente é o centro de gravidade para investimentos em IA na América Latina?

Mimi

Sim, e não é por acaso. O país tem 50% do capital que a Kaszek aloca na região, e nos últimos dois ou três anos, a maior parte disso foi para IA. Há empreendedores construindo soluções aqui e depois as levando para o mundo.

Luke

Mas ele disse que não há ainda um polo "consolidado". Qual é a diferença entre ter investimentos concentrados e ter um polo de verdade?

Mimi

Boa pergunta. Um polo consolidado provavelmente significaria infraestrutura, talento distribuído, ecossistema maduro. O que existe agora são empresas de qualidade surgindo, mas talvez não o suporte estrutural completo.

Mark

E essas empresas como Enter e Comp — elas realmente estão crescendo rápido o suficiente para competir globalmente?

Mimi

A Enter foi avaliada em 1,2 bilhão de dólares e captou mais de 100 milhões. A Comp atende 150 empresas grandes. Isso não é pequeno. E ele acredita que a IA permite uma internacionalização mais rápida que tecnologias anteriores.

Luke

Mas ele está comparando com a Wellhub, que levou anos para expandir. Não temos dados reais de quanto tempo as empresas de IA estão levando para ir global. É uma intuição dele, não uma tendência comprovada.

Mark

Entendi. E quanto aos jovens talentos que ele está contratando — por que não exigir diploma?

Mimi

Porque quando há uma mudança de paradigma tão forte, a experiência anterior às vezes atrapalha. Esses jovens não estão presos ao modelo antigo. Trazem liberdade para enxergar o novo.

Luke

Mas também trazem falta de experiência. Ele mesmo reconheceu isso. A questão é se a liberdade compensa a inexperiência em um setor que ainda está se formando.

Mark

E a Argentina? Milei fala em hub de IA, mas o fundador da Kaszek parece cético.

Mimi

Não cético, realista. A Argentina tem energia, que é crítico. Mas faltam capital e hardware, e ambos dependem de estabilidade econômica e regras claras. Projetos de IA exigem previsibilidade de longo prazo.

Luke

Ele não investiu na Argentina, certo? Ou pelo menos não mencionou isso. Então essa é uma análise de fora, não uma aposta.

Mark

Qual é o risco maior que ele vê na IA?

Mimi

Ele não vê risco existencial como impossível de gerenciar. Acha que a humanidade sempre encontrou um caminho com novas tecnologias. Mas também não descarta as preocupações de Bill Gates.

Luke

Ele disse que regulação não deve vir antes do progresso. Mas quem decide o que é progresso e o que é risco aceitável? Isso é mais uma posição ideológica do que uma análise.

  • Brasil concentra 50% dos investimentos da Kaszek na América Latina
  • Enter foi avaliada em 1,2 bilhão de dólares após captar mais de 100 milhões
  • Comp captou mais de 100 milhões de reais e atende 150 empresas grandes
  • Equipe da Kaszek no Brasil tem entre 15 e 20 pessoas
  • Última contratação foi um estudante de 19 anos do ITA, autodidata em IA

Brasil concentra 50% dos investimentos da Kaszek na região, com foco crescente em projetos de IA nos últimos 24-36 meses. Empresas brasileiras como Enter e Comp estão expandindo soluções de IA para mercados internacionais com velocidade inédita.

Líder da Kaszek, maior fundo de capital de risco da América Latina, expressa otimismo sobre inteligência artificial e destaca Brasil como principal mercado de investimento em IA da região, com 50% do capital alocado.

Nos últimos dias, duas vozes distintas moldaram o debate global sobre inteligência artificial. Bill Gates alertou para os riscos existenciais da tecnologia, chamando-a de "a coisa mais perigosa da qual os seres humanos já chegaram perto". Dias depois, o fundador da Kaszek — o maior fundo de capital de risco da América Latina — oferecia uma perspectiva diferente: otimismo medido, mas firme, de que a humanidade encontrará um caminho seguro através dessa transformação tecnológica.

Para o líder da Kaszek, o Brasil não é apenas um mercado promissor em inteligência artificial. É o principal. Desde a fundação do fundo, a América Latina inteira recebeu investimentos em tecnologia, mas o Brasil sempre se destacou. Hoje, o país concentra aproximadamente 50% de todo o capital que a Kaszek aloca na região. Nos últimos dois a três anos, uma parcela substancial desses recursos foi direcionada especificamente para projetos de IA. O mercado brasileiro, segundo sua avaliação, já está desenvolvido em aplicações práticas de inteligência artificial — não é um laboratório experimental, mas um lugar onde empreendedores constroem soluções e depois as levam para o mundo. Empresas como a Enter, primeiro unicórnio nativo de inteligência artificial da América Latina, fundada em 2023 e avaliada em 1,2 bilhão de dólares após captar mais de 100 milhões em uma rodada liderada pelo Founders Fund de Peter Thiel, servem como prova. A Comp, que já levantou mais de 100 milhões de reais com participação da Kaszek e outros fundos, atende mais de 150 empresas grandes. Ambas nasceram no Brasil e agora miram o mercado americano.

Quando perguntado se o Brasil já é um polo consolidado de inteligência artificial na América Latina, o fundador da Kaszek foi cauteloso mas otimista. Não há ainda um polo completamente estabelecido, disse, mas há muitos empreendimentos de qualidade surgindo. O que torna o Brasil diferente, em sua visão, é que a inteligência artificial parece permitir uma internacionalização mais rápida e fácil do que tecnologias anteriores. A Wellhub, maior unicórnio de bem-estar corporativo do mundo, nasceu no Brasil e levou anos para expandir para Europa e Estados Unidos. Empresas de IA, ele acredita, podem fazer esse trajeto em muito menos tempo.

Sobre as preocupações globais com riscos existenciais — o alerta de Bill Gates e outros — o fundador da Kaszek não descarta as inquietações. Mas insiste que a história mostra outro caminho. A humanidade progrediu porque abraçou novas tecnologias que, em seus momentos iniciais, pareciam impossíveis ou perigosas, seja do ponto de vista energético, de informação ou de computação. Ele não vê problema em pessoas como Gates expressarem cautela; isso chama atenção para riscos reais que precisam ser debatidos. O erro, em sua visão, seria colocar a regulação à frente do progresso.

No Brasil especificamente, a penetração da inteligência artificial está acelerando, mas ainda há espaço para crescimento. Cerca de 50% dos investimentos da Kaszek nos últimos 18 meses foram em "aplicações puras de IA", e o Brasil representa aproximadamente dois terços desse montante. Todas as empresas do portfólio do fundo já usam IA de alguma forma. O país, historicamente, tem sido rápido na adoção de novas tecnologias — foi assim com a internet, com a internet móvel, com redes sociais e com o WhatsApp. Agora está acontecendo com inteligência artificial. O ChatGPT, ferramenta de IA mais usada por consumidores em todo o mundo, encontra no Brasil uma base de usuários particularmente densa e engajada.

Mas há algo mais que chama a atenção na estratégia da Kaszek: a busca deliberada por jovens talentos, frequentemente autodidatas, sem exigência de diploma universitário. A última contratação do fundo foi um estudante de 19 anos do Instituto Tecnológico de Aeronáutica — um rapaz brilhante que aprendeu inteligência artificial por conta própria. O fundo está procurando perfis semelhantes no México e na Argentina. A lógica é clara: quando há uma mudança de paradigma tão profunda, a experiência anterior às vezes atrapalha, prendendo as pessoas ao modelo antigo. Esses jovens não carregam esse peso. Lhes falta experiência prática, é verdade, mas trazem uma liberdade para enxergar o potencial de novas tecnologias sem os preconceitos de quem viveu sob o paradigma anterior.

A equipe da Kaszek no Brasil tem entre 15 e 20 pessoas, uma mistura deliberada de perfis. O fundo contratou recentemente um ex-CEO do Nubank, com 46 anos, como sócio. Ao mesmo tempo, trouxe jovens de 19 anos para a equipe. Entre os fundadores dos projetos em que investe, a Kaszek observa duas tendências crescentes: os empreendedores estão se tornando mais técnicos que a média do passado, e, em média, estão mais jovens. Para a Argentina, que o presidente Javier Milei promove como futuro hub de inteligência artificial, o fundador da Kaszek vê potencial real, mas com ressalvas. A Argentina tem uma vantagem clara: disponibilidade de energia, recurso escasso e crítico para projetos de IA. Mas faltam duas coisas essenciais: capital e hardware. O hardware depende de regimes de importação favoráveis, já que não é produzido localmente. O capital, por sua vez, está ligado ao risco-país e à estabilidade econômica. Projetos de inteligência artificial em larga escala exigem milhões de dólares distribuídos ao longo de uma década ou mais. Para que aconteçam, é necessário gerar confiança, oferecer regras claras e previsibilidade.

O que não devemos fazer é colocar a regulação à frente do progresso
— Fundador da Kaszek
A humanidade progrediu graças a novas tecnologias que, em determinado momento, pareciam impossíveis
— Fundador da Kaszek
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