Abstenções em BH superam a votação de Engler em 152 mil votos e a de Fuad em 252 mil, tornando-se fator decisivo na disputa apertada do segundo turno. Maior concentração de faltantes está no Barreiro (42.113) e Venda Nova (39.550); Centro-Sul lidera em percentual com 35,6% de abstenção na zona 33ª.
Fuad e Engler disputam voto de 590 mil ausentes no segundo turno de BH
Desde os 18 anos que eu voto, até hoje não mudou nada
Por que 590 mil pessoas não votaram? Parece um número absurdo para uma capital.
É absurdo mesmo. Representa quase 30% do eleitorado. Mas não é só desinteresse — tem gente trabalhando 15 horas, gente em luto, gente que perdeu a fé na política.
Espera aí. O cientista político da ESPM diz que a base do TSE é problemática. Pessoas mortas ainda estão registradas. Pessoas que mudaram de bairro não atualizaram zona. Quanto desse número é realmente abstenção e quanto é erro administrativo?
Boa pergunta. Ele não quantifica quanto é erro, só diz que é "um ponto de atenção". Então sim, o número pode estar inflado.
E onde estão esses eleitores? Tem padrão geográfico?
Tem. Barreiro lidera em volume absoluto com 42 mil. Venda Nova com 39 mil. Mas em percentual, Centro-Sul é pior — 35,6% de quem podia votar não votou.
Então os candidatos têm um mapa. Sabem exatamente onde procurar. Por que não conseguem convencer essas pessoas?
Porque não é só localização. É perfil. São pessoas pobres, com baixa escolaridade, muito jovens ou muito idosos. E estão cansadas. Trabalham demais, não confiam na política, não veem mudança.
Fuad e Engler têm estratégias diferentes para isso?
A reportagem não mostra estratégias específicas. Mostra que os candidatos sabem que essas pessoas existem e que são importantes — 590 mil votos podem decidir a eleição. Mas como convencê-las é a pergunta sem resposta.
Um detalhe: Engler tem 100 mil votos de vantagem. Mas 590 mil pessoas não votaram. Tecnicamente, Fuad ainda pode ganhar se mobilizar essas pessoas. Mas a pesquisa Datafolha diz que Fuad está na frente. Qual é a verdade?
A verdade é que está apertado. Datafolha diz 48% para Fuad, 41% para Engler. Mas pesquisa é foto de um momento. Essas 590 mil pessoas são incógnitas.
Então o segundo turno é sobre quem consegue trazer essas pessoas de volta?
Exatamente. E parece que ninguém sabe como fazer isso.
El Pulso
- 588.699 abstenções no primeiro turno (29,54% do eleitorado de BH)
- Barreiro: 42.113 faltantes; Venda Nova: 39.550 faltantes
- Centro-Sul lidera em percentual com 35,6% de abstenção na zona 33ª
- Abstenções superam votação de Engler em 152 mil e de Fuad em 252 mil
- Segundo turno marcado para 27 de outubro
Abstenções em BH superam a votação de Engler em 152 mil votos e a de Fuad em 252 mil, tornando-se fator decisivo na disputa apertada do segundo turno. Maior concentração de faltantes está no Barreiro (42.113) e Venda Nova (39.550); Centro-Sul lidera em percentual com 35,6% de abstenção na zona 33ª.
Com 588.699 abstenções no primeiro turno de Belo Horizonte (29,54% dos eleitores), campanhas de Fuad Noman e Bruno Engler buscam conquistar esses votantes ausentes para o segundo turno em 27 de outubro.
Quase 590 mil pessoas não compareceram às urnas em Belo Horizonte no primeiro turno das eleições de 2024. Esse número — 588.699 abstenções, representando 29,54% do eleitorado da capital mineira — é maior que a votação total recebida por Bruno Engler, o candidato que liderou a disputa. Para Fuad Noman, a diferença é ainda mais gritante: os ausentes superam sua votação em 252 mil votos. Enquanto Engler se apega aos quase 100 mil votos de vantagem conquistados no primeiro turno, Fuad confia em pesquisa do Datafolha que o coloca com 48% das intenções contra 41% do deputado estadual. A corrida para o segundo turno, marcado para 27 de outubro, promete ser apertada. E nesse cenário, quem não foi às urnas na semana anterior pode ser o fiel da balança.
O índice de abstenção em Belo Horizonte já preocupa especialistas há anos. Em 2016, quando houve eleição municipal, o percentual era de 21,66%. Em 2020, durante a pandemia de Covid-19, subiu para 28,34%. Agora, em 2024, alcançou 29,54% — acima da média nacional de 21,68%. Fábio Andrade, cientista político e professor de Relações Internacionais da ESPM, aponta que parte do problema pode estar na própria base de dados do Tribunal Superior Eleitoral. Pessoas que faleceram continuam registradas como eleitoras. Outras mudaram de domicílio mas não atualizaram sua zona eleitoral. Movimentos migratórios podem estar inflando artificialmente o número de ausentes em Belo Horizonte. Ainda assim, o fenômeno é real e preocupante.
O Barreiro concentra o maior volume absoluto de abstenções: 42.113 pessoas deixaram de votar na 333ª zona eleitoral, que inclui bairros como Bonsucesso, Cardoso e Flávio Marques Lisboa. Nessa região, Engler tinha uma vantagem modesta sobre Fuad, cerca de quatro mil votos. Venda Nova também se destaca, com 39.550 abstenções na 334ª zona, que compreende bairros como Santa Mônica, Céu Azul, Jardim Leblon e Copacabana. Ali, Engler tinha larga vantagem, quase dez mil votos. Quando se observa o percentual de abstenção em relação ao total de eleitores aptos, porém, a Região Centro-Sul lidera: na 33ª zona, que abrange Centro, Lourdes e Barro Preto, 35,6% dos cidadãos não participaram do processo eleitoral. Engler tinha sete mil votos a mais que Fuad naquele território.
Adriano Gianturco, cientista político do Ibmec, afirma que as campanhas precisam conhecer o perfil desses eleitores ausentes, não apenas sua localização. São pessoas mais pobres, com baixa escolaridade, que vivem em áreas periféricas, ou muito jovens ou muito idosos. Para mobilizá-los, os candidatos podem usar estratégias territoriais — ir até esses locais — e políticas públicas específicas direcionadas a esse público. "As eleições municipais não são batalhas ideológicas, são batalhas mais concretas", diz.
Em Venda Nova, as razões para a ausência variam. Tiago Lucas, repositor de supermercado, não votou porque dobrou seu horário de trabalho, das 7 da manhã às 22 horas. Queria ter votado em Mauro Tramonte, mas não conseguiu sair do trabalho. Disse que ainda pensa em votar no segundo turno. Hudson Fernandes, outro morador da região, enfrentou uma tragédia: seu irmão faleceu na véspera do primeiro turno, e ele precisou organizar o velório. Pretende votar em Fuad no segundo turno. Matheus Pratos, vendedor, confessa desencanto com o sistema político. Não vota há cinco ou seis anos, apesar de reconhecer que alguns candidatos o representam. "Eu não acredito no sistema. É pelo que acontece, a gente vê o resultado, a gente acha meio duvidoso", afirma. Se votasse, escolheria Engler.
No Barreiro, onde está a zona com o maior número de abstenções, o discurso é de descrença total. Ademir Augusto da Silva, aposentado, nunca encontrou um candidato em quem realmente acreditasse. "Na verdade, nunca vai ter um candidato que a gente espera muita coisa. Então, não tem jeito, não tem como votar", diz. Prefere pagar a multa de cinco reais no segundo turno a se preocupar em votar. Votou na última eleição e se arrependeu amargamente. Jéssica Sabrina Silva, diarista, não quis votar porque está desanimada com a política e não tinha nenhum candidato em mente. Também pretende justificar a ausência no segundo turno. Afonso Celso Pereira, com mais de 70 anos — idade em que o voto é opcional — acompanha a política pela televisão, mas desistiu de votar. "Desde os 18 anos que eu voto, até hoje não mudou nada pra mim. Eu não vou votar nunca mais", afirma.
Djalma Pinto, cientista político e especialista em direito eleitoral, explica que esse desencanto não é surpresa. Muita gente não participa porque perdeu a esperança na classe política. A ausência de políticas públicas focadas no que a população considera prioridade, somada às notícias constantes sobre má aplicação do dinheiro público sem consequências para os infratores, provoca uma sensação de impotência. O eleitor perde o interesse em escolher seus representantes. Conquistar o voto de quem não vai às urnas é desafiador justamente porque as razões para a ausência são profundas: trabalho excessivo, luto, desencanto, falta de esperança. As campanhas têm pouco tempo e um público difícil de alcançar. O segundo turno de Belo Horizonte será decidido não apenas pelos que já votaram, mas por quantos dos 590 mil ausentes conseguem ser convencidos a retornar.
Citas Notables
São pessoas mais pobres, com baixa escolaridade, que vivem em áreas periféricas, ou muito jovens ou muito mais velhos. As eleições municipais não são batalhas ideológicas, são batalhas mais concretas.— Adriano Gianturco, cientista político do Ibmec
Muita gente não participa do processo eleitoral por desencanto com a classe política. A ausência de políticas públicas focadas naquilo que a população considera prioridade provoca uma sensação de impotência no eleitor.— Djalma Pinto, cientista político e especialista em direito eleitoral