França testa míssil nuclear M51.3 em resposta a ameaças russas

Para ser livre, você precisa ser temido. E para ser temido, você precisa ser poderoso
Macron descreveu sua própria postura nuclear com uma linguagem teatral que ele reconheceu como comparável à do ditador norte-coreano.
Mark

Por que Macron escolheu fazer esse teste agora, justamente quando Trump está sinalizando desengajamento da Europa?

Mimi

Porque a incerteza americana deixou um vácuo. Se Washington não vai garantir a proteção europeia, alguém precisa preencher esse espaço — e Macron está tentando ser esse alguém.

Luke

Mas é importante notar que o teste em si foi planejado há tempos. O M51.3 entrou em operação em outubro do ano passado, então esse lançamento era esperado. O que mudou foi a narrativa em torno dele.

Mark

A França realmente consegue dissuadir a Rússia com um arsenal que é um quarto do tamanho?

Mimi

A dissuasão nuclear não funciona por números absolutos. Basta um míssil para destruir uma grande cidade russa. A questão é: Putin quer arriscar isso?

Luke

Verdade, mas há um problema: Putin já fez ameaças nucleares várias vezes. Se a dissuasão francesa fosse tão eficaz, ele não estaria fazendo isso. Talvez estejamos vendo um jogo de sinais que não está funcionando como esperado.

Mark

E essa iniciativa de compartilhar capacidades nucleares com dez países europeus — é viável?

Mimi

Tecnicamente, sim. Eles já fazem exercícios conjuntos e podem posicionar caças Rafale armados. Mas é um processo lento, e alguns países ainda têm restrições constitucionais, como a Lituânia.

Luke

O que não sabemos é se esses países realmente querem armas nucleares em seu território, ou se estão sendo pressionados pela situação. A Finlândia assinou, mas qual é o apoio público lá? Não temos esses números.

Mark

Macron está em posição fraca domesticamente. Isso torna sua postura nuclear mais ou menos credível?

Mimi

Provavelmente menos. Se ele sair do poder no próximo ano, seu sucessor pode mudar completamente essa estratégia. Isso enfraquece qualquer mensagem que ele esteja tentando enviar.

Luke

Exatamente. E há outra questão: Macron está gastando 30 bilhões de reais por ano em mísseis enquanto enfrenta pressão política interna. Isso é sustentável? Não sabemos.

  • O M51.3 pode voar 10 mil km com até seis ogivas nucleares de 150 quilotons cada
  • A França gasta 30 bilhões de reais anualmente para manter seu arsenal nuclear
  • A iniciativa francesa de compartilhamento nuclear já atraiu dez países europeus
  • Putin controla mais de 5 mil ogivas nucleares, com quase 1.800 prontas para uso imediato

O míssil M51.3 pode voar 10 mil km com até seis ogivas nucleares, cada uma com potência dez vezes maior que a bomba de Hiroshima. A França integra iniciativa para compartilhar capacidades nucleares com dez países europeus, incluindo Finlândia, em resposta ao desengajamento dos EUA sob Trump.

A França testou seu novo míssil nuclear M51.3 lançado de submarinos, com Macron presente, descrevendo o ato como 'mensagem alta e clara' à Rússia após ameaças nucleares de Putin à Europa.

Emmanuel Macron assistiu, terça-feira passada, ao lançamento de um míssil nuclear francês disparado de um submarino no Atlântico, perto da costa da Bretanha. O M51.3, arma que entrou em operação há pouco mais de um ano, completou seu primeiro teste de verificação desarmado. O presidente descreveu o momento como "uma mensagem alta e clara para quem quiser ouvir" — uma frase que deixava pouca dúvida sobre o destinatário: Vladimir Putin e a Rússia.

O contexto era tenso. Na semana anterior, autoridades russas haviam feito ameaças nucleares à Europa após o chanceler polonês sugerir que a Otan deveria pressionar militarmente a Rússia em Kaliningrado, seu exclave europeu no mar Báltico. Macron respondeu com uma linguagem que ele próprio reconheceu como teatral — "Para ser livre, você precisa ser temido. E para ser temido, você precisa ser poderoso" — um tom que o próprio presidente comparou, com certa ironia, ao do ditador norte-coreano Kim Jong-un, conhecido por sua propaganda em torno dos testes de mísseis.

O disparo saiu do submarino Le Vigilant, uma das quatro plataformas estratégicas que formam o núcleo da dissuasão nuclear francesa. Segundo dados do fabricante Ariane e da Marinha francesa, o M51.3 consegue percorrer dez mil quilômetros carregando até seis ogivas nucleares, cada uma com potência estimada em 150 quilotons — dez vezes a força da bomba que destruiu Hiroshima. Esses quatro submarinos carregam aproximadamente 240 das 290 ogivas operacionais da França. As demais estão em mísseis de cruzeiro lançados por caças Rafale, e há ainda 80 bombas aposentadas mas não desmontadas. No total, o arsenal francês é o quarto maior do mundo, atrás apenas da Rússia, dos Estados Unidos e da China, que possui 620 ogivas segundo a Federação dos Cientistas Americanos.

Macron tem gastado cerca de 30 bilhões de reais anualmente para manter essa capacidade. Mas sua resposta à ameaça russa vai além do simples teste. Este ano, ele lançou uma iniciativa para compartilhar capacidades nucleares com países europeus — um programa que já atraiu dez nações, incluindo a Finlândia, que está na linha de frente com os russos. O objetivo é realizar exercícios conjuntos e posicionar, se necessário, caças Rafale armados nos territórios dos parceiros. A Rússia protestou, afirmando que a proposta só aumenta os riscos de confronto.

O que move essa estratégia francesa é, em parte, a incerteza sobre o compromisso americano. Donald Trump sinalizou desengajamento da defesa europeia, uma posição que disparou alarmes num continente que, desde a Guerra Fria, dependia de Washington para sua segurança. Embora os Estados Unidos mantenham cerca de cem ogivas táticas em seis bases europeias, e embora na prática esse apoio deva continuar por anos, a vontade política americana de defender os aliados é nula — nas palavras do texto. Isso deixou os europeus sem querer "pagar para ver com a dúvida acerca do apoio dos EUA".

A disparidade de forças é evidente. Putin controla mais de cinco mil ogivas nucleares no total, com quase mil e oitocentas prontas para uso imediato. Mas a lógica da dissuasão nuclear não depende apenas de números: basta um míssil dos rivais para obliterar uma grande cidade russa. Enquanto isso, o conflito na Ucrânia segue em alta intensidade. Na semana do teste francês, um navio carregando grãos ucranianos afundou perto da costa da Bulgária após um ataque de drones, cuja autoria ainda não foi definida. A tripulação não foi encontrada.

Macron encerra seu segundo e último mandato no próximo ano, enfrentando rivais à direita e à esquerda em alta. Sua postura nuclear agressiva coincide com essa fragilidade doméstica. A França integra a Otan, mas mantém controle separado de suas armas nucleares — um arranjo que agora está sendo integrado ao do Reino Unido, o outro membro europeu da aliança com capacidade nuclear própria. "Juntos somos mais fortes", afirmou Macron. Enquanto isso, a Lituânia — membro da Otan mas ainda não integrada ao escudo nuclear francês — recebeu advertências do Kremlin por sua disposição de retirar da Constituição a proibição de posicionamento de armas nucleares em seu território. Quando essa legislação mudar, caças americanos armados poderão ser posicionados lá, expandindo a presença nuclear ocidental nas fronteiras russas.

Uma mensagem alta e clara para quem quiser ouvir
— Emmanuel Macron, descrevendo o teste do M51.3
Juntos somos mais fortes
— Emmanuel Macron, sobre a integração de capacidades nucleares com o Reino Unido
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