França acusa empresa israelita BlackCore de interferir em eleições na Escócia, Nova Iorque e África

Operações coordenadas contra líderes que não se calaram sobre Gaza
A Escócia foi alvo porque o seu governo criticou Israel e implementou sanções contra empresas de armamento israelitas.

No cruzamento entre tecnologia e poder, a agência francesa Viginum revelou que a empresa israelita BlackCore terá orquestrado campanhas digitais coordenadas para moldar perceções eleitorais em vários países — da Escócia a Angola, de Togo a Nova Iorque. O alvo comum parece ser líderes políticos críticos das ações de Israel, embora os patrocinadores destas operações permaneçam por identificar. É um lembrete de que as batalhas pelo poder já não se travam apenas nas urnas, mas nos algoritmos e nas redes que formam a opinião pública.

  • A Viginum identificou mais de 1.400 comentários coordenados distribuídos por 256 contas falsas no X, visando diretamente o primeiro-ministro escocês John Swinney e instituições do seu governo.
  • O padrão repete-se em múltiplas jurisdições — França, Escócia, Angola, Togo e Nova Iorque — sugerindo uma infraestrutura de interferência eleitoral com alcance global.
  • A BlackCore apagou todo o conteúdo do seu site imediatamente após ser contactada por jornalistas, alimentando suspeitas sobre ligações a estruturas governamentais ou privadas de segurança.
  • Israel adotou uma postura de distância cautelosa, aguardando o relatório oficial francês antes de decidir sobre qualquer investigação interna, negando envolvimento na interferência.
  • A identidade dos patrocinadores das operações permanece desconhecida, deixando em aberto a questão central: quem beneficia e quem paga por estas campanhas de manipulação?

A agência francesa de cibersegurança Viginum publicou um relatório que acusa a empresa israelita BlackCore de ter coordenado campanhas de interferência digital em eleições de múltiplos países. O documento, focado inicialmente nas eleições municipais francesas de março de 2026, revelou que as operações se estenderam à Escócia, Nova Iorque, Angola e Togo.

No caso escocês, a BlackCore mobilizou 256 contas na rede X para atacar o primeiro-ministro John Swinney e o seu governo, distribuindo cerca de 1.400 comentários coordenados. O contexto político é revelador: Swinney tem sido uma voz crítica consistente das ações de Israel em Gaza, descrevendo a situação como uma "catástrofe humanitária" e implementando sanções concretas, incluindo o congelamento de subsídios a empresas de armamento que fornecem material a Telavive.

Marc-Antoine Brillant, responsável pela investigação na Viginum, confirmou que o mesmo modus operandi foi detetado em várias jurisdições, mas admitiu não ter ainda conseguido identificar quem financiou ou patrocinou as operações — uma lacuna que deixa a investigação incompleta na sua dimensão mais decisiva.

Israel respondeu com cautela, aguardando o relatório oficial antes de se pronunciar sobre uma eventual investigação própria. A BlackCore, por sua vez, optou pelo silêncio mais radical: após ser contactada por jornalistas, removeu todo o conteúdo do seu site sem qualquer explicação, um gesto que levanta mais perguntas do que respostas sobre a natureza e as cumplicidades desta operação.

A agência francesa de cibersegurança Viginum publicou na quinta-feira um relatório que acusa a empresa israelita BlackCore de ter coordenado campanhas de interferência digital em eleições em múltiplos países, incluindo a Escócia, Nova Iorque, Angola e Togo. O documento, intitulado "Protegendo o Debate Público da Interferência Digital Estrangeira Durante as Eleições Municipais de 15 e 22 de março de 2026", detalha operações que a agência descreve como parte de uma estratégia mais ampla de manipulação eleitoral.

A BlackCore, que se apresentava no seu site como "uma empresa de elite especializada em influência, cibersegurança e tecnologia, concebida para a era moderna da guerra de informação", já era suspeita de interferência nas eleições locais francesas em março. O novo relatório revela que a empresa expandiu significativamente o seu alcance. No caso escocês, a empresa coordenou ataques contra o primeiro-ministro John Swinney e o seu governo através de 256 contas na rede social X. A conta pessoal de Swinney foi alvo de 652 ataques, enquanto a do Partido Nacional Escocês recebeu 338 e a do Governo escocês 112. No total, foram distribuídos cerca de 1.400 comentários coordenados através desta rede de contas falsas.

O contexto político oferece pistas sobre as motivações. Swinney e o seu executivo têm sido vozes críticas consistentes das ações de Israel em Gaza e na Cisjordânia. O primeiro-ministro escocês descreveu o conflito em Gaza como uma "catástrofe humanitária provocada pelo Homem" e sugeriu que pode estar em curso um genocídio perpetrado por Israel. Mais do que críticas verbais, o Governo escocês implementou sanções concretas contra Israel, congelando subsídios estatais para empresas de armamento que fornecem material a Telavive e suspendendo apoio às exportações para o país.

Marc-Antoine Brillant, chefe de interferência digital da Viginum, explicou que as investigações confirmaram um padrão consistente de operações. "Este modus operandi não se limitou às eleições municipais em França. Parece também ter sido usado para realizar operações de interferência digital estrangeira em outros países ou regiões, como Angola, Togo, as eleições na Escócia e as eleições municipais de 2025 em Nova Iorque," afirmou, falando ao lado do primeiro-ministro francês Sébastien Lecornu. No entanto, Brillant sublinhou uma limitação crucial das investigações: ainda não foi possível identificar quem financiou ou patrocinou estas operações.

A resposta de Israel foi cautelosa. O Governo israelita afirmou que aguarda o relatório oficial francês antes de decidir se conduzirá a sua própria investigação, negando simultaneamente qualquer interesse em interferir nas eleições de outros países. O Governo escocês e o gabinete do Governo do Reino Unido foram contactados para comentar, mas ainda não emitiram declarações oficiais.

A BlackCore respondeu de forma abrupta. Após ser contactada por jornalistas, a empresa removeu todo o conteúdo do seu site e não respondeu a pedidos de esclarecimento. Esta ação levanta questões sobre a natureza da operação e a sua possível ligação a estruturas governamentais ou privadas de segurança. O que fica claro é que as operações foram sofisticadas, coordenadas e direcionadas especificamente contra líderes políticos que criticam Israel — um padrão que se repetiu em múltiplas jurisdições.

Este modus operandi não se limitou às eleições municipais em França. Parece também ter sido usado para realizar operações de interferência digital estrangeira em outros países ou regiões, como Angola, Togo, as eleições na Escócia e as eleições municipais de 2025 em Nova Iorque.
— Marc-Antoine Brillant, chefe de interferência digital da Viginum
O Governo israelita afirmou que aguarda o relatório oficial francês antes de decidir se conduzirá a sua própria investigação, negando qualquer interesse em interferir nas eleições de outros países.
— Governo israelita
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Porque é que a Escócia foi alvo? Parece uma escolha muito específica para uma empresa de cibersegurança.

Model

Porque John Swinney e o seu governo não se calaram. Eles chamaram genocídio ao que está a acontecer em Gaza, congelaram subsídios a empresas de armamento israelitas, suspenderam apoio às exportações. Não é uma crítica passageira — é política de Estado.

Inventor

Mas quem financiou isto? A Viginum não conseguiu descobrir?

Model

Não. E é aí que a história fica mais sombria. Sabem que foi a BlackCore, sabem o padrão, mas os patrocinadores — se existem — permanecem invisíveis. Pode ser um governo, pode ser um ator privado. Ninguém sabe.

Inventor

1.400 comentários coordenados através de 256 contas falsas. Isso parece muito organizado para ser apenas uma empresa privada.

Model

Exatamente. O nível de sofisticação, a replicação do mesmo padrão em Angola, Togo, Nova Iorque, França — isto tem a marca de uma operação estatal ou de uma empresa que trabalha para um Estado.

Inventor

E a BlackCore simplesmente desapareceu?

Model

Removeu o site inteiro assim que os jornalistas bateram à porta. Não respondeu a perguntas. É o tipo de comportamento que sugere que havia algo a esconder.

Inventor

Qual é o risco real aqui? Além da manipulação óbvia?

Model

O risco é que eleições em democracias estejam a ser alvo de campanhas coordenadas de desinformação baseadas em posições políticas sobre conflitos internacionais. Se isto não for investigado e punido, torna-se um precedente.

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