O fóssil de 165 milhões de anos preservou ossos delicados da garganta raramente encontrados em registros fósseis tão antigos. O Megacauda era um animal semiaquático que combinava características de ornitorrinco e lontra, pesando entre 1 e 2 quilos.
Fóssil de 165 milhões de anos revela origem de estruturas para amamentação
Metade parecido com um ornitorrinco, metade com uma lontra
Por que um fóssil de garganta importa tanto? Parece uma coisa muito específica.
Porque a garganta é onde acontece a amamentação, a deglutição, tudo que define um mamífero. Mas esses ossos são tão pequenos e frágeis que quase nunca sobrevivem fossilizados.
Espera. Os músculos não foram preservados, certo? Então estamos inferindo que funcionavam como nos mamíferos modernos?
Sim. Os ossos estão lá, os pontos de ligação estão lá. Comparamos com animais vivos e a estrutura é a mesma.
Mas isso é uma inferência. Não é observação direta.
Verdade. Mas é uma inferência muito bem fundamentada. Os ossos não mentem.
E o Megacauda em si? Como era realmente?
Um animal estranho. Pesava um ou dois quilos. Tinha pelve de ornitorrinco, mas dentes de predador aquático. Caçava peixes e salamandras.
Então não era um ornitorrinco ancestral?
Não. Era um docondonte, um grupo extinto próximo da linhagem que deu origem aos mamíferos modernos. Coisa diferente.
E o que isso muda para a gente?
Recua a origem da amamentação muito mais fundo na história. Essas estruturas já existiam 165 milhões de anos atrás.
Em um animal que não era exatamente um mamífero moderno.
Certo. Mas era um parente próximo. E tinha as mesmas estruturas que usamos para amamentar.
The Pulse
- Fóssil com 165 milhões de anos encontrado na Mongólia Interior, China
- Megacauda sungei pesava entre 1 e 2 quilos
- Preservou ossos delicados da garganta raramente encontrados em fósseis tão antigos
- Pertencia aos docodontes, grupo extinto próximo da linhagem dos mamíferos modernos
O fóssil de 165 milhões de anos preservou ossos delicados da garganta raramente encontrados em registros fósseis tão antigos. O Megacauda era um animal semiaquático que combinava características de ornitorrinco e lontra, pesando entre 1 e 2 quilos.
Fóssil de Megacauda sungei encontrado na China preserva estruturas raras da garganta que indicam mecanismos de amamentação, deglutição e sucção já existiam entre parentes antigos dos mamíferos no Jurássico.
Um fóssil com 165 milhões de anos desenterrado na Mongólia Interior, na China, está reescrevendo o que sabemos sobre quando os mamíferos desenvolveram a capacidade de amamentar, beber e engolir. O espécime, batizado de Megacauda sungei, viveu durante o período Jurássico e pertencia aos docodontes, um grupo extinto que estava próximo da linhagem que eventualmente geraria os mamíferos modernos. O que torna essa descoberta notável não é apenas sua idade, mas o que ela preservou: pequenas estruturas ósseas da garganta que normalmente desaparecem há muito tempo no registro fóssil.
Zhe-Xi Luo, professor de Biologia Organísmica e Anatomia da Universidade de Chicago e um dos autores do estudo publicado na revista Nature nesta quarta-feira, descreve o Megacauda como uma criatura moldada por duas linhas evolutivas convergentes. Sua pelve, patas traseiras e pés se assemelham aos do ornitorrinco moderno. Seus dentes e mandíbulas, porém, lembram os de um predador aquático. O animal pesava entre um e dois quilos, tornando-o o maior mamaliaforme conhecido do Jurássico, de acordo com os pesquisadores.
A importância real da descoberta reside na garganta. Nos mamíferos atuais, pequenos ossos e músculos controlam movimentos da língua, do palato e a passagem de alimentos e líquidos. Essas estruturas são tão delicadas que raramente sobrevivem milhões de anos de fossilização. No caso do Megacauda, os ossos foram preservados em posição suficiente para que os cientistas reconstruíssem parte da anatomia da garganta e a comparassem com a de animais vivos, como gambás e cães. A parte inferior do crânio e o teto da garganta já apresentavam as mesmas estruturas ósseas que sustentam os músculos da garganta e dão suporte ao movimento da língua em mamíferos modernos.
Essas estruturas estão diretamente relacionadas à sucção de leite nos filhotes e à passagem de líquidos e alimentos nos adultos. Os cientistas não encontraram os músculos preservados diretamente, mas inferiram sua presença e funcionamento a partir dos ossos e dos pontos de ligação dessas estruturas, comparando-os com mamíferos atuais. Segundo Luo, essa descoberta recua a origem dessas características e funções biológicas dos mamíferos muito mais fundo na história evolutiva. "Somos mamíferos. Com esse fóssil, agora entendemos um pouco melhor nossa própria evolução", afirmou o pesquisador.
Além da garganta, o modo de vida do Megacauda oferece pistas sobre a diversidade dos primeiros mamíferos. Enquanto o ornitorrinco se alimenta principalmente de pequenos invertebrados, o Megacauda provavelmente caçava peixes, salamandras e outros animais aquáticos, com dentes adaptados para cortar alimento. Luo compara essa ecologia às lontras de rio, inclusive à ariranha brasileira. "É uma versão menor e muito mais antiga, de forma análoga, da famosa ariranha brasileira. Ele é metade parecido com um ornitorrinco e metade parecido com uma lontra." Os cientistas acreditam que o animal procurava alimento na água, mas passava parte do tempo em terra e provavelmente se abrigava em tocas próximas a lagos e rios.
O fóssil foi encontrado em rochas datadas entre 163 e 168 milhões de anos. A descoberta reforça que os parentes dos mamíferos que viveram na época dos dinossauros tinham modos de vida muito mais variados do que se imaginava anteriormente. Já são conhecidos animais terrestres, escavadores, arborícolas, planadores e nadadores daquele período. Com o Megacauda, os cientistas agora têm evidências de que as estruturas biológicas fundamentais para a amamentação e a alimentação dos mamíferos modernos já estavam em funcionamento centenas de milhões de anos atrás, muito antes do surgimento das espécies que conhecemos hoje.
Notable Quotes
O Megacauda é uma quimera moldada por duas linhas de evolução convergente. Sua pelve, patas traseiras e pés são muito parecidos com os do ornitorrinco. Mas seus dentes e mandíbulas lembram os de um predador aquático.— Zhe-Xi Luo, professor de Biologia Organísmica e Anatomia da Universidade de Chicago
Somos mamíferos. Com esse fóssil, agora entendemos um pouco melhor nossa própria evolução.— Zhe-Xi Luo