Fogachos na menopausa aumentam risco cardiovascular, aponta pesquisa

O sono é sempre multifatorial, não apenas uma questão de fogachos
Pesquisadora explica por que a terapia hormonal nem sempre resolve problemas de sono na menopausa.
Mark

Por que os fogachos, que parecem ser apenas um incômodo, estão ligados a problemas cardíacos?

Mimi

Porque cada fogacho causa uma dilatação e contração dos vasos sanguíneos. Repetido muitas vezes, esse ciclo danifica as paredes dos vasos, aumentando o risco cardiovascular futuro.

Luke

Mas quantas vezes é "muitas vezes"? O estudo quantifica a frequência ou a intensidade necessária para causar dano?

Mark

E o sono? Por que as mulheres acordam se o fogacho ainda não começou?

Mimi

Porque o sono durante a menopausa é multifatorial. Os fogachos contribuem, mas não são a única causa. Há outras mudanças hormonais e biológicas em jogo.

Luke

Então a terapia hormonal deveria resolver o problema do sono se os fogachos fossem a causa principal, mas não resolve. Isso sugere que há algo mais que ainda não entendemos completamente.

Mark

A redistribuição de gordura é inevitável?

Mimi

Está ligada à queda de estrogênio. O corpo passa a ter mais androgênios, hormônios masculinos, e a gordura se acumula no abdômen em vez de se distribuir como antes.

Luke

Mas a redistribuição de gordura é reversível com exercício e dieta, ou é uma mudança permanente da menopausa?

Mark

Então o tratamento precoce dos fogachos pode prevenir problemas cardíacos?

Mimi

Pode reduzir o tempo de exposição a esses ciclos prejudiciais. Novos medicamentos específicos devem chegar ao Brasil nos próximos anos, oferecendo alternativas à terapia hormonal.

Luke

"Pode reduzir" — mas há evidência de que reduzir fogachos cedo realmente diminui eventos cardíacos depois? Ou é ainda uma hipótese?

  • Entre 70% e 80% das mulheres experimentam fogachos durante climatério e perimenopausa
  • Dilatação e contração repetidas dos vasos sanguíneos durante fogachos provocam lesões nas paredes vasculares
  • Mais de 60% das mulheres apresentam alterações do sono durante a transição para a menopausa
  • A gordura abdominal está mais associada a alterações metabólicas e cardiovasculares

Cerca de 70-80% das mulheres experimentam fogachos durante climatério e perimenopausa, fenômeno causado por desregulação de neurônios KNDy no hipotálamo. Dilatação e contração repetidas dos vasos sanguíneos durante fogachos podem provocar lesões nas paredes vasculares, aumentando risco cardiovascular futuro.

Estudo associa fogachos da menopausa a maior risco cardiovascular. Alterações repetidas nos vasos sanguíneos durante episódios de calor podem danificar paredes vasculares e aumentar probabilidade de eventos cardíacos.

Drew Barrymore interrompeu uma entrevista com Jennifer Aniston, abriu o paletó, expirou e começou a se abanar. "Acho que estou tendo meu primeiro calorão", anunciou. O momento, capturado em vídeo, viralizou nas redes sociais — um instante de leveza que mascara uma realidade fisiológica muito mais complexa. Barrymore sentiu algo que a maioria das mulheres experimentará em algum momento de suas vidas. Entre 70% e 80% delas apresentam fogachos, aquelas ondas repentinas de calor intenso, durante o climatério e a perimenopausa. Por décadas, esses episódios foram tratados como um mero incômodo, um desconforto passageiro associado à transição hormonal. Mas pesquisas recentes sugerem que há muito mais em jogo do que simplesmente lidar com o calor.

Um estudo publicado no Journal of the American Heart Association estabeleceu uma ligação preocupante entre os fogachos e o risco cardiovascular aumentado. O mecanismo por trás disso começa no hipotálamo, onde um grupo de neurônios chamados KNDy participa da regulação tanto do sistema reprodutivo quanto da temperatura corporal. Quando os níveis de estrogênio caem durante a menopausa, esse mecanismo de controle se desregula, gerando as ondas de calor. Mas o problema não termina ali. Durante cada fogacho, os vasos sanguíneos sofrem uma alteração dramática: dilatam muito e depois contraem novamente. Essa repetição constante de expansão e contração provoca lesões nas paredes dos vasos sanguíneos, aumentando a probabilidade de problemas cardiovasculares futuros. Mulheres que experimentam mais fogachos, portanto, correm maior risco de eventos cardíacos do que aquelas que têm menos episódios ou nenhum.

O tratamento precoce dos fogachos emerge como uma estratégia potencial para reduzir o tempo de exposição a esses ciclos prejudiciais. Historicamente, a terapia hormonal foi a principal opção de tratamento disponível, mas novos medicamentos específicos para os fogachos devem chegar ao Brasil nos próximos anos, oferecendo alternativas adicionais. Ainda assim, controlar os fogachos sozinho não resolve a questão mais ampla da saúde cardiovascular na menopausa. O risco aumentado após a menopausa já é bem documentado e está associado principalmente à queda dos níveis de estrogênio, que oferecia proteção ao sistema cardiovascular. Homens podem sofrer infartos ao longo de toda a vida, mas mulheres tendem a ver seu risco aumentar significativamente após a menopausa, quando perdem essa proteção hormonal.

O sono complica ainda mais o quadro. Mais de 60% das mulheres experimentam algum tipo de alteração do sono durante a transição para a menopausa, e a privação de sono é um fator de risco independente que afeta diversos processos biológicos. A falta de sono adequado está associada ao ganho de peso, a escolhas alimentares menos saudáveis e à redução da atividade física. Embora os fogachos possam contribuir para a fragmentação do sono, especialmente quando ocorrem durante a noite, a relação não é tão direta quanto parece. Estudos que avaliaram objetivamente o momento dos fogachos e dos despertares descobriram algo surpreendente: em uma parcela significativa dos casos, as mulheres acordam antes de apresentar o episódio de calor. Nem todo despertar noturno durante a menopausa é causado por um fogacho. Isso explica por que a terapia hormonal, embora reduza os fogachos, nem sempre elimina os problemas de sono — o sono é sempre multifatorial, influenciado por múltiplas causas simultâneas.

A menopausa reúne uma convergência de fatores de risco cardiovascular que se somam perigosamente. Um deles é a redistribuição da gordura corporal. Quando o estrogênio diminui, o corpo passa a ter uma proporção maior de androgênios, os hormônios masculinos. O padrão de distribuição de gordura muda: aquele desenho de pera, mais comum nas mulheres, se transforma em um padrão mais parecido com o de maçã, associado aos homens. Essa mudança é relevante porque a gordura acumulada na região abdominal está mais associada a alterações metabólicas e cardiovasculares do que a gordura distribuída em outras partes do corpo. A mulher pode perder parte da proteção cardiovascular relacionada ao estrogênio e, simultaneamente, começar a acumular outros fatores de risco.

A lógica não é a de um único fator isolado, mas a de uma combinação de mudanças que ocorrem simultaneamente. Uma mulher pode perder a proteção cardiovascular proporcionada pelo estrogênio, apresentar mais fogachos, ter alterações no sono, ganhar peso e reduzir a atividade física — este último frequentemente por conta do cansaço acumulado. São vários fatores de risco que se somam e contribuem para que essa paciente tenha um evento cardiovascular no futuro. Entender essa complexidade é essencial para uma abordagem de saúde que vá além do tratamento isolado dos sintomas mais visíveis e reconheça a menopausa como um período crítico de vigilância cardiovascular.

O calorão é uma falha no mecanismo de regulação de temperatura quando o estrogênio cai
— Jan Pawel Pachnicki, ginecologista e professor na Universidade Federal do Paraná
A mulher tende a aumentar o risco de infarto depois da menopausa, quando deixa de ter a proteção do estrogênio sobre o sistema cardiovascular
— Jan Pawel Pachnicki
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