Marcos Degaut, assessor de política externa, apresenta em reuniões fechadas plano de "reforma Marco Rubio" com metas de exportação e investimento para diplomatas. Proposta inclui concentração em G35 (35 países prioritários), redução de embaixadas dispersas e reforma do sistema de promoções baseado em mérito, não senioridade.
Flávio planeja reforma do Itamaraty inspirada em modelo de Marco Rubio
Mérito em vez de senioridade, mas o modelo vem de um lugar onde lealdade política pesou mais
Por que Flávio Bolsonaro estaria olhando para o modelo de Marco Rubio especificamente? O que há de atraente nele?
Rubio fez uma reestruturação muito agressiva — eliminou 1.300 vagas, fechou departamentos, e substituiu diplomatas de carreira por indicados políticos. Para Bolsonaro, isso provavelmente significa uma forma de concentrar poder, de fazer a política externa responder mais diretamente aos objetivos da campanha.
Mas é importante notar que Degaut está apresentando isso em reuniões fechadas, não como política oficial. A campanha disse que não vai se posicionar sobre planos de política externa. Então temos uma proposta que circula, mas não está confirmada como plano do candidato.
E dentro do Itamaraty, como isso seria recebido? Há apoio?
Há insatisfação real com as promoções lentas. Diplomatas esperam dez anos ou mais sem avançar. Então a promessa de um sistema baseado em mérito, não em senioridade, pode soar atraente para alguns.
Verdade, mas há também um risco. Rubio usou "mérito" como critério, mas na prática promoveu pessoas leais a Trump. A questão é: o que conta como mérito? Se for fidelidade política, isso pode criar um problema maior que o imobilismo atual.
Degaut diz que não haverá "caça às bruxas". Isso é credível?
Ele nega perseguição política, mas o modelo que está propondo vem de um lugar onde exatamente isso aconteceu. Nos EUA, 91% dos embaixadores agora são indicados políticos, não diplomatas de carreira.
E Degaut não respondeu quando a Folha tentou contatá-lo. Então temos uma proposta circulando, mas o principal arquiteto dela não está disponível para explicar ou defender publicamente. Isso deixa muita coisa em aberto.
Se Flávio ganhar, Eduardo Bolsonaro teria o Itamaraty?
Há avaliação de que seria difícil negar a ele, dado o peso que teria na campanha. Mas também há alternativas sendo discutidas, como ele ir para Washington como embaixador.
Isso é especulação, não confirmado. O que sabemos é que há vários nomes na corrida — Azevedo, Tereza Cristina, Troyjo. A decisão final não está tomada.
O Pulso
- Marcos Degaut apresenta plano de "reforma Marco Rubio" em reuniões fechadas com diplomatas
- Proposta concentra recursos em 35 países prioritários (G35) em vez de manter embaixadas dispersas
- Departamento de Estado americano eliminou 1.300 vagas; apenas 9% dos embaixadores agora vêm de carreira
- Diplomatas brasileiros esperam mais de dez anos sem promoção; há insatisfação com critérios atuais
- Campanha de Flávio Bolsonaro nega que Degaut ou Eduardo Bolsonaro falem em nome do candidato
Marcos Degaut, assessor de política externa, apresenta em reuniões fechadas plano de "reforma Marco Rubio" com metas de exportação e investimento para diplomatas. Proposta inclui concentração em G35 (35 países prioritários), redução de embaixadas dispersas e reforma do sistema de promoções baseado em mérito, não senioridade.
Se eleito, Flávio Bolsonaro pretende implementar no Itamaraty um modelo de reforma baseado no secretário de Estado americano Marco Rubio, com reestruturação de carreiras, metas comerciais e foco em 35 países prioritários.
Flávio Bolsonaro, senador pelo PL de Rio de Janeiro, está planejando uma transformação radical do Itamaraty caso vença a eleição presidencial. O modelo que sua equipe propõe vem direto de Washington: é baseado na reestruturação que Marco Rubio, secretário de Estado americano, implementou no Departamento de Estado dos EUA. Quem está levando essa ideia adiante é Marcos Degaut, um assessor de política externa que trabalha ao lado de Eduardo Bolsonaro, ex-deputado e figura central nas discussões sobre relações internacionais da campanha.
Degaut tem apresentado essas propostas em reuniões fechadas com diplomatas e formuladores de política externa, descrevendo o que chama de "reforma Marco Rubio". A ideia central é reorganizar completamente as carreiras diplomáticas brasileiras. Em vez do modelo atual, onde diplomatas trabalham de forma mais generalista, eles seriam alocados em regiões geográficas e temas específicos, com metas concretas a cumprir: exportações, investimentos, inserção comercial. Além disso, todo o sistema de promoções seria reformulado. Hoje, a senioridade e o tempo de carreira pesam muito nas ascensões; a proposta é mudar isso para um critério baseado em desempenho e mérito.
A estratégia geográfica também seria radicalmente diferente. Em vez de manter embaixadas em praticamente todos os países, o plano concentraria recursos em 35 nações consideradas prioritárias para o interesse nacional brasileiro — o chamado G35, que incluiria os membros do G20. Alguns postos se tornariam "superpostos", recebendo mais orçamento e pessoal. Na África, por exemplo, apenas África do Sul e Egito receberiam esse tratamento especial. Degaut tem dito que essa abordagem não significa um alinhamento automático aos Estados Unidos. Ele defende a manutenção dos laços econômicos com a China, mas quer intensificar as relações com Washington através de acordos comerciais e negociações sobre minerais críticos, reduzindo a dependência brasileira das exportações de commodities para Pequim. Ele cita os Emirados Árabes Unidos como modelo a seguir e fala em "realismo propositivo" como norte da política externa.
O modelo que Degaut quer importar já foi testado nos EUA. Quando Rubio assumiu o Departamento de Estado, eliminou 1.300 vagas, fechou departamentos inteiros e postos diplomáticos, e estabeleceu metas quantitativas e qualitativas — incluindo critérios como fidelidade à agenda de Donald Trump. Ele decretou que mérito seria o principal critério para promoções, não tempo de carreira. O resultado foi dramático: apenas 9% dos embaixadores americanos agora vêm do serviço diplomático de carreira. Nos 50 anos anteriores, esse percentual variava entre 57% e 74%. Em outras palavras, Rubio substituiu funcionários de carreira por indicados políticos em uma escala sem precedentes.
Degaut reconheceu em conversas com diplomatas que haveria necessidade de trazer pessoas de fora do Itamaraty para algumas funções. Mas negou que isso significasse uma "caça às bruxas" com perseguição por motivos políticos. Nas promoções, disse que a senioridade não seria mais critério absoluto — a avaliação de como cada diplomata cumpriu sua função pesaria na decisão de ascensão.
O contexto interno do Itamaraty torna essas propostas potencialmente atrativas para parte da instituição. Há insatisfação disseminada com a lentidão das promoções. Entre 2006 e 2010, o Brasil admitiu quase 535 novos diplomatas, mas as limitações de quantos podem ser promovidos por período e o número restrito de postos criaram um gargalo. Há diplomatas há mais de dez anos sem receber qualquer promoção. Gustavo Buttes, presidente da Associação e Sindicato dos Diplomatas Brasileiros, descreve o problema como "imobilismo dentro da carreira", com diplomatas passando muitos anos sem perspectiva clara de progressão, o que gera descontentamento e afeta a motivação de diferentes gerações.
O próprio Degaut tem histórico em cargos de governo. Foi secretário Especial de Assuntos Estratégicos no governo Michel Temer e secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa no governo Jair Bolsonaro. Recentemente, presidiu a divisão para América Latina da Edge Group, uma indústria de armamentos dos Emirados Árabes. Quando procurado pela Folha, não respondeu às tentativas de contato. A campanha de Flávio Bolsonaro disse que nem Degaut nem Eduardo Bolsonaro falam em nome do candidato e que a campanha não vai se posicionar sobre planos específicos de política externa.
Se Flávio vencer, há avaliação de que Eduardo sairia muito fortalecido, especialmente após seu lobby por medidas de Trump contra o governo Lula. Seria difícil negar a ele o comando do Itamaraty se ele quiser, embora uma alternativa em discussão seja Eduardo assumir a Embaixada do Brasil em Washington. Outros nomes na corrida para chefiar o Itamaraty incluem Roberto Azevedo, ex-diretor-geral da OMC, e a senadora Tereza Cristina (Progressistas-MS). Marcos Troyjo, ex-presidente do Banco do Brics, também corre por fora. Degaut poderia ocupar algum papel no Ministério da Defesa ou no próprio Itamaraty.
Citações Notáveis
O principal problema hoje é o imobilismo dentro da carreira. A maioria dos diplomatas passa muitos anos sem perspectiva clara de progressão.— Gustavo Buttes, presidente da Associação e Sindicato dos Diplomatas Brasileiros