Primeira votação registrou menor diferença percentual desde redemocratização, com polarização extrema entre candidatos de direita e esquerda. Abstenção recorde de 21,08% tende a prejudicar mais Lula, pois eleitores menos escolarizados historicamente o apoiam mas não compareceram.
Flávio e Lula disputam 9 milhões de votos da terceira via e 33 milhões de ausentes
33,4 milhões não votaram — um recorde que pode reescrever o resultado
Como assim a abstenção prejudica mais Lula se historicamente ele é apoiado por eleitores de menor renda?
Porque em 2022 esses eleitores votavam nele. Agora há insatisfação com a economia. Não é que deixaram de apoiá-lo ideologicamente, é que não estão convencidos de que as coisas vão melhorar.
Mas espera — os dados detalhados sobre o perfil de quem se absteve agora ainda não existem, certo? Estamos usando o padrão de 2022 como proxy.
Exato. Sabemos que analfabetos tinham 52% de abstenção em 2022, mas não sabemos se esse padrão se repetiu agora.
E quanto aos votos da terceira via? São 9,3 milhões mesmo?
Mais de 9,3 milhões. A maioria está em São Paulo, Minas e Rio, onde Flávio já venceu.
Mas nem todos esses votos vão migrar. Cury e Renan recusaram endossar qualquer um dos dois.
Então Flávio não tem garantia de pegar todos esses votos?
Não. Ele tem Caiado e Zema declarados, mas o resto é incerto. Depende de como esses eleitores se comportam.
E Lula aposta em mobilizar os ausentes, especialmente no Nordeste. Mas em São Paulo, Minas e Rio, onde há mais abstenção, Flávio já está na frente.
Exatamente. É um quebra-cabeça difícil para o petista.
O Pulso
- Flávio Bolsonaro: 47,03% vs Lula: 45,16% — menor diferença desde redemocratização
- 33,4 milhões de abstenções (21,08% do eleitorado apto) — recorde histórico
- 9,3 milhões de votos da terceira via em disputa, concentrados em SP (2,5 mi), MG (1 mi) e RJ (700 mil)
- Nordeste registrou 8 milhões de ausentes; Bahia teve 19,97% de abstenção (2,2 mi pessoas)
Primeira votação registrou menor diferença percentual desde redemocratização, com polarização extrema entre candidatos de direita e esquerda. Abstenção recorde de 21,08% tende a prejudicar mais Lula, pois eleitores menos escolarizados historicamente o apoiam mas não compareceram.
No segundo turno presidencial brasileiro, Flávio Bolsonaro (47,03%) e Lula (45,16%) buscam conquistar 9 milhões de votos da terceira via e reduzir recorde de 33,4 milhões de abstenções, especialmente no Nordeste.
O primeiro turno da eleição presidencial brasileira, realizado no domingo 4 de outubro, confirmou um cenário de polarização extrema. O senador Flávio Bolsonaro, do PL, recebeu 47,03% dos votos válidos, enquanto o presidente Lula, do PT, conquistou 45,16%. A diferença de menos de dois pontos percentuais marca a menor margem registrada em um primeiro turno desde o retorno da democracia ao país. Os 7,81% restantes foram distribuídos entre candidatos de segundo e terceiro escalão, deixando claro que a disputa se concentra nos dois nomes principais.
Agora ambos os candidatos se voltam para o segundo turno em busca dos votos que ainda não conquistaram. O desafio é triplo: reduzir o número recorde de eleitores ausentes, atrair os votantes que escolheram a terceira via e aumentar a rejeição ao adversário. O cenário de abstenção foi particularmente alarmante: 33,4 milhões de brasileiros não compareceram às urnas, um recorde histórico que representa 21,08% do eleitorado apto. No Nordeste, região historicamente favorável a Lula, foram registrados 8 milhões de ausentes.
Para Flávio, a estratégia passa pela consolidação de sua liderança e pela atração dos votos que foram para candidatos alinhados à direita no primeiro turno. Augusto Cury, do Avante, Renan Santos, da Missão, Ronaldo Caiado, do PSD, e Romeu Zema, do Novo, são os nomes que concentram esses votos. Caiado e Zema já declararam preferência pelo candidato do PL, enquanto Cury e Renan, que obtiveram melhor desempenho, recusaram endossar qualquer um dos finalistas. No total, estão em disputa mais de 9,3 milhões de votos da terceira via, com concentração nos maiores colégios eleitorais: 2,5 milhões em São Paulo, 1 milhão em Minas Gerais e 700 mil no Rio de Janeiro.
Para Lula, o caminho é mais complexo. Sem aliados fortes entre os presidenciáveis derrotados, sua aposta recai sobre a mobilização dos ausentes e o aproveitamento de redutos eleitorais históricos. O presidente questionou publicamente o que teria acontecido com os 30 milhões de pessoas que não votaram, indagando se teriam perdido o senso de responsabilidade ou se não se sentiriam representadas. Seus apoiadores desenvolveram uma ferramenta chamada "Onde dá para conversar", que mapeia seções eleitorais para identificar eleitores ausentes e votantes da terceira via.
Especialistas apontam que a alta abstenção tende a prejudicar mais Lula do que Flávio. O cientista político Antônio Lavareda, presidente da Associação Brasileira de Pesquisas Eleitorais, afirma que a abstenção penaliza o petista porque ele possui menos apoio entre eleitores menos escolarizados em comparação com 2022, período em que havia maior satisfação com a economia. Dados de 2022 mostram que analfabetos registraram 52% de abstenção no primeiro turno, enquanto entre eleitores com ensino superior completo a taxa foi de apenas 12,4%. O perfil dos ausentes é predominantemente masculino, com menor grau de instrução e concentrado nas faixas etárias entre 21 e 29 anos e acima de 70 anos.
Os três maiores colégios eleitorais do país também apresentam os maiores índices de abstenção, complicando ainda mais o cenário para Lula. Em São Paulo, foram registrados mais de 7,6 milhões de ausentes, representando 22,5% do eleitorado apto. Minas Gerais teve 3,7 milhões de abstenções, ou 22,8%, e o Rio de Janeiro marcou 23,3%, com 2,9 milhões de pessoas. Flávio superou Lula em todos os três estados no primeiro turno. Há, porém, uma ressalva importante: nesses estados, a abstenção pode não diminuir significativamente no segundo turno, uma vez que as disputas pelo governo estadual já foram resolvidas na primeira rodada.
Regionalmente, o desempenho da terceira via varia consideravelmente. Em Goiás, governado por Caiado, a terceira via recebeu 13,83% dos votos, a maior proporção do país, e esses votos tendem a migrar para Flávio, que marcou 53% contra 31% de Lula no estado. No Distrito Federal, a terceira via conquistou 10,59% dos votos, e Flávio também liderou com 51%. No Sul, a terceira via somou 1,5 milhão de votos, representando 8% do total nos três estados. No Amapá, a polarização é ainda mais extrema: Flávio e Lula receberam 45% cada um, com o presidente à frente por apenas 0,04 ponto percentual, enquanto 40 mil eleitores optaram pela terceira via e 100 mil se abstiveram.
Entre os brasileiros que residem no exterior, a abstenção foi ainda mais pronunciada: 62% não votaram, totalizando 574 mil pessoas. Lula recebeu 47% dos votos dos que compareceram, Flávio 43%, e candidatos da terceira via 9%. O segundo turno será decidido pela capacidade de cada candidato de mobilizar esses eleitores dispersos e convencer os votantes que ainda não se decidiram entre as duas principais opções.
Citações Notáveis
A abstenção vai prejudicar Lula porque ele tem menos votos entre os menos escolarizados do que tinha em 2022. Há uma insatisfação com a economia e a percepção de que ela não melhorará.— Antônio Lavareda, cientista político e presidente da Associação Brasileira de Pesquisas Eleitorais
Tem uma coisa que nós temos que trabalhar: são 30 milhões de pessoas que não foram votar. O que aconteceu com essas pessoas? Eles perderam o sentido de responsabilidade? Eles não foram convencidos?— Lula, presidente, no dia seguinte ao primeiro turno