Flávio replica signos visuais e discursivos do pai—bandeira brasileira, capacetes de motocicleta, leitura de manchetes—em transmissões ao vivo semanais para mobilizar a base bolsonarista. A estratégia intensifica-se em contexto de dificuldades na pré-campanha: falta de alianças com centrão, notícias negativas sobre ligações com banqueiro e atrito com Michelle Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro emula pai e reforça identidade de herdeiro em meio a isolamento político
Para quem não lembrava, esse aqui é o candidato do Bolsonaro
Por que Flávio precisa tanto parecer com o pai agora? Ele não poderia construir sua própria identidade política?
Poderia, mas a base dele é a base do Bolsonaro. Quando você herda um eleitorado, herda também a linguagem daquele eleitorado. Eles querem ver continuidade.
Mas isso não o torna apenas uma cópia? Um substituto?
Sim, há esse risco. Por isso ele tenta equilibrar: emula o pai nas lives, na estética, no confronto com o STF, mas fala de Bolsa Família e de pautas de mulheres. É tentar ser Bolsonaro e não ser Bolsonaro ao mesmo tempo.
E funciona? Os eleitores indecisos acreditam nessa diferença?
Segundo os pesquisadores, sim, em parte. O eleitor pendular consegue dizer que Flávio é diferente porque não é tão agressivo, não fala palavrão. Mas a questão real é se a base dele vai para as eleições empolgada ou desapontada por não poder votar no Jair.
Então a emulação é principalmente para manter a base mobilizada?
Exatamente. A campanha estava desmobilizada, havia críticas internas, notícias negativas. Trazer o marqueteiro Duda Lima e intensificar as lives é uma forma de dizer: olhem, esse aqui é o candidato do Bolsonaro, é a continuidade. É limpeza de terreno antes das eleições começarem de verdade.
O Pulso
- Flávio replica signos visuais e discursivos do pai em lives semanais: bandeira brasileira, capacetes de motocicleta, leitura de manchetes
- Estratégia intensifica-se em contexto de isolamento político: dificuldades com alianças do centrão, notícias negativas sobre ligações com banqueiro Daniel Vorcaro e atrito com Michelle Bolsonaro
- Marqueteiro Duda Lima foi anunciado como chefe de comunicação em 30 de julho, após críticas de bolsonaristas sobre incompetência da equipe
- Flávio promete subir a rampa do Palácio do Planalto ao lado do pai, que lhe entregará a faixa presidencial, se eleito
Flávio replica signos visuais e discursivos do pai—bandeira brasileira, capacetes de motocicleta, leitura de manchetes—em transmissões ao vivo semanais para mobilizar a base bolsonarista. A estratégia intensifica-se em contexto de dificuldades na pré-campanha: falta de alianças com centrão, notícias negativas sobre ligações com banqueiro e atrito com Michelle Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro intensifica emulação de características estéticas e discursivas de Jair Bolsonaro em sua pré-campanha presidencial, reproduzindo lives e narrativas do ex-presidente para engajar apoiadores e contornar isolamento político.
Numa quinta-feira à noite, Flávio Bolsonaro abre uma transmissão ao vivo nas redes sociais. A bandeira brasileira está pendurada atrás dele. À direita, capacetes de motocicleta repousam sobre uma bancada. Ele veste a camiseta de um time de futebol da série C. Durante a live, fala sobre perseguição, sobre ser uma ameaça ao sistema, sobre fake news na mídia. A cena é familiar porque é quase idêntica às transmissões que seu pai, Jair Bolsonaro, fazia quando era presidente. Mas desta vez quem está na frente da câmera é Flávio, pré-candidato à Presidência da República.
Nas últimas três semanas, Flávio tem reforçado deliberadamente sua identidade como herdeiro político do pai. Ele emula não apenas a estética das lives—a bandeira, os objetos ao fundo, a camiseta de time—mas também o discurso e as narrativas. Em uma transmissão no dia 23 de julho, Flávio anunciou explicitamente que faria como o presidente Bolsonaro costumava fazer: ler manchetes de jornal e criticar a grande mídia por não cobrir certos assuntos. Naquela mesma ocasião, prometeu que, se eleito, subiria a rampa do Palácio do Planalto ao lado do pai, que lhe entregaria a faixa presidencial.
Essa estratégia não é casual. Ela intensifica-se em um momento de isolamento político real. Flávio enfrenta dificuldades para atrair partidos do centrão para suas alianças. Notícias negativas atingem a pré-campanha: seus laços com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e o atrito público com Michelle Bolsonaro, madrasta de Flávio. Um integrante da pré-campanha, falando sob reserva, reconhece que Bolsonaro é um ponto forte da candidatura, que está na raiz dela, e que é natural que Flávio carregue o legado do pai. Nas viagens que o senador faz pelo país, é comum ser recebido com gritos de "Volta, Bolsonaro". A expectativa é que as lives se tornem periódicas, com alta frequência e engajamento.
Mas a emulação do pai não exclui acenos para o centro político. Um membro da campanha argumenta que Flávio atualiza o discurso do bolsonarismo ao manifestar apoio à manutenção do Bolsa Família e ao defender pautas voltadas às mulheres. Uma das principais preocupações da campanha é reverter a vantagem que o presidente Lula mantém entre o eleitorado feminino, conforme mostram pesquisas recentes. Na transmissão do dia 23, Flávio defendeu "castração química" para estupradores e afirmou que "mulher é pauta da direita".
Camila Rocha, cientista política do Cebrap, observa que o acionamento de características do ex-presidente e a tentativa de se aproximar de eleitores indecisos não são estratégias contraditórias. Eleitores pendulares sempre podem argumentar que Flávio não é o pai dele—que é diferente de Jair, que não fica falando palavrão, que não é superagressivo. Ao emular Bolsonaro, Flávio tenta moldar sua imagem de forma mais positiva após a série de notícias negativas. "As eleições vão, de fato, começar. Me parece uma forma de limpar o terreno, de reafirmar esse compromisso", diz Rocha. A reprodução parece ter como objetivo engajar a base e gerar mobilização para o período eleitoral. Os apoiadores mais entusiasmados votariam em Flávio de qualquer maneira, mas a questão é com qual energia eles vão para as eleições: empolgados e animados, ou pensando que prefeririam votar no Jair.
A intensificação de referências ao ex-presidente também veio após críticas públicas de bolsonaristas insatisfeitos com o rumo da pré-campanha. No início de julho, youtubers como Paulo Figueiredo e Kim Paim, ligados ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro, e Fabio Wajngarten, ex-secretário de Comunicação da gestão Bolsonaro, afirmaram nas redes sociais que a equipe era incompetente e que afastava Flávio do DNA bolsonarista. Naquele momento, Wajngarten pediu a entrada do marqueteiro Duda Lima no time. No dia 30 de julho, após meses de negações, Duda foi anunciado como chefe da comunicação, substituindo Alexandre Oltramari e Eduardo Fischer. Integrantes do PL disseram que a base estava desmobilizada e que faltava contato mais direto de Flávio com os apoiadores, inclusive em agendas de rua. Um deles lembrou que Bolsonaro era constantemente atingido pelo noticiário negativo, mas que no dia seguinte havia mil pessoas ao seu redor, o que ajudava a dar legitimidade e fortalecer sua imagem como líder político.
Além das lives, Flávio tem seguido os passos do pai no enfrentamento direto ao ministro do STF Alexandre de Moraes, que o proibiu de visitar o ex-presidente por 90 dias após a divulgação de uma carta na qual Bolsonaro diz que o filho é seu porta-voz. Para o magistrado, Flávio descumpriu a medida cautelar que proíbe o pai de usar redes sociais. A marca de Bolsonaro também esteve presente em um evento com embaixadores em Brasília no dia 21 de julho, no qual Flávio espalhou informações falsas sobre as urnas eletrônicas, afirmando que as urnas brasileiras têm a mesma origem das urnas da empresa venezuelana Smartmatic, o que é falso. Bolsonaro foi lembrado diversas vezes na convenção do PL que confirmou Flávio como candidato à Presidência, inclusive com o uso de uma mensagem produzida por inteligência artificial, agora no centro de uma disputa jurídica na Suprema Corte. No evento, o senador reforçou em vários momentos sua identidade como "o filho mais velho do capitão".
Citações Notáveis
Vou fazer como o presidente Bolsonaro fazia, aqui, e mostrar algumas matérias para vocês, absurdas— Flávio Bolsonaro, em transmissão ao vivo no dia 23 de julho
As eleições vão, de fato, começar. Me parece uma forma de limpar o terreno, de reafirmar esse compromisso— Camila Rocha, cientista política do Cebrap